26/04/2026
Andam murmúrios pelo monte .
O monte espreguiça-se ao longo da lezíria tendo, em toda a sua extensão, um ribeiro à cintura … No freixo mais alto a cegonha anda num vai e vem continuo trazendo no bico dourado pequenos peixes pescados no ventre do ribeiro para alimentar as crias no ninho que lá no alto faz lembrar um turbante enorme suspenso no espaço … Em redor do monte existe um prado com arvores de frutas e, uma fonte que murmura lindas canções de embalar a fazer lembrar uma morna … A agua fresca que é debitada, sem parar no tanque enorme, nos convida a mergulhar na sua agua limpa e calma. A ladear o tanque arvoredo verde que deixa a velha nora movida pela força do Sebastião, o velho b***o de estimação de Manuel Diogo que nas voltas que a nora dá tem ele conversas de deus e do diabo.
As andorinhas cruzam os céus em movimentos bruscos emitindo um sonoro chilrear que f**a atormentado os nossos ouvidos. Os pardais são aos bandos; de quando enquanto poisam no chão e, aos saltinhos vão debicando aqui e ali levando no seu pequeno bico alimento para seus pequenos filhotes …. Esperto é o pardal que tem faro apurado para recolher do chão grãos de trigos perdidos dos sacos que horas antes os homens carregaram ao ombro para o celeiro do monte.
O melro envolto no silvado da ribeiro solta um sonoro assobio que ecoa no monte de lés talvez porque avista ao longe nos céus a águia real em voo rasante e ameaçador.
António anda curvado sobre a terra de enxada na mão. Abre os regos com suas mãos calejadas para que todas as plantas recebam a bênção da água que alimenta e transforma os ingredientes da terra. Por aqui cultiva-se a lei ancestral do homem e da terra: a terra me dá de comer eu darei à terra em morrendo. António é o hortelão do monte e traz a horta num brinco! Ali todas as hortaliças, ali todos os legumes, ali todos os temperos e ali todos os frutos. Tomates de encher a mão, couves enrugadas e lisas, nabiças para dar e vender, pepinos, pimentões verdes e vermelhos …em canteiros bordados pacientemente à mão, a cheirosa hortelã e coentros, a delicada salsa. Tudo em tons verdes para encantar os sentidos.
O sol sobe no horizonte. Adivinha-se um dia solarengo daqueles que deixam um homem suando que nem um cavalo. O sol por aqui quando aberta queima. António sabe disso e para se proteger usa na cabeça chapéu de palha de aba larga e para proteger ainda mais, um lenço grande de assoar que lhe protege as orelhas e o pescoço. Quando o suor pica ergue-se e em gesto continuo tira o chapéu da cabeça e usa o lenço para limpar o rosto.
Pelas veredas da horta António avista Luísa que vem na sua direção com os olhos cravados no chão para evitar pisar, partir ou estragar as plantas que António cuida como ninguém; traz consigo um largo cesto debaixo do braço que daqui a pouco estará cheio de tudo o que for necessário para o almoço da casa.
-Bom dia mulher. Parece que hoje vens bêbada …? Tinha notado que Luísa vinha cambaleante o que não era muito natural numa rapariga de energia e saúde para dar e vender.
-Olha hoje não acordei muito bem …Tonda , enjoada com o corpo a pedir cama.
-Mau mulher que andas tu a fazer …(solta pequenos risos)-Essa coisa dos enjoos e tonturas quando dá nas mulheres a barriga começa a crescer !!!
-Cruzes António!!! Dás sempre com as tuas invenções … Antoni é mestre do hortejo, mas também percebe de mulheres e embora estivesse na brincadeira notou nos olhos de Luísa uma certa inquietação. Vocês querem lá ver que vem por ai novidade? António ficou certo disso, mas parou por ali os gracejos f**ando isso sim com a pulga atras da orelha. Luísa era sã que nem uma pera e estas queixas lhe pareciam muito estranhas.
-Bom, mas deixamos lá isto…dá cá o cesto que eu faço o avio por ti. Faz precisar do quê para o almoço …?
-Olha colhe ai uma mão cheia de temperos que algumas couves galegas que hoje o almoço vai ser feijão riscado.
António fez o serviço rapidamente e não tardou que o cesto estivesse pronto para Luísa regressar à casa mais concretamente à cozinha dos ganhões.
-Toma lá. Dá tudo ai e, olha leva ali uma erva cidreira para fazeres um chá! Pode ser que a má disposição passe , nâ é ?
-Obrigado e até mais logo António…
Luísa usava uma bata florida com romãs e peras exatamente iguais aquelas que havia na horta. Para não sujar a bata um encardido avental às riscas verticais e usava o bolso do avental para disfarçar o nervosismo. Sim aquela brincadeira sem graça do António deixou nela uma cisma sem parar…
Luísa sobe as empinadas escadas da cozinha do monte. Traz no cesto ao quadril hortaliças da horta, couves, betadas e cenouras e vai preparar o almoço para o pessoal serviçal. Quando chega ao cimo das escadas solta um sonoro lamento:
-Estas escadas matam-me! Parece que vou deitar os bócios pela boca …
Exaurida senta-se numa velha cadeira que sempre ali esta para as emergências. Em seu socorro vem a patroa, serena e altiva, dona gloria lhe recomenda que vá descansar que ela ira chamar outra criada para continuar as lides da cozinha. Hoje o almoço vai tardar e dona Gloria se recolhe na capela anexa à cozinha para fazer suas orações matinais, aonde certamente pedirá a Deus paciência para conseguir governar a casa enorme do Monte da Azenha Branca. Armando seu esposo é um rustico que das lides domesticas nada sabe. Com ele sabe que não pode contar … Mas a Justina é uma mulher de armas e Dona Gloria recorre a ela para solucionar a doença súbita da Luísa. Manda recado pela velha criada Bernardina para Justina que a essa hora ciranda farinha de trigo para a massa do pão que depois de amassada entrara no grande forno do monte para ser cozida e posteriormente dar à luz sedosos e apetitosos fanecos.
Bernardina branda por Justina, mas o barulho da moedora movida a água da levada, não deixa a mesma ouvir o chamamento. Já irritada entra pela porta adentro e solta um impropério:
-Ó mulher és surda? Estou brandando por ti à mais de uma hora! Dás surda que nem uma mula.
Justina que facilmente f**a azeda e nunca deixa nada por dizer responde à letra:
-Há de pensar que não tenho mais nada que fazer que ouvir os seus berros! Diga lá o que é velha chata …?
-Tem tento nessa língua rapariga que tenho idade para ser tua mãe. Olha vai à patroa que ela quer falar contigo.
-Essa também se julga o centro do mundo. Que raio quer a mulher?
-Sei lá eu! Volta-lhe as costas resmungando pelos corredores da casa numa ladainha indecifrável. Consta que nunca morreram de amores uma pela outra desde que Bernardina contou no monte que Justina estava à conversa com José a horas tardias assim pelo sol posto quando os olhos já não enxergam tudo. Mas Bernardina garante que viu José repinicar um sonoro beijo nos lábios de Justina! Proveito não se sabe, mas da fama nunca mais se livrou. Porem o tempo haveria de provar que de parva Bernardina nada tinha…
Justina subiu as tais escadas empinadas em passos firmes e ao contraio de Luísa, foi como se bebesse um copo água fresca da fonte da horta. Justina vendia saúde e, apresentava uma força física invulgar. A sua bravura e genica muitas vezes a faziam confundir com um homem!
Na cozinha as auxiliares andam numa azafama sem parar. Dona Gloria no seu vestido preto nunca se comprometia. Seca, mas segura olhou nos olhos de Justina cuja rebeldia conhecia e disparou:
- Preciso da sua agudeza, da sua agilidade para preparamos o almoço para o pessoal. Luísa sente-se doente e não podemos deixar os homens sem almoço.
- Sim senhor. Pode a patroa f**ar descansada que o almoço vai sair a tempo e a horas ,não me chame eu Justina!
Não deixou transparecer mas naquele momento apetecia-lhe mandar a velha e a patroa à m***a. Estava irritada e novamente preocupada : aquela vontade constante em deitar fora começava seriamente a preocupá-la … Será que na noite do beijo roubado os olhos de Bernardina não viram tudo …? A cozinha ia certamente ser a pior divisão da casa para o seu estado que ela suspeitava mas ainda não sabia …Contrariada lá foi e iria fazer das tripas coração para continuar a enganar tudo e todos .