25/04/2025
No passado dia 23 de abril, Dia Internacional do Livro, foi promovida uma sessão dedicada à Literatura e à memória coletiva, celebrando a força da palavra escrita em contextos de repressão e liberdade. Hoje, 25 de abril, assinalando os 51 anos da Revolução dos Cravos, relembramos esse momento de forma ainda mais significativa.
A sessão teve como foco "Alcateia", o primeiro romance de Carlos de Oliveira (1921-1981), publicado originalmente em 1944. A obra, que sofreu dura repressão pela censura — com 1400 dos seus 1500 exemplares apreendidos — conhece uma segunda edição em 1945, rasurada, permanecendo 70 anos sem nova edição. Este livro simboliza, como poucos, os mecanismos de silenciamento da ditadura e os limites impostos à criação literária.
A apresentação da obra esteve a cargo da Mestre em Criações Literárias Contemporâneas, Ana Viegas, que nos guiou através do contexto histórico e literário de "Alcateia", revelando a profundidade de uma obra onde o realismo é um instrumento de resistência. Nas suas palavras, o livro representava, para a censura do Estado Novo, "tudo o que podia ser considerado perigoso". Nestes tempos, quando censurado, o escritor era alvo de uma verdadeira tentativa de apagamento social: censura prévia, interdição do acesso à imprensa, vigilância e pressão constante.
Ana Viegas destacou o método brutal e sistemático da censura: riscar, cortar, eliminar — até que o texto se moldasse ao que era permitido. Contudo, o que resta dessas ausências não é apenas o vazio: "O silêncio passa a fazer parte da obra", afirmou. E esse silêncio torna-se um testemunho histórico, um vestígio eloquente da violência exercida sobre a palavra.
Curiosamente, "Alcateia" foi a única obra de Carlos de Oliveira que não sofreu processo de reescrita, embora, como a investigadora partilhou, no espólio do autor tenha sido encontrado o esboço de um início desse processo de transformação.
Mas o que podemos, hoje, reflectir sobre esta obra?
"Alcateia" confronta-nos com o silenciamento — institucional, mas também íntimo e existencial — e com a resistência através da palavra. A escrita de Carlos de Oliveira, marcada por uma extrema visualidade, quase cinematográfica, antecipa já nesse primeiro romance a densidade poética e plástica que marcaria toda a sua obra. Não por acaso, um dos seus romances mais conhecidos, "Uma Abelha na Chuva" (1953), viria a ser adaptado ao cinema por Fernando Lopes, em 1972, num dos marcos do Novo Cinema Português.
A violência das ações narradas neste romance não é gratuita: procura sacudir a passividade instalada, sacode o conformismo social. Ao mesmo tempo, revela a tensão constante entre o indivíduo e a comunidade, entre instinto e ordem, entre voz e repressão. E como em outras obras do autor, encontramos personagens que regressarão — ou ecoarão — ao longo da sua ficção, numa teia literária onde tudo se liga e se transforma.
Ao revisitarmos este romance em mês tão simbólico, celebramos não apenas a Literatura, mas também a coragem daqueles que ousaram escrever contra o silêncio — e por isso, continuam a ser lidos, discutidos e lembrados.
Queremos agradecer à Ana Viegas pela excelente sessão e por um retrato tão consciente daqueles tempos. Viva o 25 de Abril!