16/04/2026
A oliveira em Romanos 11: aspetos biológicos
Publicámos nesta página do Facebook uma série de 10+1 razões suscetíveis de fazer nascer, no coração dos cristãos, uma afeição e uma preocupação pelo povo judaico. Estas 11 razões podem ser descarregadas aqui:
https://drive.google.com/file/d/12T6PC93w04M44I7yeafLZ_jv4WsEVhxr/view?usp=sharing
A 3.ª razão evoca a parábola do apóstolo Paulo, que compara os cristãos de origem não judaica a ramos de oliveira brava enxertados na oliveira mansa, a qual representa o povo eleito, a descendência de Abraão, por meio da qual Deus se revelou e quer abençoar o mundo.
Se Paulo utilizou o enxerto da oliveira, é porque, na Antiguidade, no seio de sociedades não industrializadas e fortemente dependentes da agricultura, esta prática era comum em toda a bacia do Mediterrâneo. O processo, a sua utilidade e os seus benefícios eram provavelmente bem conhecidos, inclusive pelos habitantes das cidades. Para nós, modernos, pode, portanto, ser útil considerar alguns aspetos biológicos do enxerto, a fim de melhor compreender o que poderá ter influenciado a receção desta parábola pelos primeiros leitores da Epístola aos Romanos.
Vale a pena recordar que os ramos enxertados não produzem o mesmo tipo de azeitonas que os ramos naturais: o tamanho, a cor, o sabor ou o teor de óleo da azeitona dependem estritamente dos genes próprios (o ADN) do enxerto. Assim, a oliveira evocada por Paulo pode produzir vários tipos de azeitonas: os ramos naturais produzem frutos diferentes dos ramos enxertados e, se os enxertos provêm de diferentes oliveiras bravas, essas azeitonas também podem variar de um enxerto para outro. A oliveira enxertada da parábola torna-se assim uma bela imagem da Igreja descrita em Efésios 2: uma só árvore, assente numa só raiz, que produz diferentes tipos de frutos.
Importa ainda considerar que os enxertos são geralmente retirados de árvores que dão frutos muito bons, mas cuja raiz é pouco resistente às doenças ou carece de vigor. Assim, os ramos enxertados evocam estes gentios que não têm a lei e fazem naturalmente o que a lei prescreve, pois, a obra da lei está escrita nos seus corações (Rm 2, 14-15). É provável que, à semelhança de Cornélio, muitos desses primeiros cristãos vindos das nações fossem homens que procuravam a justiça e fugiam da idolatria e da depravação do mundo greco-romano. Assim, podiam beneficiar grandemente de serem enxertados na árvore que oferecia a seiva saudável de uma raiz comprovada: a história e a relação dos patriarcas e de Israel com o seu Deus.
Consideremos ainda o seguinte: cada azeitona é o produto de uma fecundação, isto é, da união de um óvulo contido numa flor com um grão de pólen produzido por outra parte da flor. Ora, como muitas outras árvores, as variedades de oliveira comuns em Portugal — Galega, Cobrançosa, Cordovil e Verdeal — apresentam uma taxa muito baixa de autopolinização, ou mesmo uma auto-incompatibilidade. Por outras palavras, as flores de uma oliveira produzem enormes quantidades de pólen que, no entanto, são incapazes de fecundar os óvulos das suas próprias flores ou das flores da mesma árvore, uma vez que o pólen e os óvulos possuem os mesmos genes. A fecundação torna-se eficaz quando o pólen e o óvulo têm genes ligeiramente diferentes, ou seja, quando provêm de variedades distintas.
O proprietário de um olival procura, portanto, plantar diferentes variedades lado a lado, para que o vento transporte o pólen de uma árvore para outra, assegurando a polinização cruzada e permitindo a fecundação. Ora, se a proximidade de variedades diferentes favorece a frutificação, isso é ainda mais verdadeiro no caso da enxertia, que coloca ramos geneticamente distintos na mesma árvore e facilita a polinização, mesmo na ausência de vento. Poderá ser que a proximidade de pagãos e judeus criada pela enxertia aumente a fertilidade de uns e de outros? Isto parece ter-se verificado nas ciências e nas artes durante os muitos séculos em que os judeus viveram na diáspora entre cristãos e árabes. A interação entre os judeus messiânicos e os cristãos das nações — que, nos termos de Atos 15, são livres de não se circuncidar, de não observar o shabat e as festas de Levítico 23, bem como de não comer kosher — enquanto os judeus messiânicos continuam a observar esses ritos — suscita ainda hoje intensos debates sobre o valor dessas tradições para os crentes.
Observemos ainda o caroço da azeitona. Se o tamanho, a cor e o sabor da polpa são determinados pelos genes do ramo que a suporta, isso não é verdade para o caroço, que constitui a semente destinada a dar origem a uma nova árvore. O caroço contém, em partes iguais, os genes do óvulo e os do pólen, reunindo assim características provenientes normalmente de duas variedades diferentes. As oliveiras que nascerão da germinação de um caroço serão, portanto, diferentes tanto da oliveira mansa como da oliveira brava, e também diferentes entre si, tal como os filhos de um mesmo casal. Assim, o enxerto pode igualmente aumentar a probabilidade de surgirem novas variedades híbridas, combinando propriedades da oliveira mansa e da enxertada. Transposto para o contexto espiritual, é possível que a proximidade entre judeus e cristãos possa dar origem a novas formas de comunidades que produzam novos tipos de frutos.
Pode então perguntar-se como é que variedades como Galega, Cobrançosa, Cordovil ou Verdeal conseguem manter-se estáveis, quando a reprodução natural gera continuamente novos tipos híbridos de oliveiras. A resposta está na forma como os produtores multiplicam as suas árvores: estas variedades são conservadas principalmente por clonagem — estacaria, enxertia ou rebentos (chupões) — e não por sementeira, precisamente para preservar as suas qualidades.
As oliveiras podem, de facto, viver quase indefinidamente — 2000 ou 3000 anos, ou mesmo mais. A sua morte deve-se geralmente a fatores externos (raios, abate, doenças). O envelhecimento das partes aéreas, causado nomeadamente pelos raios UV e pelos raios X cósmicos, não afeta a raiz, que produz continuamente novos rebentos que substituem progressivamente as partes antigas. Assim, as variedades que produzem bons frutos e resistem bem às doenças podem perdurar durante milénios. A oliveira torna-se, assim, uma bela imagem de Israel, que atravessa os séculos alimentando-se da seiva da sua raiz dada por Deus.
Não pretendemos, de modo algum, que a compreensão da parábola de Paulo exija encontrar um significado espiritual para cada um destes aspetos biológicos. Procuramos apenas imaginar aquilo que os primeiros leitores, pertencentes a uma sociedade largamente agrária do primeiro século, poderiam perceber através desta imagem.