20/08/2020
Quanta história de nossas quebradas...
Salve, galera! sai mais um da semana, agora sobre a 8ª Caminhada pela Vida e pela Paz:
"Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação". A Constituição Federal do Brasil teoriza que a saúde é um direito de todos e dever do Estado. Sabemos, porém, que essas e outras garantias básicas continuam no plano teórico quando "todos" não engloba a periferia, haja vista a ausência de equipamentos públicos de saúde na quebrada.
Em 2003, no Jardim Ângela, a 8ª Caminhada pela Vida e pela Paz clamava pelo direito à saúde através da exigência de um hospital na região! Mais que um simples equipamento de saúde, essa reivindicação foi um apelo à vida e à inclusão da periferia no que a Constituição define como "todos", algo negligenciado pela negação desses e outros direitos básicos. Fatalmente, ainda faltava mais para que de fato a construção do hospital fosse feita, e isso tardou cerca de 5 anos, pois só em 2008 o hospital foi inaugurado. A luta popular em torno da reivindicação foi uma longa CAMINHADA, que se iniciou a partir da própria quebrada organizada, e realmente não podia ser de outro jeito, já que, sabemos, a periferia não pertence ao "todos" explícito na Constituição.
Em 2020, o mundo enfrenta uma pandemia causada pelo novo coronavírus. A quebrada, mais uma vez, sofre as piores consequências desse desastre. Até agora, o hospital já realizou mais de 3000 internações causadas pelo vírus, e a gente sabe bem que apesar de tudo isso ainda não há muito o que comemorar. Ainda assim, cabe a pergunta: o que seria da nossa quebrada, nesse cenário de pandemia, sem um equipamento desse? Pois bem, a periferia sempre enfrentou as mais adversas situações sem ele, e se não fosse a luta popular, certamente, a pandemia seria mais uma dessas situações.
A mobilização social na quebrada existe, resiste e precisa ser resgatada. A periferia sabe quais são suas demandas e sabe também exigi-las. Não há nada no nosso território que possa ser construído sem nós. Não há nada sobre nós sem nós. Nós, a periferia!
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Saulo Vilanova é morador do Morro do Índio. Estudante de Letras pela Universidade de São Paulo (USP), atua como professor e coordenador na Rede Ubuntu - Educação Popular, integra o Sarau Apoema - Jardim Ângela e o Centro de Memória das Lutas Populares Ana Dias.
Foto: CDHEP - Centro de Direitos Humanos e Educação Popular de Campo Limpo.