11/02/2026
Porque é que tantos portugueses na Suíça votaram no Chega?
Tenho lido nas redes sociais que nós, emigrantes na Suíça, parecemos “extraterrestres” por termos votado no Chega. Há quem diga que nos esquecemos de que também somos emigrantes e que apoiamos um partido acusado de xenofobia. Essa leitura é simplória e ignora a história de quem aqui vive e trabalha.
Muitos de nós (as primeira gerações) chegámos à Suíça quando ainda existiam as autorizações sazonais. Entrávamos por poucos meses, quase sem direitos, sujeitos a exames médicos humilhantes e a um controlo rígido. Fomos tratados, durante anos, como mão de obra descartável. Mesmo assim ficámos, porque a vontade de trabalhar e de construir em Portugal aquilo que lá nos era impossível era mais forte do que a saudade. Primeiro era preciso provar valor para depois conquistar respeito e finalmente adquirir direitos, mas sempre acompanhados de deveres.
Essas experiências marcaram profundamente a comunidade portuguesa. Talvez por isso sejamos dos grupos que menos participam nas eleições locais: o sistema helvético, tão organizado e exigente, ensinou-nos a continuar a desconfiar das instituições e a viver de forma discreta, no nosso canto.
Apesar disso, integrámo-nos à nossa maneira e ajudámos a erguer este país. Somos parte do cliché suíço da limpeza e das obras, mas a verdade é que, sem o trabalho dos emigrantes, muita da Suíça seria apenas betão por acabar – tal como grande parte de Portugal teria ficado sem sustento. Somos ao final entre gerações tantos como vos todos senão mais…
Ainda hoje existe, aqui no estrangeiro, um certo elitismo que olha para o “povo português” como pouco interessado pela política ou pouco instruído em democracia. Esses elitistas, vêm exactamente das mesmas castas que ai em baixo com o que eles se chamam sem se chamar, portugueses de primeira. Esquecem-se de que esse mesmo povo (os de segunda) se levanta cedo, trabalha oito ou nove horas por dia, muitas vezes acumula um segundo emprego e sustenta famílias dos dois lados da fronteira. Democracia também é isto: a dignidade de quem trabalha e sobretudo saber ter respeito e saber reconhecer que sem a Maria e o José de segunda muitos não tinham o sabor de se sentir em primeira.
Quando muitos portugueses na Suíça votam no Chega, não o fazem por ódio ao estrangeiro ou aos emigrantes. Fazem-no porque acreditam que sem regras claras e exigência as comunidades estrangeiras tendem a isolar-se e a repetir erros que nós próprios conhecemos.
A nossa história de emigrante ensinou-nos que nada se constrói sem disciplina, responsabilidade e sobretudo regras. Podemos discordar da maneira como o discurso politico é feito, pois é directo duro e sem papas na lingua. Exactamente como o sistema das poursuites aqui! Não pagas, fazes dividas? Oh Zé continua mas não te esqueças que se não pagas agora pagas mais tarde.
Continuo a lutar sempre que posso para que a minha comunidade perca o medo e participe mais na vida política local. Não é um caminho fácil, mas é necessário.
O resultado eleitoral na Suíça orgulha-me porque mostra que, mesmo longe, queremos intervir no destino de Portugal. Como escreveu Camões, “Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal” – fomos feitos por esse chamamento do mar e dos descobrimentos, por essa vontade de partir sem deixar de pertencer.
Que ninguém nos peça para escolher entre ser emigrante e ser português. Somos as duas coisas, com memória do passado, esperança no futuro e sobretudo sempre pragmáticos no presente.
Bem haja.