13/08/2026
revista solaris - edição agosto/26
Quebrado
Eu amei a Copa. Adorei o show da final; os Ronaldos com a Madonna estavam ótimos, emocionante demais a homenagem ao Pelé, rei máximo, e o Dudamel maravilhoso orquestrando a criançada com remada e tudo. Que Copa legal. Meu time predileto foi a Inglaterra. Podia ter ganhado da Argentina, é verdade, mas o jogo com a França foi inesquecível. Eu assisti em um cinema. Com ar condicionado, perfeito no dia mais quente deste ano. Torrava. O gol do Bellingham, neste jogo, foi provavelmente o mais bonito da Copa. E a camaradagem entre os jogadores ingleses foi excepcional.
“Por que o pessoal não gosta do Neymar aí no Brasil?”, perguntei via texto ao meu irmão.
Não me lembro da resposta.
“Ele bateu em mulher? Roubou dinheiro público? Molestou criança?”
“Ele já não joga tão bem”, ele respondeu.
“Mas foi o único que marcou um gol para nós no último jogo… Aqui não se fala mal desta maneira nem do OJ Simpson.”
Agora estou pronta para um drama!
“Um ônibus chamado alegria”
“Prazer, sou Marco.”
Não lembro se foi a primeira vez, não poderia ser, afinal uma mulher de 37 anos já deveria ter tido essa experiência antes, mas pareceu ser. A voz da pessoa entra no seu ouvido como uma serra elétrica, daquela emperradas, um barulho que rói mas não rói. O som que eu escutei era de outro mundo, parecia outra língua. Mas eu entendi o que ele falou. E entendi o que o som me mostrou: vai dar briga.
“Clara, ele está falando com você”, Minha irmã chamou minha atenção.
Eu olhei para o marido dela. Vi a cicatriz estampada no meio da testa. Era uma testa pequena e ele suava. A cicatriz era profunda, entendi a voz de serra, alguém serrou um pedaço da cara dele e afetou a voz. Ele mexia os lábios, mesmo sem falar, coitado. Parecia ter dentes enormes, porque a boca era protuberante, com lábios finos. A voz era, infelizmente, forte e autoritária. Do pior autoritarismo. Pensei na doçura de meu pai.
“E eu sou a Clara”, finalmente respondi. Senti a minha irmã relaxar atrás de mim com um suspiro baixo.
Não estendi a mão, muito menos cheguei perto para dar beijo.
Minha irmã começou a falar de imediato sobre um jogo de sinuca, amigos, cerveja gelada, geladeira que parecia não gelar, ele pareceu interessado na conversa e eu me retirei.
Entrei num corredor escuro, minha cabeça rodava. Uma porta…
Me tranquei no banheiro.
Sentei na privada e comecei a chorar. Fui para a janela para chorar mais à vontade. Devia ser a medicação e o calor, porque eu me sentia endoidecida.
Abri a janela. O calor aumentou! O sol brilhou mais forte, estava tão quente que vi um dragão.
Daniela Pompeu
Daniela Pompeu, brasileira-americana, neta, filha, sobrinha e irmã de jornalistas, mora em Los Angeles, Califórnia. Graduada em Inglês pelo Hunter College, Nova Iorque, com especialização em Literatura Medieval. Formada em Acting pelo Catherine Gaffigan Studio of Acting, Nova Iorque. Escreve um blog semanal: www.danielawrites.net . Autora dos livros "Tea with Dani", "It's with H, Sir" e "Never Let a Good Crisis Go to Waste, I Can't Stand the Bull Crap".
Fonte: revista solaris edição nº 8 ano 2026
https://institutosolaris.com.br/quebrado/
Take a Break, I'll Give you a Good Story! “Not even 50 immigrants, tsc tsc…!”Daniela Pompeu is the daughter, granddaughter, great granddaughter of writers so surprise, surprise she writes too. And she always has a story to tell… Experience with Daniela – A Summer Evening Gathering Whether ...