Movimento Estudantil - UFRRJ

Movimento Estudantil - UFRRJ Esse perfil é destinado a comunicados do movimento autônomo estudantil ao corpo Discente da UFRRJ.

Carta de repúdio e resposta a nota de solidariedade ao vice reitor César Da Ros - UFRRJNo dia 30 de maio de 2022 iniciam...
06/06/2022

Carta de repúdio e resposta a nota de solidariedade ao vice reitor César Da Ros - UFRRJ

No dia 30 de maio de 2022 iniciamos o novo período letivo 2022.1 e com ele o retorno às quentinhas, o RU (Restaurante Universitário) da universidade vem passando por obras desde o ano de 2017 e com isso a utilização das famigeradas quentinhas tem sido uma realidade enfrentada pelos discentes e a má qualidade da comida é ressaltada por muito tempo.

O volta das aulas na universidade ocorreu em 7 março de 2022, no dia 04 de março a reitoria convocou os alunos a fim de que em uma reunião aberta fosse posto o fim do café da manhã servido no RU, nesta mesma ocasião a administração central fora indagada a respeito das quentinhas e a afirmação do vice-reitor César Da Ros foi de não haver a possibilidade de retorno das mesmas, já que ele assim como todos, tinham traumas só de ouvir falar e agora o bandejão funcionaria com o uso de bandejas, o que eles chamam de “hot box”.

As aulas se iniciaram e o período correu atendendo apenas aos bolsistas da PROAES e alojados, após uma consulta pública onde menos de 10% da comunidade acadêmica respondeu, foi escolhido o retorno das quentinhas para atendimento de todos os alunos. Vale ressaltar que voltamos de um período de pandemia onde a grande maioria dos que estavam chegando não conheciam o histórico das quentinhas dentro da universidade e além disso a incumbencia de escolha por parte dos discentes ocasionou verdadeira “escolha de sofia”, onde as opções eram se alimentar com qualidade ou proporcionar a alimentação a todos.

Com isso o fatídico retorno fora marcado, 30/05/2022, no seu primeiro dia recebemos uma alimentação de baixíssima qualidade e sem verduras ou saladas (que sempre foi fornecido no Hot Box). Já neste dia, contamos com relatos de comida azeda, e na terça feira uma grande quantidade de comida recebida pelos alunos apresentavam aspecto duvidoso e outras tantas quantidades estragadas.

Indignados com a grande falta de respeito para com a alimentação que estavam recebendo um grupo de alunos se reuniu seguindo para a Reitoria da Universidade, onde após esperarem cerca de 1h foram recebidos pelo reitor prof.º Roberto, a pró-reitora de assuntos estudantis prof.ª Juliana Arruda e o vice-reitor prof.º César Da Ros que garantiram a melhoria da qualidade da comida naquele mesmo dia.

Apesar disto, na janta, a qualidade da comida continuou muito baixa, fora oferecido frango cinza, arroz cru e mais uma vez feijão azedo, na quarta-feira o almoço não foi diferente, gerando um desespero nos alunos, consequentemente um grupo se encaminhou ao prédio principal onde se situa a administração central, cantando músicas características de movimentos estudantis direcionando-se a reitoria, não obtivemos sucesso.

Ao não sermos atendidos, nos direcionamos ao anfiteatro Gustavo Dutra (Gustavão), onde ocorreria a Aula Magna ocupando o palco principal cantando e expressando palavras de ordem em um movimento legítimo, e necessário, como fora ressaltado posteriormente pelo vice-reitor. Nos mantivemos ali por algum tempo até que o professor Cesár Da Ros adentra, sobe no palco, mantendo-se no púlpito imponente e demonstrando sua superioridade perante os ali presentes, dizendo palavras e nos questionando de maneira ríspida sobre quem éramos e se realmente acreditávamos que ganhamos no grito.

O professor solicita que saiamos dali já que ocorreria um evento e que teríamos convidados a serem recebidos, desconsiderando toda a situação que os alunos estavam passando, com fome a dias, já que a comida não apresentava condições de ingestão desde segunda-feira. Perplexos com a falta de consideração esperada de um administrador de uma universidade pública os alunos o convidaram a experimentar uma das quentinhas que tinham sido levadas.

A intenção de que ele experimentasse nunca foi de humilhar, desmerecer ou desrespeitá-lo de qualquer forma, foi apenas um apelo para que ele pudesse entender o que estava sendo dito, já que ele nos queria fora do espaço, ele aceitou comer e ao fazê-lo vários alunos gravaram e outros expressavam palavras de ordem. vale Ressaltar também, que o professor César Da Ros, nos pergunta o que precisamos para sair dali, apontamos que queríamos que ele comesse a comida que há dias estão nos fornecendo.

Era difícil conter os ânimos de quem não se alimentava direito a dias, um ponto a ser destacado é que no dia anterior professor Roberto e professora Juliana foram convidados a comer e não o fizeram, como ele poderia ter feito, mas como comprovado em vídeo ele aceitou e se dirigiu a comer a quentinha enquanto fazia caras e bocas, debochando dos estudantes. Outro ponto importante a ser levantado é que tanto nas reuniões com a reitoria, quanto no caso do Gustavão, os professores César Da Ros e Juliana Arruda debochavam de nós constantemente, com risadas, “jogadas de ombro” e ironias.

Dentro de uma manifestação palavras de ordem soam como cartazes coletivas, desabafos, os ânimos exaltados se sobrepõem à racionalidade principalmente quando se está com FOME e a única coisa que se ouve é: “vocês precisam ter calma”, QUEM TEM FOME TEM PRESSA!

Um fato intrigante foi a presença da guarda, desde a primeira ida à reitoria sempre que se era solicitado falar com a administração a guarda era acionada, no primeiro dia de protesto (na terça-feira) ainda protagonizaram momentos de hostilidade discutindo e agindo de forma ríspida com discentes. Se tratava de um grupo de estudantes universitários protestando, a presença de uma guarda armada é inadmissível, não estamos falando de bandidos ou terroristas, são estudantes universitários lutando por sua alimentação.

Segundo o CFN (Conselho Federal de Nutricionistas) o direito humano à alimentação está expresso nos artigo 6º da Constituição Federal, que já prevê a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, e a assistência aos desamparados. O artigo versa:

Art. 6º - São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma da constituição.

O que é o Direito Humano à Alimentação? É um direito humano básico, reconhecido pelo Pacto Internacional de Direitos Humanos, Econômicos, Sociais e Culturais, ratificado por 153 países, inclusive o Brasil. Esse novo direito pressupõe uma alimentação adequada, tanto do ponto de vista de quantidade como de qualidade, garantindo a Segurança Alimentar e Nutricional (SAN).

Segundo o Conselho Regional de Psicologia do Paraná a fome deve ser entendida como questão de saúde mental, “...a fome em si é uma situação basilar que precede outras questões humanas. É preciso pensar sobre que indivíduo estamos falando: se suas necessidades básicas, como alimentação, higiene, segurança, moradia e sustento estão em alguma medida garantidas. A privação de qualquer um destes fatores já é um desencadeador de sofrimento mental.”

De que forma a fome atravessa a construção da subjetividade de uma pessoa?
É fato que existem estudos com relação à forma que a fome repercute no ser humano, mas este conhecimento, em si teórico, não aparenta estar nos conhecimentos práticos de quem atua constantemente com quem sente fome. Com isso, a prática psicológica pode acabar desconsiderando uma parte concreta e primária do sofrimento humano ignorando em sua análise aspectos fundamentais.

A insegurança alimentar promove diversos efeitos colaterais aos seres humanos podemos elencar vários, mas iremos nos ater a alguns iniciando pela colocação da professora Milane de Souza Leite, nutricionista especializada em Nutrição Clínica pela UFF, mestre e doutora em Química Biológica pela UFRJ, e que é professora de Bioquímica na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), “a anemia ferropriva ocasiona o déficit psicomotor e na função cognitiva, maior suscetibilidade às infecções e redução da força muscular, comprometendo a qualidade de vida na fase adulta. O consumo de quantidade satisfatória de alimentos ricos em conteúdo energético, vitaminas e minerais é fundamental para o funcionamento do cérebro, do contrário todo o processo de aprendizagem é comprometido. Além disso, o sistema imunológico depende de alimentação adequada. Em ambiente Educacional isso é fundamental dado o desgaste inerente ao momento.”

Segundo o site de medicina da UFMG “Todos os níveis de insegurança alimentar podem causar impactos na saúde, como a perda de energia, que afeta a parte cognitiva e física e que pode levar à perda de memória, a quadros de anemia e até à morte.”

Isso posto, a UFRRJ junto aos diretores de instituto, lançou essa semana no dia 02/06/2022 às 18:01h uma nota de solidariedade ao professor Cesar Da Ros que teria sofrido agressões ao ingerir a quentinha, ora, nós alunos da UFRRJ viemos sendo agredidos e menosprezados por 6 anos, e mesmo com todo o histórico da quentinha não foi levado em consideração o bem estar dos alunos que dependem única e exclusivamente do bandejão, a última semana foi um estopim de tudo que já aconteceu e vinha acontecendo, podendo os discentes identificar crimes cometido contra si, principalmente a prevaricação (art. 319 do Código Penal).

A nota ainda continha uma acusação aos alunos onde os mesmos teriam descumprido o artigo 331 do Código Penal, tendo nós reles discentes desacatado o vice-reitor oferecendo-lhe o que nos alimentamos diariamente. De acordo com o exposto, alude-se à preponderância dos servidores públicos perante aos demais, colocando-os em condição de superioridade em relação aos outros cidadãos, consequentemente desmerecendo nós alunos perante a magnitude de tal senhorio.

De acordo com decisão do STF(Supremo Tribunal Federal) o desacato é crime recepcionado pela Constituição Federal para se considerar cometido o delito, é preciso verificar o desprezo pela função pública o que não ocorreu de forma alguma.

Lembrando que o professor foi CONVIDADO a comer e ele o fez só para que saíssemos do local, esta foi a única forma de demonstrar o que estava sendo colocado, pois a universidade sempre nos coloca em suspeição quando diz que algumas vezes a comida vem ruim, ou que alegaram que estava estragada, pondo nossa palavra à prova. Importante pontuarmos que em momento nenhum o professor Cesar Da Ros se propôs a comer em solidariedade aos estudantes, mas sim, como dito pelo próprio, a universidade precisava seguir sua programação da semana inaugural e tinha convidados ali presentes.

Dizer que uma pessoa foi agredida por comer três ou quatro garfadas de uma comida que comemos diariamente é no mínimo ultrajante, é um ataque ao princípio da dignidade da pessoa humana, a alimentação dentro da universidade faz parte de uma política de permanência, não é um favor ou esmola, é DIREITO!

O direito à alimentação é uma garantia fundamental na sociedade demonstrando a importância da busca e execução dos direitos fundamentais pautados no bem-estar, no desenvolvimento, na igualdade e na justiça social.

Quando uma universidade pública não zela pelo seu bem maior tutelado (os alunos) e deixa que passem por situações inadequadas ela está claramente afastando os vulneráveis “os restaurantes universitários têm uma função social essencial de garantir o fornecimento de ‘comida de verdade’ para a comunidade acadêmica".

Cumprindo com o combinado com o professor após ele ter comido, os alunos se retiraram do local seguindo para a reitoria onde fomos recebidos pelo reitor que nos anunciou o retorno das bandejas na segunda feira dia 06/06/22 em um horário ampliado de almoço (11h às 14h) para que seja possível o atendimento de todos os alunos, como proposto por discentes na reunião de terça feira.

Nesta mesma reunião foi cobrado da administração central que fizesse uma nota de solidariedade aos verdadeiros agredidos, os discentes, após muita resistência nos foi dito que seria postada uma nota, após a postagem observamos que esta não possui o mesmo apelo contido na outra em prol do vice-reitor e muito menos empática que o esperado, e sem a solidariedade ou apoio dos diretores de institutos.

Após o ocorrido alguns alunos procuraram a mídia expondo os relatos do que se tem passado no campus de Seropédica da UFRRJ e somente depois desta ampla divulgação a universidade divulgou a nota de apoio ao professor, soando aos alunos como represália, buscando coibir novas manifestações ou protestos. Mas estamos aqui lutando por nosso direito de protestar, é triste ver uma universidade pública tentar cercear o direito de fala de seus estudantes, que apesar disso NÃO SE CALARÁ perante aos erros observados.

Gostaríamos de deixar claro que este movimento não possui apoio do DCE que em momento algum buscou se posicionar em prol dos estudantes, apenas publicando uma nota no dia 03/06 após a resolução das questões por parte dos alunos engajados com este movimento autônomo. Não buscamos deslegitimar a entidade representativa do DCE, o que está sendo cobrado é o direito de representação.

Esta carta não possui o intuito de atacar ou desonrar a imagem de qualquer pessoa, órgão, entidade ou instituição, este é um movimento autônomo de estudantes universitários conscientes do país em que vivem e a situação crítica representada pelo governo atual. Conhecemos a cara de nosso inimigo e ele não habita na UFRRJ, contudo entendemos a necessidade de nos posicionarmos perante as adversidades enfrentadas dentro de nossa casa. Finalizamos com a frase do grande educador Paulo Freire que diz: “O sistema não teme o pobre que tem fome. Teme o pobre que sabe pensar”.

06/06/2022

O caminhão que chega às quentinhas é maravilhoso 🥰 Q U A L I D A D E

Endereço

Seropédica, RJ

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