10/06/2025
“𝐔𝐦 𝐯𝐢𝐬𝐭𝐨 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐚 𝐯𝐢𝐝𝐚” 𝐥𝐞𝐯𝐨𝐮 𝐞𝐦𝐨çã𝐨 𝐞 𝐡𝐮𝐦𝐨𝐫 𝐚𝐨 𝐚𝐧𝐭𝐢𝐠𝐨 𝐬𝐚𝐥ã𝐨 𝐝𝐞 𝐭𝐞𝐚𝐭𝐫𝐨 𝐝𝐞 𝐂𝐚𝐛𝐚𝐧𝐚𝐬 𝐝𝐞 𝐕𝐢𝐫𝐢𝐚𝐭𝐨
𝗚𝗿𝘂𝗽𝗼 𝗱𝗲 𝘁𝗲𝗮𝘁𝗿𝗼 "𝗢 𝗕𝗮𝗹𝘂𝗮𝗿𝘁𝗲" 𝘀𝘂𝗿𝗽𝗿𝗲𝗲𝗻𝗱𝗲𝘂 𝗻𝗮 𝗱𝗿𝗮𝗺𝗮𝘁𝘂𝗿𝗴𝗶𝗮 𝗲 𝗯𝗿𝗶𝗹𝗵𝗼𝘂 𝗻𝗮 𝗶𝗻𝘁𝗲𝗿𝗽𝗿𝗲𝘁𝗮çã𝗼
"Foi surpreendente a interpretação que Albano Jorge, na personagem de Aristides Sousa Mendes, e João Paulo, no papel do rabino Chaim Kruger, tiveram na peça “Um visto para a vida”, levada pelo grupo de teatro “O Baluarte”, de Amoreira da Gândara (Anadia), ao antigo salão de teatro da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Cabanas de Viriato, ontem, 31 de Maio de 2025.
Logo no começo, Albano Jorge conquistou a assistência com o brilhante monólogo em que pôs Aristides a contestar uma notícia de jornal onde eram dados louros a Salazar no acolhimento dos refugiados da segunda guerra mundial em Portugal.
Com o palco transformado na casa de Clotilde Mendes, filha de Aristides de Sousa Mendes, quando vivia na Figueira da Foz, encenou-se ali uma viagem temporal com início em Setembro de 1938, através de um diálogo analítico e descritivo acerca dos momentos que cimentaram a amizade entre o cônsul e o rabino e que marcaram a dimensão humana de Aristides Sousa Mendes no apoio àqueles refugiados.
A encenação do encontro entre Aristides e Kruger em Lisboa, no início da década de 1940, altura em que o diplomata cabanense já tinha sofrido um AVC e estava afastado das suas funções e proibido de exercer advocacia, trouxe ao diálogo a lembrança de acontecimentos tão bem caracterizados e com tamanha naturalidade que parecia assistir-se a cenas reais, mesmo quando havia humor.
Os tons de voz e as expressões, aliadas à subtileza e à intensidade do diálogo, faziam o espectador sentir a sensação de autenticidade nas recordações dramatizadas, como por exemplo na resposta de Aristides ao rabino quando este agradeceu os vistos para as 28 famílias de judeus que o acompanhavam em Bordéus, dizendo pesarosamente: “O que fiz foi pouco, devia ter feito mais!”. Uma frase que encontrou momentos para ser repetida e soar a realidade.
Nada do diálogo pareceu forçado ou enfatizado, numa cadência fiel e correcta dos acontecimentos e da forma como foram vividos, levando o público a perceber melhor a consciência que Aristides tinha do risco que corria ao desobedecer a ordens superiores para salvar milhares de pessoas das perseguições n***s.
O “Baluarte" apresenta-se como um grupo de teatro "profissionalmente" amador, mas será difícil a actores profissionais ter melhor desempenho nos papéis que Albano Jorge e João Paulo ali interpretaram. Foram de todo merecidos os calorosos aplausos da plateia, assim como as palavras e as lembranças com que foram obsequiados no final, ficando até o desejo de que se apresentem noutros palcos do concelho.
A data coincidiu com o falecimento de José Pereira Dias, figura querida e respeitada de Cabanas de Viriato, amigo de fazer o bem e de ser útil à comunidade, tendo, no que diz respeito à Associação dos Bombeiros Voluntários, organizadora do espectáculo, sido seu presidente da Direcção e presidente da Assembleia Geral, cuja dedicação viria a ser premiada pela Liga dos Bombeiros com o crachá de ouro.
Aquela coincidência seria razão para adiamento da apresentação da peça de teatro, mas foi mantida, em acordo com a família, como homenagem a José Pereira Dias, facto que ali foi elucidado e bastante aplaudido. "
🎭 Lino Dias
©️ Farol Da Nossa Terra