06/10/2017
Compartilho texto do prof. Luciano Elia, escrito esta semana em virtude do suicídio do Reitor da UFSC. Temos muito a que pensar sobre o tema do adoecimento na esfera pública.
Aguardamos vocês hoje a partir das 19h, no Auditório do campus Avançado de Varginha, para a discussão com o prof. Elia.
Segue o texto:
Um suicídio cuja verdade é o “publicídio” brasileiro
O reitor de uma Universidade Federal se suicida em pleno shopping de uma capital estadual brasileira na manhã de uma segunda-feira, quando estaria normalmente iniciando mais uma semana de trabalho pela educação superior pública, gratuita e de excelência.
Isso ocorre em decorrência de um processo de pressões, investigações, julgamentos e incriminações politicamente orientadas, como se tornou corriqueiro no Brasil de hoje, em que políticos, dirigentes (como reitores), empresários e outros são investigados e muitas vezes punidos por "presunção de culpa", sem provas, sendo ou não corruptos, sendo culpados ou não, ao sabor de interesses políticos comandados pelo capital internacional, regente de tudo, que ordena o desmonte da Coisa Pública, a anulação do pacto democrático, a extinção de programas e direitos sociais e trabalhistas, o aniquilamento da saúde e da educação públicas e - é claro - decreta a inviabilidade de sustentação do ensino superior e da Universidade Pública brasileira por um Estado que já se travestiu de empresa e funciona na lógica do lucro de e para poucos.
Este triste episódio, trágico e revelador, assustador e alarmante, evoca o que Glauber Rocha chamava de assassinato cultural. A primeira vítima deste processo atual não foi o Reitor da UFSC, Cancellier, mas a ex-primeira Dama Marisa Letícia Lula da Silva. E podemos ficar prevenidos de que outros virão na sequencia: o reitor em exercício Naomar de Almeida, da UFBA, pediu exoneração, o assassinato limitou-se ao cargo, não à própria vida.
Somos professores de uma Universidade Pública, não federal, mas estadual, a UERJ, que tem sido particularmente atingida por este processo, talvez como alvo exemplar que visa mostrar às demais universidades públicas, brasileiras, estaduais ou federais, qual será o seu destino: suspensão (inédita em toda a História do nosso Estado) do pagamento, por vários meses, dos salários de docentes e funcionários (concursados, dos quadros do funcionalismo público estadual do Rio de Janeiro), de funcionários terceirizados da área de limpeza, ascensoristas e outros, que ganham salário mínimo, de bolsas e auxílios de alunos sem outros recursos, produção de sujeira e insalubridade generalizada, de insegurança física e de toda sorte de precariedade. Uma universidade que se encontra(va) em plena expansão, galgando níveis cada vez maiores de qualidade em termos de ensino, pesquisa avançada e inovação tecnológica, com altíssimo grau de inserção social, e cujos professores (a maioria tendo como única fonte de sobrevivência e dignidade econômica o salário da UERJ) vêem-se, de uma hora para outra, privados de suas condições de subsistência e dignidade.
O suicídio-assassinato cultural do Reitor da UFSC é paradigmático de um Estado que deseja matar a Universidade pública - e o faz. É patognomônico de um Estado doentio e destrutivo. E é homólogo à destruição da UERJ.
Vamos ficar indiferentes a este episódio, apenas lamentando-o, ou prestando solidariedade, homenagem, condolências aos colegas da UFSC e familiares do Reitor da UFCS? Ou vamos também e sobretudo (sim, porque a solidariedade e as condolências tem todo o seu lugar e valor) nos concernir, nos "ver" na condição a que ele chegou, e entender que existem diferentes formas de emergência, no real, dos efeitos deletérios e mortíferos da política estatal que temos tolerado (quando não apoiado) no Brasil, alguns (não poucos) acreditando, por tolice extrema ou má-fé, que "a impunidade no Brasil está finalmente acabando" - quando justamente se trata do mais extremo oposto a isto: o punitivismo atroz e truculento jamais deixou de existir, tomando as formas seletivas do aviltamento da esmagadora maioria da população, nos antípodas de toda e qualquer política de justiça social, de garantia de direitos, de distribuição de renda e recursos, processo que tem chegado cada vez mais à criminalização escancarada da pobreza, punida em segundo grau pelo recolhimento compulsório, pela gentrificação, pelo encarceramento progressivo das populações pobres, negras, faveladas. Impunidade?
O ato suicida do Reitor da UFSC deve confrontar-nos com este limite de nossa própria dignidade, e indignar-nos verdadeiramente, mais do que sobretudo entristecer-nos. Deve incitar-nos ao ato, não o suicida, não a passagem ao ato, mas ao ato de suprema indignação que tivesse a potência da grita de um Basta!
Não nos basta prestar-lhe solidariedade e homenagem. porque, neste momento, nós, docentes de universidades públicas, somos todos, de algum modo, Luiz Carlos Cancellier de Oliva, não por alguma espécie de identificação pessoal com ele ou seu ato, mas por estarmos na rota de colisão do meteoro político que tem o propósito claro de destruir a Universidade Pública Brasileira - e de resto, a ResPública Brasileira.
Luciano Elia, professor titular da área de Psicanálise do Instituto de Psicologia da UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro.