06/06/2026
Flavinho - A semente continua viva por .jorge.santos
Hoje, dia 6 de junho de 2026 completam-se dois anos da partida do meu pai para o Orum. Confesso que, quando tudo aconteceu, imaginei que o tempo diminuiria a saudade. Descobri que ele fez outra coisa. Transformou a saudade em aprendizado.
Há conversas que só fazem sentido depois do silêncio. Há ensinamentos que só amadurecem quando já não podemos mais fazer uma pergunta. Talvez por isso eu tenha demorado dois anos para escrever este texto. Não porque faltassem palavras. Mas porque eu precisava aprender algumas coisas antes de escrevê-las.
Durante muito tempo achei que o legado do meu pai estivesse nas entidades que ajudou a construir, nas conferências das quais participou, nas políticas públicas que ajudou a defender ou nas pessoas que formou ao longo da vida. Hoje entendo que tudo isso faz parte da história. Mas o legado que mais me orgulho é outro. É perceber que muitas das coisas que ele dizia começaram a fazer sentido justamente quando ele já não estava mais aqui para repeti-las.
Quando era mais novo, via meu pai sair cedo para reuniões, congressos, marchas, viagens e encontros. Para mim, aquilo era apenas a rotina de alguém muito comprometido com o trabalho. Eu não fazia ideia do tamanho daquela caminhada.
Hoje, olhando para trás, entendo que cada reunião, cada viagem e cada debate ajudaram a construir direitos que hoje parecem naturais para muita gente, mas que nasceram da coragem de homens e mulheres que entenderam que era preciso organizar o povo preto para transformar o Brasil.
Nenhuma dessas conquistas caiu do céu. Cada uma delas custou tempo, renúncia, estudo, diálogo, enfrentamentos e muita construção coletiva. E talvez tenha sido justamente isso que mais aprendi com meu pai. A luta nunca foi sobre aparecer. Sempre foi sobre construir...
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📷 Arte/design: .jorge.santos