17/11/2025
Negociações Solares, Cansaços Partilhados e Outros Rituais Tropicais
A noite cai devagar sobre nós e partimos rumo a Bissau com o cansaço colado ao corpo. Não somos os únicos. Os nossos veículos avançam como guerreiros veteranos, a chiar e a suspirar, conscientes de que este será o seu último acto antes de mudarem de mãos.
Há quem pense que viajamos apenas por estrada, mas na verdade percorremos também a história da nossa pequena missão. No início da aventura AfricaCoeur queríamos deixar os carros na aldeia, um gesto de gratidão. O chefe explicou-nos, com uma sinceridade desarmante, que não tinham meios sequer para lhes pôr gasolina. Assim nasceu o destino final dos nossos destroyers: a venda na capital, para que o dinheiro volte a alimentar sonhos.
Chegamos ao posto da alfândega. O Momo e eu somos chamados para o gabinete do chefe. Ele olha para nós como quem avalia duas peças de teatro ambulante e explica, com ar imperturbável, que é preciso desalfandegar os carros ao valor real dos mesmos. Depois das habituais voltas às palavras, damos também uma volta aos nossos engenhos, quase como quem revê velhos companheiros de batalha. A proposta chega em tom de confidência: se lhe vendermos um carro, ele trata do resto com “facilidades”.
A negociação começa. A cena parece escrita por um dramaturgo com gosto pelo absurdo. Nada é linear, tudo é teatral, e a integridade destes homens mistura-se com a lógica da fronteira num equilíbrio tão improvável que até dá vontade de rir. No fim, o carro português encontra novo dono e nós encontramos o limite das nossas energias.
Seguimos para Bissau. A cidade abre-se diante de nós como uma formigueira iluminada, barulhenta e viva. Para alguns, a chegada nocturna é um verdadeiro baptismo, um mergulho repentino numa coreografia caótica onde tudo se move ao mesmo tempo.
Amanhã será dia de descanso. Prometemos a nós próprios um olhar mais demorado sobre os cantos da cidade e uma busca por parceiros que nos ajudem a trazer sol em forma de painéis. Por agora, deixamo-nos embalar pelo silêncio que finalmente chega. ✍️Sandrine