10/10/2026
QUINZE ANOS DEPOIS, AINDA SONHO COM UM LUGAR SEGURO PARA OS GATOS DE RUA
Escrevo em meu nome pessoal, enquanto fundadora da Associação Onde Há Gato (OHG). Não escrevo apenas como presidente de uma associação, mas como alguém que, há 15 anos, decidiu que não podia continuar a olhar para a realidade dos gatos de rua sem fazer alguma coisa.
Em 2011, inspirada pelo trabalho da Animais de Rua, que apoiava como podia, ganhei coragem para dar os primeiros passos. Em 2012, com o apoio do então veterinário municipal, Dr. Mário Magalhães, conseguimos a esterilização gratuita de duas gatas e um gato.
Os dias organizavam-se em função deles. Ao domingo, fazia as capturas. Na segunda-feira, bem cedo, antes de ir trabalhar, deixava os animais no canil, a Fátima Centeno e a Amélia iam buscá-los. Pelo meio, recorríamos a donativos para conseguir esterilizações a preços solidários. Aos sábados, ia com a Amélia à LPDA, levando cerca de oito a dez gatos para esterilizar.
Era assim que começávamos: com pouco, muita vontade e a convicção de que cada animal esterilizado signif**ava menos sofrimento no futuro.
Acredito na importância de fazer as coisas com responsabilidade e enquadramento legal. Por isso, a 14 de março de 2013, nasceu a Onde Há Gato — Onde Há Gato, Não Há Rato.
Continuámos a aproveitar todas as oportunidades para esterilizar, recorrendo ao SVM, à LPDA e às clínicas onde os donativos nos permitiam chegar. Cada esterilização era uma pequena vitória numa luta muito maior do que nós.
Em dezembro de 2020, assinámos um protocolo com o Município de Almada, que se mantém em vigor. Contudo, os valores atribuídos e o número de animais abrangidos continuam inalterados, apesar do aumento dos custos e de uma realidade que não parou de crescer.
É assim que tentamos gerir diariamente o Programa CED num concelho onde o abandono e a reprodução descontrolada dos gatos continuam a ser uma dura realidade. Para quem está no terreno, é um murro no estômago todos os dias.
A vida dos gatos de rua não cabe numa estatística
Para quem nunca acompanhou esta realidade, pode parecer que basta capturar, esterilizar e devolver. Que basta alimentar ou encontrar alguém disposto a ajudar.
Mas a vida de um gato de rua é muito mais dura do que aquilo que cabe numa fotografia.
É nascer sem que ninguém o tenha desejado, crescer exposto ao frio, ao calor, à fome, às doenças, aos atropelamentos e à crueldade. É viver em permanente alerta e, muitas vezes, morrer sem nunca conhecer o conforto de um lar.
É ver gatas demasiado jovens engravidarem, ninhadas nascerem em locais inseguros e bebés morrerem antes de alguém os encontrar. É receber animais doentes e debilitados, que precisam de tratamentos prolongados, quando finalmente conseguimos capturá-los.
É também acompanhar pessoas que alimentam colónias há anos, muitas vezes sozinhas e com os seus próprios recursos. Pessoas que envelhecem, adoecem ou deixam de ter capacidade financeira e física para continuar. Mas os gatos permanecem lá, dependentes de cuidados que alguém terá de assegurar.
A reprodução não espera que existam vagas. O abandono não espera que haja dinheiro. A doença não espera que uma associação tenha disponibilidade.
O sofrimento não f**a em suspenso só porque o sistema não consegue responder.
E depois há a dança dos números
Gosto de números e de estatística. São essenciais para avaliar o trabalho realizado, identif**ar falhas e perceber o que precisa de mudar.
Mas, enquanto presidente da OHG, o que mais desejo é que os números traduzam um verdadeiro Programa CED: uma intervenção consistente, continuada e capaz de resolver o problema na sua origem. Que signifiquem menos ninhadas, menos abandono e menos sofrimento.
Podemos contar esterilizações, colónias e intervenções, apresentar relatórios e mostrar resultados. Mas, se a reprodução continua descontrolada, os animais continuam a ser abandonados e as colónias não param de crescer, temos de reconhecer que ainda não estamos a chegar onde precisamos.
Gostava de sentir orgulho por viver num concelho onde o bem-estar animal e o controlo populacional dos gatos de rua fossem uma realidade consolidada. Um território com capacidade para prevenir, intervir e acompanhar, onde nenhuma colónia f**asse esquecida e ninguém que cuida de animais fosse deixado sozinho perante um problema que não consegue resolver.
Mas não é essa a realidade que encontro.
A irresponsabilidade de quem deixa reproduzir, o abandono e a falta de empatia alimentam o problema. A insuficiência de respostas atempadas e de capacidade operacional agrava-o. E as associações, que já trabalham no limite, são frequentemente vistas como a solução para tudo.
Espera-se que uma associação sobrelotada, com uma funcionária e uma equipa de voluntários, consiga resolver todas as colónias, acolher todos os animais e responder a todas as urgências. Que resolva, num ápice, problemas acumulados durante anos.
Esta expectativa é irrealista e profundamente injusta, sobretudo para os animais que continuam à espera.
Uma associação pode salvar vidas e mudar destinos, mas não substitui as responsabilidades das entidades públicas, nem consegue corrigir sozinha a irresponsabilidade de uma sociedade inteira.
Reconhecer os nossos limites não signif**a falta de dedicação. Signif**a olhar para a realidade de frente.
Também eu tive um sonho
Durante muito tempo, acreditei que, se trabalhasse o suficiente, me entregasse à causa e não desistisse, conseguiria mudar esta realidade.
Foram 15 anos de capturas, tratamentos, esterilizações, contas, relatórios, pedidos de ajuda, noites mal dormidas e decisões difíceis. Quinze anos em que os animais nos obrigam a continuar, mesmo quando já não temos forças.
Houve alegrias, vidas salvas e pequenas vitórias que nunca esquecerei. Mas também houve perdas, impotência e a consciência dolorosa de que, por mais que façamos, há sempre outros à espera.
O tempo passa, o cansaço acumula-se e o desgaste deixa marcas que nem sempre se veem.
Hoje, quando olho para trás, tenho de admitir algo que me custa: sinto que falhei no sonho que me trouxe até aqui.
Não porque não tenha tentado, nem porque tenha deixado de trabalhar, mas porque, depois de tantos anos, continuo sem conseguir oferecer a muitos destes animais aquilo que sempre desejei: um lugar seguro onde possam viver sem medo.
E custa-me pensar que, no final, quem mais perde são eles. Os que continuam nas ruas, expostos aos perigos; os que nascem sem condições para sobreviver; os que adoecem e não encontram resposta a tempo; e os que passam anos confinados porque não existe um espaço adequado onde possam recuperar, envelhecer ou simplesmente viver.
É difícil aceitar que o bem-estar animal continue tão dependente da boa vontade, da resistência e dos recursos de quem se disponibiliza para ajudar. Que, depois de tantos anos de evolução da sociedade, continuemos a discutir o básico: prevenir o sofrimento, esterilizar, proteger e garantir condições dignas de vida.
Não podemos continuar a tratar esta realidade como um problema menor, nem esperar que as associações resistam indefinidamente a algo que, sozinhas, nunca conseguirão resolver.
O sonho que ainda não consegui concretizar
Há um sonho que me acompanha há muito tempo: ter um terreno para os animais da OHG.
Um espaço onde os gatos que não podem regressar à rua, os que não conseguem adaptar-se a uma vida doméstica e os que precisam de proteção possam viver em segurança.
Um terreno devidamente preparado, com abrigos, zonas de alimentação e espaço livre para se movimentarem, explorarem e descansarem. Um lugar onde não estejam condenados a passar a vida dentro de jaulas por não existir outra alternativa. Onde possam sentir o sol, procurar um recanto tranquilo e viver sem o medo constante de serem atropelados, perseguidos ou maltratados.
Um lugar onde eu possa olhar para eles e saber que, pelo menos ali, estão seguros. Que têm comida, cuidados e alguém que não os vai abandonar.
Não sonho com um grande centro, nem com uma estrutura grandiosa. Sonho com um terreno seguro, sustentável e pensado para as necessidades reais destes animais.
Sei que esse espaço não resolverá todos os problemas dos gatos de rua de Almada. Mas poderá mudar, de forma concreta, a vida daqueles que f**am à nossa responsabilidade.
Talvez tenha sido demasiado ingénua quando acreditei que a dedicação seria suficiente. Talvez tenha subestimado a dimensão do problema e a lentidão das mudanças. Mas não me arrependo de ter começado.
Se pudesse voltar a 2011, sabendo tudo o que sei hoje, talvez tivesse mais consciência das dificuldades. Talvez tivesse mais medo. Mas continuaria a querer que aqueles primeiros gatos fossem esterilizados, a evitar ninhadas indesejadas e a dar uma oportunidade aos que nasceram sem terem escolhido a vida que lhes coube.
Porque a vida de cada um deles tem valor, mesmo quando ninguém parece disposto a reconhecê-lo.
Hoje, já não tenho a mesma energia, nem a ilusão de que consigo mudar tudo apenas com a força de vontade. Tenho, porém, a mesma certeza: os gatos merecem mais do que aquilo que lhes temos dado enquanto sociedade.
Apesar do cansaço, ainda não consigo desistir completamente deste sonho.
Gostava de não terminar este percurso com a sensação de ter trabalhado uma vida inteira para chegar ao mesmo lugar. Gostava de ver concretizado aquilo que tantas vezes imaginei: um terreno onde os animais da OHG possam viver em segurança, com dignidade e liberdade, dentro das condições que lhes conseguirmos proporcionar.
Não sei se ainda vou conseguir. Mas gostava que este sonho não morresse comigo. Que um dia alguém olhasse para este percurso, percebesse o que faltou e ajudasse a tornar possível aquilo que, durante tantos anos, pareceu estar sempre fora do nosso alcance.
Porque, no meio dos números, dos protocolos e das limitações, nunca me esqueci da razão pela qual comecei.
Foram sempre os gatos.
Os que ninguém viu nascer. Os que ninguém quis. Os que vivem escondidos nas colónias. Os que chegam à associação sem forças. Os que não sabem pedir ajuda, mas dependem de nós para sobreviver.
A eles prometi fazer o que pudesse.
E, enquanto houver uma possibilidade de lhes dar um lugar seguro, quero acreditar que ainda não é tarde.
O meu sonho continua a ser simples: um pedaço de terra, espaço para viver, segurança para descansar e a certeza de que, ali, nenhum gato será deixado para trás.
QUEM SABE SE ESTE SONHO NÃO SE TORNA REAL?
É DE FACTO ESPANTOSO!
Vamos ter de discutir a proposta do governo para o bem estar animal para 2027 , sem conhecermos os resultados da execução das verbas em 2025.
É a 1º vez que tal acontece, claro que iremos recorrer, por uma questão de princípio, à Comissão de Acesso aos Dados Administrativos (CADA) cujos pareceres não têm a força de lei... pelo que tudo f**ará dependente do governo obrigar ou não a DGAV a publicar os resultados!
Em 2024 , o mapa do continente era assim:
As manchas cinzenta e vermelha ( respectivamente, concelhos que não se candidataram aos apoios do ICNF e que fizeram unicamente até 200 esterilizações durante o ano) são as mais extensas.
Concelhos com mais de 800 esterilizações , 17.
Em 2025 foi ainda pior ? Começamos a temer que assim tenha sido.