14/09/2026
“Patente em remédio de criança é mais que um crime hediondo. Eu fico nervosa de verdade. Os comprimidos de lopinavir/ritonavir eram enormes, fediam a peixe e não podiam ser macerados. A gente só via as crianças morrerem por falta de adesão”. A indignação da médica infectologista Fernanda Rick, que acompanhou crianças vivendo com HIV em diversas regiões do Brasil e do mundo, tem uma razão concreta. Durante anos ela viu de perto crianças enfrentarem dificuldades na adesão ao tratamento diante de medicamentos inadequados para sua idade. E essa não é apenas uma história do passado.
O Ministério da Saúde reconhece expressamente a escassez de apresentações adequadas para crianças. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para manejo da infecção pelo HIV em crianças e adolescentes afirma que tornar a terapia antirretroviral mais tolerável permanece sendo um desafio diante das limitadas apresentações disponíveis para essa população. O documento também reconhece que as opções pediátricas são restritas, principalmente pela ausência de formulações específicas, e aponta a palatabilidade e os efeitos adversos dos medicamentos entre os fatores associados à não adesão de crianças e adolescentes.
Crianças vivendo com HIV representam um “mercado pequeno”. E é justamente aí que está uma das falhas essenciais de tratar necessidades de saúde como mercado: quando a demanda é considerada pequena, formulações pediátricas deixam de ser comercialmente interessantes para a indústria farmacêutica e podem simplesmente desaparecer do mercado. Nesse contexto, ao longo dos últimos anos, foi necessário readequar o tratamento de inúmeras crianças diante da interrupção do fornecimento de formulações pediátricas. Foi assim com a apresentação de ritonavir em sachê e, mais recentemente, com a solução oral de lopinavir/ritonavir.
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