Toda sua história foi e continua sendo possível graças ao esforço dos camponeses da região, que perceberam a importância de preservar a história das ligas camponesas, conhecida nacionalmente pelo assassinato do líder camponês, João Pedro Teixeira em 02 de abril de 1962. Mas para entender melhor sua missão institucional e linhas de ação programática, será apresentado um breve contexto sobre as Liga
s Camponesas. As Ligas Camponesas deixaram um legado muito importante para os movimentos do campo, influenciando hoje movimentos como a Via Campesina e o Movimento das Trabalhadoras e Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Sua atuação na Paraíba também foi muito importante, sob a liderança do camponês João Pedro Teixeira, barbaramente assassinado em 02 de abril de 1962, e de sua companheira, Elizabeth Teixeira, que assumiu a luta pela reforma agrária após a morte de seu companheiro. Com o golpe militar, Elizabeth foi obrigada a abandonar sua família e a viver na clandestinidade, durante quase todo o período ditatorial, retornando à Paraíba somente em 1984, para protagonizar o filme do cineasta Eduardo Coutinho, “Cabra marcado para morrer” (1984), que resgatou a trajetória de lutas das Ligas Camponesas da Paraíba e a história de João Pedro e Elizabeth. A influência e o legado da atuação de João Pedro e de Elizabeth estão presentes até os dias de hoje na vida dos movimentos do campo paraibano, tendo influenciado fortemente a luta pela terra nos anos 1990, quando camponeses foram às ruas, com o apoio da sociedade civil, ocupando a cidade e exigindo do poder público atitudes e medidas em relação ao tema da reforma agrária. Dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) mostram que hoje existem na Paraíba 295 assentamentos da reforma agrária, sendo muitos oriundos desse processo de lutas dos anos 1990, que acabou por desapropriar antigos engenhos e tornar as casas-grande em sedes de assentamentos. Essa rica história faz parte da memória das lutas dos camponeses no Brasil e necessita ser mantida para que as lutas das gerações futuras possuam referências em relação ao seu passado, à história de seus territórios e de seus movimentos, muito importante para a continuidade das lutas no campo. Por isso, no ano de 2006, foi fundada a ONG Memorial das Ligas Camponesas, com sede na comunidade de Barra de Antas, no município de Sapé, Paraíba. Esta instituição museológica, nasceu do empenho de um coletivo formado por trabalhadores e trabalhadoras do campo, com a efetiva colaboração de agentes pastorais (principalmente da Comissão Pastoral da Terra - CPT), de militantes de movimentos sociais populares do campo, de professores e estudantes extensionistas ligados à Universidade Federal da Paraíba e de outros profissionais comprometidos com a causa camponesa e da preservação da memória. Entre seus objetivos, vale destacar:
- Desenvolvimento de ações técnicas referenciadas na perspectiva histórica e sócio-antropológica, priorizando a preservação, resgate e divulgação das Ligas Camponesas;
- Elaborar e implementar ações programáticas sob o enfoque preservacionista, orientadas para a valorização da cultura local;
- Promover atividades de integração social, nas escolas, comunidades e entidades congêneres;
- Promoção de projetos para implantação do turismo cultural, cursos e atividades artísticas;
- Implantação e desenvolvimento de processos inerentes à museologia social, estudo, conservação, documentação, exposição, ação sócio-educativa-cultural das expressões materiais que se refiram às Ligas Camponesas;
- Criação de monumentos para a preservação da memória das lutas no campo . Esses objetivos refletem a preocupação da ONG Memorial das Ligas Camponesas quanto a preservação da história das lutas camponesas na região, bem como de promover uma atuação de fortalecimento das novas gerações dos movimentos sociais do campo. Esta perspectiva vislumbra um horizonte de longo prazo, aquele que preza pela permanência das famílias no campo, a luta por um projeto de desenvolvimento rural que privilegie o campo como um espaço de compartilhamento de saberes tradicionais, de mútuas trocas, e não apenas como uma extensão da indústria na forma de um setor produtivo. Para isso, em seu programa de ação educativa, para além das visitas mediadas no Memorial, que é feita atualmente por agricultores voluntários, desenvolve ações de:
- Sensibilização com os trabalhadores e as trabalhadoras do campo, em especial as novas gerações dos acampamentos e assentamentos da reforma agrária, a partir dos trabalhos de Educação Popular e de Extensão Popular, realizados em assentamentos da região, como efetivo compromisso com a promoção e solidariedade com a causa camponesa;
- Criação de um programa de formação continuada com os trabalhadores e as trabalhadoras, tanto do ponto de vista formal (por ex.: por meio da criação, em Barra de Antas, de uma unidade Escola Família Agrícola) quanto não-formal, com formações diversas, como de economia solidária;
- Busca por parcerias com coletivos envolvidos com pesquisas e estudos que priorizem saberes e práticas camponesas contextualizadas. Alguns projetos, realizados no âmbito da ação educativa do Memorial serão mais detalhados a seguir, posto que este atualmente é o núcleo mais ativo da instituição. O crescimento e fortalecimento deste núcleo educativo foi em grande medida consolidado durante a construção de um prédio anexo ao Memorial. A obra teve início em 2015, sendo concluída em 2018, com apoio de doação financeira de vários doadores nacionais e internacionais. Com o anexo, a instituição pode dispor de melhores condições físicas para realização de reuniões, atividades culturais e educativas, especialmente as voltadas para o programa de formação continuada. E sobre este último, cabe ressaltar que em agosto do ano corrente, foi formalizada uma parceria entre o Memorial das Ligas Camponesas e a Secretaria e Educação do município de Sapé, para a criação da primeira turma de Educação de Jovens e Adultos com ênfase na Pedagogia do Campo. O projeto prevê um público de 40 alunos da comunidade, que passarão por um processo de alfabetização contextualizada. . Com esta iniciativa, o Memorial estreita ainda mais sua relação com a comunidade, apoiando as lutas locais e incentivando a organização política da comunidade. Ao longo de sua trajetória, o Memorial desenvolveu diversas iniciativas com e para a comunidade, mas nos últimos anos sua diretoria, eleita a cada 3 anos, composta majoritariamente por camponeses, tem se preocupado com a consolidação institucional para que as novas gerações se encarreguem do compromisso político assumido quando da criação do Memorial em 2006. Para isso, além de se aproximar cada vez mais da comunidade, o Memorial tem buscado parcerias para fortalecimento de sua função museológica. Por isso, as ações apresentadas para o pleito deste prêmio, detalhadas no item a seguir, tem por base a consolidação da instituição, quanto a sua missão, sobretudo educativa e cultural. E o prêmio, se logrado, irá fortalecer sua estrutura museológica, com a consolidação de uma gestão e uma exposição de longa duração que potencialize não apenas a história do sítio de memória, mas democratize ainda mais a preservação da memória das ligas e lutas camponesas na Paraíba. Além das parcerias regionais, com organizações e entidades como a CPT, a Marcha Mundial das Mulheres e o Laboratório Educacional de Tecnologias Socais, o Memorial das Ligas e Lutas Camponesas é membro fundador da Rede Brasileira de Pesquisadores de Sítios de Memória, criada durante o I Seminário de Pesquisa e Documentação em Sítio de Memória. E por mediação desta rede, oficializou seu pedido de participação na Coalition Sites of Conscience, que no continente latino-americano administra a Red Latinoamericana y Carineña de Sítios de Memoria. Com o ingresso na Coalition, o Memorial das Ligas e Lutas Camponesas será a única instituição museológica da região nordeste a fazer parte desta rede global que aproxima instituições que trabalham com memórias de passados traumáticos, e que no Brasil está representado apenas por instituições da cidade de São Paulo. A saber: Memorial da Resistência de São Paulo, Memorial da Imigração, Casa do Povo e Núcleo de Preservação da Memória Política.