19/06/2026
O psicólogo Viktor Frankl, sobrevivente dos campos de concentração nazistas e fundador da logoterapia, observou que o vazio existencial — a incapacidade de encontrar sentido para a própria vida — não se manifesta apenas no consultório. Ele se manifesta na rua, nas redes sociais e, de forma muito evidente, na política.
Essa ausência de sentido produz dois fenômenos aparentemente opostos. O primeiro é a apatia: a sensação de que nada adianta, de que o sistema não muda, de que a melhor saída é a indiferença. O segundo é o que o filósofo Ortega y Gasset chamou de politicismo integral — a absorção de todas as dimensões da vida pela política, transformando relacionamentos, arte e religião em extensões do posicionamento ideológico.
Frankl explica que, sem os instintos que orientam os animais e sem as tradições fortes que orientavam gerações anteriores, o homem de hoje frequentemente não sabe o que quer. Nesse vazio, ele tende a fazer uma de duas coisas: seguir a massa sem perguntar por quê, ou eleger um guru que decida por ele. Ambas são formas de fugir da responsabilidade de responder, por si mesmo, à pergunta sobre o sentido da própria existência.
A crise política que vivemos tem raízes mais fundas do que disputas eleitorais ou embates ideológicos. Ela é, antes de tudo, uma crise antropológica — e só começa a ser resolvida quando cada pessoa decide encarar, com honestidade, a pergunta que a política sozinha nunca conseguirá responder.