02/06/2026
SINDICATOS EM ALERTA: O IMPACTO DA PEC DA REDUÇÃO DA JORNADA NO CHÃO DE FÁBRICA DO CALÇADO
SAPIRANGA – A histórica engrenagem da indústria calçadista do Vale do Paranhana e do Sinos está prestes a enfrentar uma de suas maiores transformações estruturais das últimas décadas. Com o avanço da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que extingue a jornada de trabalho de 6 dias por 1 (escala 6x1) no Congresso, o debate agora migra para os efeitos práticos no cotidiano das fábricas.
Para os sapateiros e sapateiras da região, o cenário traz uma peculiaridade: a categoria já conquistou a escala 5x2 na prática. No entanto, o texto aprovado na Câmara dos Deputados — que prevê uma redução escalonada da jornada máxima para 40 horas semanais — promete mudar drasticamente a rotina das linhas de produção e redefinir o significado de "tempo livre".
O Nó da Compensação: O que muda na prática?
Atualmente, a rotina de quem trabalha no setor calçadista é marcada pelo sistema de compensação de horas. Para garantir o sábado e o domingo de folga (escala 5x2) dentro do limite constitucional ainda vigente de 44 horas semanais, as indústrias esticam a jornada diária de segunda a sexta-feira. Os operários costumam trabalhar cerca de 8 horas e 48 minutos por dia.
Com a aprovação da PEC e a consequente redução da jornada para 40 horas semanais de forma escalonada, esse modelo de compensação pesada deixa de existir.
O Novo Cenário das 40 Horas:
Fim dos minutos extras diários: Sem a necessidade de compensar as 4 horas que antes seriam trabalhadas no sábado, a jornada diária líquida de segunda a sexta-feira cai para 8 horas cravadas.
Mais tempo fora da fábrica: Na prática, o trabalhador ganha quase 1 hora livre a mais por dia (48 minutos diários a menos no chão de fábrica), mantendo os dois dias de descanso no final de semana.
Manutenção do salário: A PEC veda expressamente a redução salarial, garantindo que o valor da hora trabalhada seja valorizado.
Uma Luta de Gerações: O Protagonismo de Sapiranga, Araricá e Nova Hartz
Esta transição não é um presente do Legislativo, mas o coroamento de uma mobilização que pulsa no DNA do movimento sindical do calçado gaúcho. Falar em redução de jornada na região é resgatar a trajetória de resistência do Sindicato dos Sapateiros e Sapateiras de Sapiranga, Araricá e Nova Hartz.
Historicamente, a categoria enfrentou a dureza de subsetores industriais que viam na exploração da carga horária a única via de competitividade. Foi a mobilização incansável deste sindicato que, no passado, arrancou das garras do patronato a garantia do sábado livre através de convenções coletivas pioneiras.
"A conquista da escala 5x2 na nossa região foi fruto de greves, piquetes e muita negociação em épocas onde o trabalhador mal tinha direito à voz. A redução para 40 horas sem redução salarial é o próximo passo lógico de uma dignidade que começamos a desenhar décadas atrás", aponta a liderança sindical local.
Para as mulheres sapateiras, que compõem parcela expressiva da mão de obra na região e historicamente enfrentam a dupla jornada (fábrica e ambiente doméstico), a redução para as 8 horas diárias representa um ganho incomensurável na saúde física e mental.
Os Próximos Passos no Senado
Embora o setor patronal calçadista argumente que a medida pode pressionar os custos de produção e exigir a contratação de novos turnos para manter o volume de exportações, os sindicatos rebatem com dados de produtividade e bem-estar.
A proposta agora segue para a análise do Senado Federal. Para os sapateiros de Sapiranga, Araricá e Nova Hartz, os olhos estão fixos em Brasília, mas os pés continuam firmes no chão de fábrica, prontos para fiscalizar e garantir que a transição escalonada seja cumprida sem a retirada de direitos conquistados a duras p***s.