25/05/2026
*Bem-haja o Interior XXVIII*
*Duas expressões, um modo de ser e estar*
Em Novembro de 2023, escrevi a minha primeira crónica para o Praça Alta. Abordei a temática de uma expressão muito particular das Beiras, raramente usada fora da região. Nas crónicas subsequentes, comecei a usar essa mesma expressão como título das mesmas. Falo do termo “bem-haja”, que, como referi, é muito comum por estas bandas. É certamente usado folgadamente por quem daqui é ou vive e não causa qualquer estranheza a quem o ouve quando proferido.
Quando é verbalizado fora da nossa região, a ouvidos menos habituados, costuma dar azo a elogios, boa disposição e uma curiosidade alegre quase imediata: de onde vem? quem fala assim? Há ali qualquer coisa que soa a antigo, mas não ultrapassado; um toque de formalidade, mas não distante. Sem esforço, carrega consigo uma certa identidade e que, até cai bem.
Há um ditado muito, muito antigo, mais universal: “Quando em Roma, sê romano!”, que pretende clarificar ou ensinar como se deve proceder quando se visita um lugar pela primeira vez, ou seja, que se deve observar as formas, os costumes, as leis e as regras, escritas ou não, desse local. Continuo a recorrer, por instinto ou hábito, ao simples “obrigado” pois é-me mais automático, mais neutro, mais instintivo. Reconheço que talvez também mais pobre porque, “bem-haja” não é apenas um agradecimento é quase um voto, um desejo, uma pequena bênção laica que se deixa no fim de uma frase. Tenho esperança de que um dia consiga dizer “bem-haja” sem qualquer hesitação, sem o sentir como algo ensaiado ou importado, mas sim como parte natural da minha forma de estar.
Há, no entanto, uma outra expressão muito particular aqui nas Beiras que me desperta uma curiosidade quase antropológica. Duas palavras que procuram condensar uma mescla de sentimentos: saudação e um desejo na continuidade de boa saúde e sorte seja no que for.
É o : “boa continuação!”.
O curioso desta expressão é que raramente surge em momentos solenes. Não se reserva para ocasiões especiais nem exige contexto formal. Surge no fim de uma conversa breve em que os interlocutores estão a caminho de uma actividade e ambos sabem que o dia de trabalho ainda não acabou e ainda vai longo. Aparece, sobretudo, no quotidiano: no cruzamento de um caminho em que um pode estar num trator e outro a pé ou numa carrinha. É discreta, quase funcional, mas não é vazia.
“Boa continuação!” não olha para trás, como o “obrigado”, nem paira acima da frase, como o “bem-haja”. Aponta para a frente. Reconhece o que está em curso, o trabalho, o esforço, o dia e há um desejo que se prossiga sem sobressaltos e que culmine em êxito por muito simples que seja. Há ali uma espécie de entendimento silencioso: “…sei que ainda tens caminho para fazer. Força nisso!”.
Num tempo em que tanto se valoriza o imediato, o encerrado, o concluído, esta expressão insiste no inacabado; no que continua; no que ainda está por cumprir. Embora menos poética do que “bem-haja”, traz consigo uma carga muito própria: um certo respeito pelo ritmo do outro, pela tarefa em mãos, pela continuidade da vida tal como ela é feita, mais no processo do que do final.
Entre o agradecimento e o desejo, entre o que foi e o que ainda vem, há uma forma de estar que se revela nas palavras mais simples e talvez seja mesmo isso que levamos connosco, sem dar por isso: não apenas o que dizemos, mas a maneira como escolhemos continuar através de duas expressões que revelam um modo de ser e estar.
(Filipe Conceição Silva)