16/05/2026
O assassinato de Mestre Moa foi um dos marcos mais tristes da Capoeira. Aquilo que lhe tirou a vida opera primeiro em um território invisível, no íntimo oculto do ser. Corrói a capacidade de sentir humanidade no outro e naturaliza a ideia de que vidas podem ser mortificadas. Substitui a reflexão pelo delírio e a violência deixa de ser marca do fracasso humano para ser cultuada como símbolo de força. Mestre Pastinha nos transmitiu a seguinte sabedoria: “destruir é ser covarde, é mostrar sua fraqueza”. Há fragilidade escondida nessa covardia, seja por pobreza afetiva, solidão comunitária ou por medos infantis escondidos na máscara da brutalidade. E a Capoeira Angola recusa esse caminho. Ela cria, ao contrário, uma disciplina do corpo e do afeto: uma arma perigosa posta a serviço da solidariedade, forjada pela ordem da vida cotidiana para defender a liberdade, a dignidade, a memória e a camaradagem. Mestre Pastinha ensina ainda: “A luta provida pelo puro egoísmo é violenta, feroz e brutal. Ao contrário, a simpatia é que a ilumina”. Seu discípulo, Mestre João Pequeno, mergulhou mais fundo quando disse que o capoeirista não precisa bater. O verdadeiro domínio está justamente na capacidade de levar o golpe até o limite e freá-lo, porque quem vê entende: “ele não bateu porque não quis”. É nessa fineza que reside a nossa ética. Força não é ausência de controle, mas exatamente sua presença. Violência não é o mesmo que luta, ainda que, durante a luta, a agressividade possa se fazer necessária. Nossa Capoeira exige astúcia, análise, reflexão, comedimento e escuta. É reconhecer o outro como potencial companheiro necessário à própria existência da capoeira. Não há capoeira solitária, assim como não há capoeira sem mestre. Sem pergunta e resposta, resta apenas a secura, a deselegância, uma vida empobrecida. A capoeira não pode se prestar à morte, ao genocídio, de onde quer que venha, mas abrir caminhos para que a vida floresça, em sua plena exuberância, como floresceu Mestre Moa neste mundo!
📸 Fotografia do acervo do GCAC. Roda no Vale das Árvores, Cabula, com o Mestre Barba Branca e Mestre Moa do Katendê (2006). No momento, Mestre Moa cantava a ladainha "Igreja do Bonfim".