25/11/2025
É com consternação e pesar que a Docomomo Macau dá conta do falecimento do Arquitecto José Celestino da Silva Maneiras, prestando à sua família e amigos as nossas mais sentidas condolências.
// José Celestino da Silva Maneiras nasce em Macau em 1935, numa família macaense bem enraizada na sociedade local. Passou nove anos no Portugal do pós-guerra, onde se licenciou em Arquitectura em 1962, na Escola Superior de Belas-Artes do Porto, regressando nesse mesmo ano a Macau. O regresso de José Maneiras insere-se num breve movimento migratório que trouxe para Macau vários jovens arquitectos portugueses, entre os quais Manuel Vicente, Natália Gomes, Ramires Fernandes e Jorge Silva. Integraram a equipa técnica do governo local, onde desenvolveram planos urbanos para a cidade.
Em 1967, Maneiras transitou para o sector privado, mantendo um atelier de carácter “artesanal”, com a colaboração de um ou dois desenhadores, e seleccionando os seus próprios projectos. Contudo, é difícil encontrar exemplos intactos da sua obra construída desta fase, já que muitos edifícios foram demolidos, remodelados ou encontram-se em risco de desaparecer. Entre estes trabalhos, destacam-se os conjuntos habitacionais da Rua da Praia Grande (Complexo de São Francisco, 1964), da Estrada do Visconde de São Januário (1965), o Belle Court na Penha (moradia e bloco de apartamentos, 1968) e o programa habitacional para invisuais encomendado pela Santa Casa da Misericórdia (1970).
Em 1987, Maneiras integrou o grupo que fundou a Associação dos Arquitectos de Macau (AAM). O rápido desenvolvimento urbano trouxe novas oportunidades e Maneiras tornou-se membro do Conselho Municipal (1972-1989) e, mais tarde, Presidente do Leal Senado, o então município de Macau hoje extinto (1989-1993), construindo uma ponte entre as culturas chinesa e portuguesa. Tornou-se também consultor da empresa de desenvolvimento Nam Van, responsável pela implementação do Plano da Baía da Praia Grande, e Presidente da Mesa da Assembleia Geral do Laboratório de Engenharia Civil de Macau.
Em 2006, foi distinguido como Membro Honorário da Ordem dos Arquitectos (Portugal), tendo sido proposto pelo seu antigo companheiro em Macau e então Vice-Presidente da Ordem, Manuel Vicente.
O seu trabalho em defesa da dignidade da prática da arquitectura num contexto de forte concorrência profissional é considerado um exemplo ético para as gerações mais jovens. O reconhecimento público chegou-lhe, assim, pela mão dos seus pares.
[EN] It is with sadness that Docomomo Macau announces the passing of Architect José Celestino da Silva Maneiras, extending our deepest condolences to his family and friends.
// José Celestino da Silva Maneiras was born in Macau in 1935 into a Macanese family that was well rooted in the local society. He spent nine years in post-war Portugal, where he graduated in architecture in 1962 at the College of Fine Arts in Porto, returning that same year to Macau. José Maneiras’ return is part of a brief migratory movement that brought a number of young Portuguese architects to Macau, amongst them Manuel Vicente, Natália Gomes, Ramires Fernandes and Jorge Silva. They entered service in the technical team of the local government, developing urban plans for the city.
In 1967 Maneiras switched to the private sector, maintaining an “artisanal” firm with the collaboration of one or two draftsman and selecting his commissions, it is however difficult to find intact examples of his built work from this phase, many of the buildings have been demolished, remodelled or are in danger of disappearing. Of these works, one can highlight the residential complexes at Rua da Praia Grande (São Francisco Complex, 1964), Estrada do Visconde de São Januário (1965), Belle Court in Penha (house and apartment block, 1968) and the residential programme for the visually impaired commissioned by the Santa Casa da Misericórdia (1970).
In 1987, Maneiras was a member of the group that founded the Association of Macau Architects
(AAM). The fast urban development brought with it new opportunities and Maneiras became a City
Council member (1972-1989) and later President of the Leal Senado, Macau’s now extinct municipality
(1989-1993), building a bridge between the Chinese and Portuguese cultures. He also became a
consultant for the Nam Van development firm, responsible for implementing the Baía da Praia Grande Plan, and Chairman of the General Meeting of the Macau Civil Engineering Laboratory. In 2006 he was made an Honorary Member of the Portuguese Association of Architects, having been nominated by his old companion in Macau and then Vice-President of the association, Manuel Vicente.
His work in defence of the dignity of the practice of architecture in a context of tough professional competition is regarded as an ethical example for the younger generations. Public recognition thus came via his peers.