17/07/2026
ADVOGADO SENEGALÊS ACUSA AUTORIDADES GUINEENSES DE "JUSTIÇA SELETIVA" NO CASO DOMINGOS SIMÕES PEREIRA
O advogado e notário senegalês Boukounta Diallo, reforço da equipa de defesa de Domingos Simões Pereira (DSP), crítica à actuação das autoridades guineenses, classificando o processo contra o líder do PAIGC como um exemplo de "abordagem selectiva" da justiça e questionando a legitimidade de acusações de tentativa de golpe formuladas por um poder que, segundo afirma, chegou ao comando do país através de um golpe militar.
Detido preventivamente há três dias, Domingos Simões Pereira é acusado de envolvimento numa alegada tentativa de golpe de Estado ocorrida em Outubro de 2025, acusações que o antigo primeiro-ministro rejeita categoricamente.
A partir de Dakar, segundo RFI, Boukounta Diallo afirmou estar preparado para viajar "a qualquer momento" para Bissau, assim que for oficialmente convocado para integrar a defesa.
Embora reconheça ainda não conhecer o conteúdo integral do processo, o advogado considera que há uma evidente contradição política e jurídica.
"Fala-se muito da alegada tentativa de golpe de Outubro de 2025, mas ninguém fala do golpe bem-sucedido de Novembro, que levou a actual liderança ao poder. Como pode um Estado escolher quais golpes devem ser investigados e quais devem ser ignorados?", questionou.
Para Diallo, a selecção dos factos investigados levanta sérias dúvidas sobre a independência do sistema judicial.
Outro dos pontos mais criticados pelo advogado senegalês é o facto de Domingos Simões Pereira estar a responder perante um tribunal militar, apesar de ser civil.
"O facto de um civil ser julgado por um tribunal militar diz muito sobre quem detém efectivamente o poder na Guiné-Bissau", afirmou.
Segundo o jurista, até ao momento continuam por revelar as provas que sustentam as acusações, sendo conhecido apenas que o processo diz respeito a uma alegada tentativa de golpe.
A entrada de Boukounta Diallo na equipa de defesa é vista como uma estratégia para dar dimensão internacional ao processo.
O advogado é uma figura conhecida na região, tendo representado anteriormente a família do ex-Presidente João Bernardo Vieira, após o seu assassinato em 2009, ocasião em que defendeu uma investigação internacional e sanções da CEDEAO.
Agora, a defesa pretende mobilizar não apenas a organização regional, mas também a comunidade internacional para acompanhar o caso de DSP.
Boukounta Diallo foi ainda mais longe, sugerindo que o processo poderá ter motivações políticas.
"Fala-se de um golpe totalmente fabricado apenas para tornar Domingos Simões Pereira inelegível antes das eleições previstas para Dezembro."
O advogado mostrou igualmente cepticismo quanto ao calendário eleitoral anunciado pelas actuais autoridades.
"Não acredito que estas eleições tenham como objectivo restaurar plenamente o poder civil. Parece antes uma tentativa de aliviar a pressão diplomática para que os militares possam continuar a governar sem contestação."
No final das declarações, Diallo apelou à CEDEAO para adoptar uma posição mais firme perante a situação na Guiné-Bissau. Segundo o advogado, a organização regional enfrenta uma perda crescente de credibilidade na África Ocidental, fenómeno que, na sua opinião, tem contribuído para a sucessão de crises políticas e militares na região.
RSM: 13.07.2026