15/05/2026
HISTÓRIA DE SUCESSO PROJECTO CUIDAR - VISAH
“Eu voltei a querer viver” – A história de Susana
Tudo aconteceu em Mussaia, a cerca de 25 km da vila de Maganja da Costa. Uma comunidade localizada numa região de difícil acesso, mas habitada por pessoas simples e resilientes. Aqui, depende-se maioritariamente da agricultura para sobreviver. A chuva, que deveria ser bênção, muitas vezes torna-se motivo de preocupação: quando não chove, chora-se pela falta de alimentos, quando chove demais, grita-se pelos prejuízos.
Não é para menos. Quando as chuvas são intensas, as machambas ficam inundadas, as culturas são levadas pela corrente, os diques rompem-se e os caminhos tornam-se intransitáveis. Nessas alturas, Mussaia isola-se, instala-se o desespero, e até as equipas humanitárias têm dificuldade em levar consigo a apoio que muda rostos e transforma famílias.
Foi exatamente isso que aconteceu entre os meses de janeiro e fevereiro. As águas subiram rapidamente e levaram quase tudo o que tínhamos.
Levaram a casa, as machambas e tudo o que foi conseguido com esforço de anos. Mas o que mais doeu a Susana não foi apenas a perda material — foi o silêncio que ficou depois.
O meu nome é Susana. Sou mãe solteira e vivo no bairro de reassentamento de Mussaia, no distrito de Maganja da Costa, província da Zambézia. Antes das inundações, a minha vida era simples, mas digna. Trabalhava nas minhas machambas e conseguia alimentar os meus filhos. Tínhamos pouco, mas era nosso.
Depois das cheias, fiquei sem nada. A dor das perdas e o peso das responsabilidades foram difíceis de suportar. “Sentia-me sem saída, sem apoio e sem esperança”, recorda Susana. “Houve momentos em que pensei em acabar com tudo.”
Na sua língua materna, ela partilha uma memória difícil: “muzizi muindyene guiubuwela yowila guidhumeye enumba na aymaga”. Traduzido significa: “por várias vezes pensei em arder a casa junto com as minhas crianças.”
A mudança começou num dia comum, durante uma actividade comunitária promovida pela VISAH no centro de reassentamento de Mussaia, em Maganja da Costa. Foi ali que Inusso, activista comunitário formado em MHPSS e PFA, se aproximou dela. Não trouxe promessas vazias. Trouxe algo simples, a escuta.
“Ele não me julgou. Só me ouviu”, diz Susana.
Inusso explicou-lhe sobre as brigadas móveis de Saúde Mental e Apoio Psicossocial implementadas no âmbito do projecto CUIDAR. Com cuidado e respeito, ajudou-a a entrar em contacto com o psicólogo da equipa.
Nas sessões de apoio psicológico encontrei, pela primeira vez, um espaço onde pude falar livremente sobre a minha dor.
“Aos poucos, fui aprendendo a compreender os meus sentimentos e a encontrar formas de seguir com a vida.” Disse a Susana, visivelmente emocionada.
Hoje, Susana ainda vive no reassentamento. Ainda enfrenta desafios. Mas já não enfrenta sozinha. Ela voltou a cultivar uma pequena machamba. Participa nas sessões comunitárias sobre direitos das mulheres e prevenção da violência baseada no género. E, acima de tudo, voltou a cuidar de si.
No final a Susana disse: “Agora, quando sinto a tristeza chegar, eu sei o que fazer. Já não penso em morrer. Penso em lutar pelos meus filhos.”
A história de Susana é uma entre muitas apoiadas pelo projecto CUIDAR, que leva serviços integrados de Saúde Mental e Apoio Psicossocial aos centros de acolhimento de Nomiua, Mussaia e Landinho, no distrito de Maganja da Costa, província da Zambézia.
As cheias mudaram a vida de Susana. Mas não definiram o seu fim, já integra o grupo de mulheres do centro, aprendeu sobre saúde mental, sobre violência baseada no género e sobre onde buscar apoio. Já é capaz de apoiar outras pessoas e se sente líder social local. Hoje, quando olha para os filhos a brincar, ela respira fundo e diz:
“Eu pensei que tudo tinha acabado. Mas ainda estou aqui. E enquanto eu estiver aqui, há esperança.”
E é nessa esperança silenciosa, mas firme que a VISAH com financiamento da OIM/RRF apoia a verdadeira reconstrução.