18/10/2026
Nada será como antes
Por Cecília Olliveira
O Fogo Cruzado não é mais o mesmo. A organização que imaginei, planejei e fundei lá em 2016 não tem mais como existir.
Não vamos fechar. Pode f**ar tranquila. Mas não tem como tudo continuar como sempre foi.
Há 10 anos, imaginei um Instituto que contribuísse para o planejamento de políticas públicas de segurança. Isso seria feito de duas formas: com a produção de dados colaborativamente e com incidência no debate público sobre segurança.
Minha intenção era preencher lacunas. Você sabia que o governo do Rio de Janeiro deixou de produzir dados sobre balas perdidas em 2012? Esse vazio de informação persistiu até que nós começamos a contar e hoje somos a única fonte deste dado - e de muitos outros.
A outra lacuna dizia respeito ao nosso imaginário sobre segurança pública. Por que continuamos insistindo nas mesmas soluções? Por que a população continua acreditando nas mesmas promessas? Conversei, ao longo da minha carreira como jornalista e pesquisadora, com muitos políticos que admitiram saber o alto custo e a pouca efetividade de promessas que giram em torno apenas da alta letalidade policial e do investimento nas polícias. Eles sabiam disso e alguns me disseram que não havia o que fazer. Afinal, é isso que “ganha eleição”. Me convenci que era preciso falar sobre segurança com as pessoas, explicar como ela funciona, apontar outras soluçõe e apresentar dados.
Foram essas reflexões que me fizeram fundar o Fogo Cruzado. Só que muita coisa mudou em dez anos. Sobretudo neste outubro no qual te escrevo.
As relações entre temas da segurança pública e da política se transformaram. A realidade do Brasil hoje é que há um grupo político fortalecido e com bastante poder concentrado. Este grupo arrasta consigo a bancada das armas (bancada da bala é coisa do passado). Este grupo elegeu parlamentares oriundos das forças de segurança como nunca, são 41, 9 senadores e 42 deputados. Este grupo tem conexões históricas com diversos atores ligados a organizações criminosas, notadamente do Rio de Janeiro. Mas não é só isso.
A segurança pública ocupa outro lugar na realidade dos brasileiros, bem diferente do que quando comecei o Fogo Cruzado. Ela é hoje decisiva num debate sobre os valores que queremos proteger como país. Sendo bastante direta, te pergunto: qual o risco para o Brasil se cada vez mais cidadãos acreditarem que vale abrir mão do Estado Democrático de Direito em nome de um suposto combate ao crime organizado?
Por tudo isso, digo que o Fogo Cruzado não pode ser mais o mesmo. Ele já mudou, na verdade. Temos recalculado a rota por aqui com o objetivo de estarmos mais preparadas para os desafios que teremos na nossa área nos próximos anos. Continuaremos produzindo dados e incidência no debate público. Mas queremos fazer isso de maneira mais contundente.
E foi no meio desse turbilhão que apareceu uma oportunidade única que preciso compartilhar com você que acompanha nosso trabalho. Somos finalistas do Prêmio Empreendedor Social, promovido pela Folha de S. Paulo. O prêmio abre a oportunidade de doação de indivíduos para projeto nos quais eles confiem.
Este recurso virá em uma hora muito oportuna para a gente. É uma chance de levantarmos um apoio que pode ser decisivo para nosso futuro, para a ampliação da nossa atuação. Se você gosta do que fazemos, se você concorda que nosso trabalho precisa se fortalecer, quero pedir seu apoio.