05/06/2026
Se as personalidades que deram nome às ruas e avenidas da placa do 178L resolvessem embarcar juntas no ônibus do Lauzane rumo ao Hospital das Clínicas, São Paulo certamente pararia para assistir.
Tudo começou no ponto final do Lauzane Paulista. O primeiro a chegar foi o Conselheiro Moreira de Barros, muito elegante, olhando o relógio e reclamando que o ônibus já não era tão pontual quanto no seu tempo.
Logo apareceu Braz Leme, cheio de energia e andando de um lado para o outro.
— Vamos logo! A cidade inteira está passando por mim hoje!
Do outro lado da rua surgiu Rio Branco, sempre importante, com aquele jeito de quem conheceu uma São Paulo bem menor.
— Calma, meu amigo. Eu já vi esta cidade crescer de carroça para arranha-céu.
O ônibus chegou, as portas abriram e o grupo embarcou.
Quando passaram pela Casa Verde, a conversa já estava animada. Braz Leme contava vantagens.
— Sou uma das avenidas mais bonitas da Zona Norte. Tenho canteiro central, pista larga e vista para o Tietê.
Rio Branco respondeu:
— Muito bonito. Mas experimente receber milhares de pessoas todos os dias no Centro da cidade.
Nisso, uma voz interrompeu lá do fundo.
Era a Consolação.
— Vocês dois discutem demais. Todo mundo acaba passando por mim de qualquer jeito.
O silêncio tomou conta do ônibus por alguns segundos.
Ninguém conseguiu contestar.
Ao chegar na região central, os passageiros começaram a embarcar em massa. Conselheiro Moreira de Barros olhou pela janela e comentou:
— Impressionante. Parece que metade da cidade resolveu pegar este ônibus.
— Só metade? — respondeu Rio Branco. — Hoje está tranquilo.
A viagem continuou e logo surgiu Doutor Arnaldo, que entrou na conversa com a autoridade de quem conhece medicina.
— Senhores, mantenham a calma. A pressão arterial de vocês já está subindo antes mesmo de chegarmos às Clínicas.
Foi então que Heitor Penteado apareceu sorrindo.
— Eu só quero saber quem teve a brilhante ideia de subir todos esses morros.
— Culpa da geografia paulistana — respondeu Consolação. — Eu também sofro com isso todos os dias.
Quando finalmente o ônibus chegou ao Hospital das Clínicas, todos desceram juntos.
Braz Leme ajeitou o paletó.
Rio Branco conferiu o movimento.
Consolação suspirou.
Doutor Arnaldo observou os prédios do complexo hospitalar.
Heitor Penteado reclamou da subida mais uma vez.
E Conselheiro Moreira de Barros concluiu:
— Senhores, acabamos de atravessar praticamente toda São Paulo dentro de um único ônibus.
Nesse momento, um passageiro que havia saído do Lauzane duas horas antes comentou:
— E amanhã eu faço tudo de novo.
Os seis se entreolharam.
Pela primeira vez durante toda a viagem, concordaram em uma única coisa:
Quem mora em São Paulo não mede distância em quilômetros. Mede em linhas de ônibus.
E poucas linhas contavam essa história tão bem quanto o velho 178L-10, que saía do Lauzane, cruzava avenidas históricas, passava pelo coração da cidade e terminava sua jornada nas Clínicas, carregando diariamente milhares de histórias paulistanas entre um ponto e outro.