16/10/2026
O Lugar Onde o Bosque Se Prepara
Há um pequeno recanto onde as árvores crescem tão perto umas das outras que quase conseguem guardar um segredo.
Por entre os ramos corre uma ribeira de água clara. Em certos lugares desliza devagar, como se estivesse a descansar; noutros, encontra pedras pelo caminho e transforma-se numa pequena queda de água.
É ali que, quando o verão começa a despedir-se, aparecem os primeiros sinais de movimento.
Os duendes saem debaixo das raízes antes de amanhecer.
Passam entre as pedras à procura de bolotas, sementes e pequenos frutos que possam guardar para os dias frios. Alguns limpam os caminhos da água, afastando galhos e folhas para que a chuva do inverno possa passar sem se perder.
Há um duende particularmente cuidadoso que verifica todas as reservas.
Conta as sementes uma vez.
Depois outra.
E uma terceira, porque nunca se lembra se já as contou ou se comeu alguma entretanto.
As fadas preferem trabalhar junto à ribeira.
Logo pela manhã, recolhem as gotas que ficam presas nas folhas e guardam-nas em pequenas conchas escondidas entre o musgo.
Também escolhem as folhas que já cumpriram o seu tempo.
Não as levam embora.
Deixam-nas cair junto das raízes, porque sabem que aquilo que parece terminar no outono ainda terá trabalho a fazer debaixo da terra.
À medida que os dias ficam mais pequenos, o bosque vai mudando.
Os frutos são guardados.
As sementes encontram abrigo.
As raízes recebem o seu cobertor de folhas.
E a água continua a correr.
À noite, quando já ninguém passa pelo caminho, dizem que aparecem pequeninas luzes junto à queda de água.
São as fadas a verificar se tudo está pronto.
Às vezes, um duende deixa cair uma bolota.
Outra vez.
E ouve-se uma gargalhada pequenina entre as árvores.
Quando finalmente chega o inverno, o lugar parece adormecer.
Mas só parece.
Debaixo das folhas, dentro da terra e atrás das pedras, há sementes a esperar, raízes a trabalhar e pequenas criaturas a guardar aquilo que será necessário quando o bosque voltar a acordar.
E a ribeira continua o seu caminho, sabendo talvez aquilo que os duendes e as fadas já aprenderam há muito tempo:
há coisas que precisam de crescer à luz…
e outras que só começam a acontecer quando ninguém está a olhar.