07/04/2025
CARTA ABERTA (Texto postado pela esposa Lidi Santos)
Pela quinta vez desde que comecei a pagar minhas últimas dívidas com a justiça, me vejo na necessidade de fazer um protesto pacífico extremo: a greve de fome. Infelizmente, não vejo como reverter a perda do semestre letivo e por consequência o meu estágio na Defensoria Pública do Estado. Nesta segunda-feira (07), encerra o prazo para trancamento total do cursos de Direito na UFSM, e serei obrigado a cumprir esse prazo, perdendo o resto das aulas e o meu estágio. Vai ser nessa mesma segunda-feira, dia 07 de abril de 2025, que darei início a greve de fome aqui dentro da penitenciária, para lutar pelo que vai me restar: minha reabilitação auditiva.
Quem me acompanha sabe o quanto batalhei para poder estar ouvindo com os implantes cocleares, depois de 26 longos anos de surdez profunda. Mas não é simplesmente colocar os aparelhos e ouvir perfeitamente, há uma longa batalha para ouvir melhor.. Depois de anos na fila de espera, consegui uma vaga na fonoaudiologia da UFSM, que faz um excelente trabalho, e me proporcionou um bom progresso auditivo. Acontece que a penitenciária em que estou, não tem como manter o tratamento. Há uma enorme demanda de escoltas e poucos efetivos para cumprir. O juiz e a promotora da Vara de Execução Criminal, a direção prisional, todos sabem disso, tanto que reconheceram no meu processo. E enquanto procuram uma solução, eu vou perdendo sessões e correndo o risco de perder a vaga, tendo que voltar para a fila de espera.
Peço aos nobres doutores que trabalham no meu processo que me concedam de volta a tornozeleira, que eu usava desde 2021 e só perdi em fevereiro de 2,25 por questionar atos discriminatórios por parte de um vigilante terceirizado do Poder Judiciário. Não cometi novos crimes há mais de 10 anos e jamais descumpri qualquer regra do monitoramento eletrônico, tanto que não possuo nem sequer uma única advertência injustificada nos quase 4 anos em que usei a tornozeleira. Portanto, não sou um risco para a sociedade nem um indisciplinado.
Infelizmente, o recurso para que eu volte a estudar está demorando e eu entendo, há centenas de milhares de outros para serem julgados. Mas eu rogo para que minha reabilitação auditiva não seja prejudicada também, sem um motivo plausível. Eu queria poder explicar em palavras a importância da minha audição, mas nunca iria conseguir. Como descrever o que é ficar 26 anos no mais absoluto silêncio e voltar ao mundo dos sons em um processo que só quem passa por ele conhece? A surdez é invisível aos olhos e o ganho auditivo de um implante coclear é indescritível a um leigo. Por isso eu me limito a me pedir que meu caso seja analisado com cautela, sem esquecer da urgência que necessito. Espero que minha greve de fome possa falar por mim, do quanto a audição importa para mim. E agradeço desde já pela compreensão.
Micael