17/07/2020
Espremida entre a principal entrada de São José dos Campos e uma moderna avenida de fundo de vale, que corta a cidade no sentido norte, levando os turistas para Campos de Jordão e o sul de Minas; a favela Santa Cruz começa a menos de um quilômetro da portaria do DCTA, órgão do Ministério da Aeronáutica que abriga o ITA, entre outros institutos avançados, e tem como vizinhos o INPE, a Embraer e o aeroporto da cidade. Discretamente, a favela e a realidade social que se esparrama em seu entorno, dividem o centro da cidade em duas partes, no sentido sudeste-norte, e abraçam, também com discrição, as sedes da Prefeitura e da Câmara Municipal. A história do surgimento da Santa Cruz, que nasceu com o nome de Linha Velha, não tem nada de muito original em relação à forma e à motivação para que algumas famílias de migrantes passassem a ocupá-la, na primeira metade do Século XX; isso quando comparada com a história de outras cidades que, ainda que em épocas e em proporções diferentes, foram crescendo desordenadamente à medida que começaram a instalar fábricas em seus territórios. Em São José dos Campos, as favelas do Banhado e da Linha Velha começaram a se formar, por volta de 1930, em função das instalações da Tecelagem Parahyba e de algumas indústrias de cerâmica; na sequência, outros núcleos de moradias precárias foram formados na região de Santana, em função da instalação da Rhodia, multinacional francesa, na zona norte da cidade. Também o processo de escolha da área a ser ocupada pelos moradores da Linha Velha desde o seu início não foi original, em relação a muitos outros municípios do país: os migrantes pobres que saíram em massa da zona rural, demandando trabalho e moradia nas cidades, ao longo do Século XX no Brasil, via de regra foram morar em morros e zonas alagadiças ou deterioradas; esse foi o caso da Linha Velha em São José dos Campos, que se formou entre dois morros e às margens de um córrego, acompanhando os trilhos desativados de um antigo ramal da estrada de ferro, que a então Central do Brasil substituiu pelo caminho atual. O número de favelados em São José dos Campos nunca chegou a ser muito grande, como aconteceu em outros municípios industriais do Brasil, entre outros motivos, por causa da crise que atingiu o capitalismo em nível mundial, nos anos 1980, brecando a expansão da indústria tradicional antes mesmo dela ocupar pesadamente a cidade, como já tinha feito em outras regiões. Outro motivo foi a ausência de conurbação na região, fato que possibilitou os especuladores imobiliários explorarem grandes estoques de terra existentes no entorno da cidade, transformando grandes áreas rurais em chácaras que passaram a ser repartidas entre si e ocupadas de maneira irregular pelas famílias mais pobres, que tiveram ainda que arcar com os custos relativos à obtenção de infraestrutura básica, como água e luz e conviver com a ausência de muitos outros serviços públicos. Ainda hoje São José convive com grande número de loteamentos clandestinos e irregulares. Por estar localizada em uma região politicamente conservadora, de forte presença militar – a cidade foi governada por interventores nomeados pelos militares, entre os anos 1960 e 70 – São José dos Campos também se diferenciou de muitos outros municípios, na questão do relacionamento do poder público com a população favelada. Vistas como estorvo e muitas vezes como vergonha para a cidade, a principal política adotada pelo poder público em relação às favelas, quando houve, tanto durante a ditadura como depois dela, tem sido a da remoção das mesmas; política essa que sempre interessou aos capitalistas que ficam de olho nos espaços valorizados ocupados por elas no centro da cidade como aos especuladores imobiliários, que passaram a lotear grandes glebas de terra na zona rural, vendendo a preço de zona urbana.
Moacyr Pinto
Sociólogo e escritor