04/09/2026
Lembro-me de quando era pequena, ajudar a minha avó a fazer estrelas de figo e ela me dizer: "Filha, quando olhamos para um figo seco ou para uma amêndoa, raramente pensamos nas mãos que trabalharam para que chegassem até nós. Mas foi dessas mãos que viveram os teus bisavós e muita gente desta terra”.
Os meus bisavós nasceram ambos em Alcantarilha, quando a aldeia era pequena e as pessoas viviam ao ritmo da Natureza. Não havia relógios a mandar na vida. Quem mandava era o Sol, a chuva e as estações do ano.
O meu bisavô era um homem do campo. Desde muito novo trabalhou nas terras do senhor Narciso Oliva, um dos grandes proprietários da freguesia. Conhecia cada figueira, cada amendoeira e cada alfarrobeira como quem conhece um velho amigo. Bastava-lhe olhar para o céu para saber se a chuva vinha perto ou se ainda demoraria dias.
A minha bisavó também nunca conheceu o descanso. Durante a campanha do figo trabalhava no Fumeiro de Alcantarilha, onde tantas mulheres da aldeia preparavam o figo seco que seguia para muitos lugares de Portugal e até para outros países. Escolhiam os melhores figos, espalmavam-nos cuidadosamente e arrumavam-nos com muito aprumo.
Quando a época do figo terminava, trabalhava na “Casa de Trabalho” com outras senhoras da terra. Sentavam-se diante dos bastidores e, com mãos pacientes, bordavam lençóis, toalhas e enxovais para noivas. Estas senhoras tinham um ponto tão certo que também ensinavam a bordar as meninas das famílias mais abastadas de Alcantarilha. A minha avó dizia que um bordado bonito não se faz com pressa, mas com paciência e dedicação.
O ano dos meus bisavós começava muito antes do primeiro dia de janeiro. Começava quando a Primavera acordava os campos.
Em abril, o meu bisavô fazia a “rasa” nas figueiras. Com a enxada desfazia as pequenas cristas de terra que tinham sido levantadas no outono. Fechava as fendas abertas pelo inverno e limpava as ervas que roubavam a humidade ao solo. Dizia que uma figueira bem tratada agradecia sempre no verão.
Depois chegava o calor. E com ele chegava o tempo mais intenso do ano.
Primeiro amadureciam os figos. Ainda o Sol mal despontava e já homens, mulheres e crianças andavam entre as figueiras. Os cestos enchiam-se depressa. Em casa, os figos eram cuidadosamente estendidos sobre os almanxares para secarem ao Sol. Todos os dias era preciso voltá-los, um a um, para que secassem por igual.
Mal terminava a campanha do figo, começava a da alfarroba. As longas varas batiam nas copas escuras das alfarrobeiras. As vagens pretas caíam com um ruído seco sobre a terra. Depois eram apanhadas, ensacadas e transportadas em burros e carroças.
Também nesta época se dava a apanha da amêndoa.
As varas voltavam aos ombros e batiam nos ramos das amendoeiras e as amêndoas caíam sobre os panos estendidos no chão. Era um som que se ouvia por todo o campo. O meu bisavô dizia muitas vezes que a amêndoa era o dinheiro que ajudava as famílias a passar o inverno. Era função das mulheres descascar e por a amêndoa a secar para durante o outono a partir para vender e alguma guardar para fazer os doces das épocas festivas.
Quando o calor começava finalmente a abrandar, não significava descanso.
Significava preparar o ano seguinte.
No outono podavam-se as amendoeiras, retirando os ramos secos para que a árvore ganhasse nova força na primavera seguinte. Nas figueiras fazia-se a “cava”. A terra era revolvida junto à projeção da copa e levantavam-se pequenas cristas para que as primeiras chuvas do inverno ficassem retidas e se infiltrassem lentamente junto das raízes.
Também as terras das sementeiras eram preparadas, porque o meu bisavô dizia que quem respeita a terra nunca espera pela última chuva.
No inverno, as chuvas descansavam os campos, mas não os homens.
Era tempo de reparar muros, limpar ferramentas, tratar dos animais e preparar tudo para mais um ano.
À noite, depois da ceia, a minha bisavó voltava a pegar no bastidor. À luz do candeeiro a petróleo, cada ponto era dado com a mesma perfeição do primeiro. Ainda hoje tenho toalhas bordados por ela e lençóis onde ela aplicava fitas de bordado industrial produzido pelas velhas máquinas da Singer, Oliva ou Pfaff, que comprava na retrosaria da aldeia ou aos ciganos que passavam por Alcantarilha. O meu bisavô observava-a em silêncio enquanto consertava uma ferramenta ou entrelaçava uma cesta de cana. Não precisavam de falar muito. Bastava-lhes estarem juntos.
Foi assim que viveram. Não tiveram riquezas, não conheceram férias, nunca viajaram para longe, mas deixaram algo que vale muito mais.
Ensinaram-me que o trabalho feito com honestidade dignifica qualquer pessoa. Que a paciência faz crescer as árvores, amadurecer os frutos e também formar o carácter. E que a terra retribui sempre a quem a trata com respeito.
Agora, sempre que vejo uma figueira carregada de figos, uma amendoeira em flor ou uma velha alfarrobeira a dar fruto, lembro-me das conversas da minha avó e da vida dos meus bisavós que nunca conheci.
E gosto de pensar que, enquanto houver alguém na nossa família que conte estas histórias, os meus bisavós continuarão a caminhar por estes campos de Alcantarilha, como caminharam durante toda a vida.