MANIFESTO DO MOVIMENTO NEGRO UNIFICADO – MNU
Fundado em 07 de Julho de 1978
Nós, membros da população negra brasileira, entendendo como negro todo aquele que possui na cor da pele, no rosto ou nos cabelos, sinais característicos dessa raça, reunidos em Assembleia Nacional, CONVENCIDOS da existência de discriminação racial sistêmica, marginalização racial, política, econômica, social e cultural do
povo negro, péssimas condições de vida, desemprego e subemprego, discriminação na admissão a empregos e perseguição racial no ambiente de trabalho, condições sub-humanas nos presídios, em grande parte ocupados por negros, repressão permanente, violência policial e perseguição, exploração sexual, econômica e social da mulher negra, abandono e maus-tratos dos menores, predominantemente negros, colonização, descaracterização e comercialização da nossa cultura, e o mito da democracia racial, que perpetua desigualdades. Diante desses desafios, RESOLVEMOS unir nossas forças e lutar pela defesa do povo negro em todos os aspectos políticos, econômicos, sociais e culturais, através da conquista de maior acesso a oportunidades de emprego e melhores condições de trabalho, melhor assistência à saúde, educação e habitação, reavaliação e proteção da cultura negra, combatendo sua comercialização, folclorização e distorção, extinção de todas as formas de perseguição, exploração, repressão e violência a que somos submetidos, e garantia da liberdade de organização e expressão do povo negro. E, CONSIDERANDO QUE nossa luta de libertação deve ser conduzida por nós, povo negro, de forma autônoma e soberana, almejamos uma sociedade mais justa, onde todos possam verdadeiramente participar e usufruir dos seus direitos. Não estamos isolados do restante da sociedade brasileira e, portanto, NOS SOLIDARIZAMOS com toda e qualquer luta reivindicatória dos setores populares da sociedade brasileira, que busquem a real conquista de seus direitos políticos, econômicos e sociais; com a luta internacional contra o racismo, pela igualdade e pelos direitos humanos. POR UMA AUTÊNTICA DEMOCRACIA RACIAL! PELA LIBERTAÇÃO DO POVO NEGRO! As atividades do MNU se conectam com o conceito Sankofa, originado de um provérbio tradicional entre os povos de língua Akan da África Ocidental: "se wo were fi na wosan kofa a yenki", que pode ser traduzido como “não é tabu voltar atrás e buscar o que foi esquecido”. Esse conceito nos convida a olhar para o passado com o propósito de construir um futuro mais justo e igualitário. O MNU foi fundamental para a compreensão de várias questões cruciais para o povo negro no Brasil, como a identificação precisa da população negra e o reconhecimento da necessidade de reparação histórica. Isso inclui o combate à distorção do conceito de "democracia racial" e a revelação de que a população negra é, de fato, a maioria no Brasil, demandando políticas públicas eficazes na superação do racismo estrutural. O feminismo negro também ocupa uma posição central dentro do movimento. Conforme ressaltado por Simone, o MNU tem sido essencial na compreensão da tripla exploração que a mulher negra enfrenta — exploração sexual, econômica e social — e no combate ao machismo e à desigualdade salarial. O movimento de mulheres negras, fortalecido pelo MNU, é hoje reconhecido internacionalmente por sua luta por direitos e por uma sociedade mais equitativa. Na área da educação, o MNU teve um papel determinante na implementação da Lei nº 11.645/2008, que tornou obrigatória a inclusão da História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena nos currículos das escolas de ensino fundamental e médio. José Adão Oliveira, um dos fundadores do movimento, elenca algumas das bandeiras históricas do MNU: a democracia racial, a igualdade racial, o respeito à diversidade sexual, o combate à violência policial e à discriminação racial, a inclusão do item cor no censo do IBGE em 1980, a criação do Dia Nacional da Consciência Negra em 20 de novembro, e a defesa do Parque Histórico Cultural Quilombo dos Palmares/Serra da Barriga, um símbolo da resistência e da luta do povo negro no Brasil. Outro ponto crucial na trajetória do MNU foi o combate ao encarceramento em massa de negros, muitas vezes alicerçado em um racismo institucional. O movimento tem defendido o desencarceramento da população negra e o fim do extermínio da juventude negra, uma luta iniciada desde os primeiros casos de violência policial. Por uma sociedade mais justa, igualitária e sem racismo!