O Projeto Jardim Limpão surgiu da ideia de trabalhar com intervenção urbana junto a duas comunidades locais, o Jardim Regina e o Jardim Limpão, ambas situadas no bairro Ferrazópolis, no município de São Bernardo do Campo. Levando outras referências ao local, sensibilizando os moradores através do graffiti, fugindo da ideia hipócrita de deixar a favela “mais bonita”, mas de humanizar seus espremidos becos e vielas. O Jardim Limpão ganhou destaque na mídia de forma negativa, no ano de 2003, - que por motivos óbvios, não vou me expor aqui sobre esse ocorrido - no episodio de reintegração de posse do terreno da Volkswagen. Esse projeto vem sendo realizado desde 2006, de forma independente, contando apenas com o apoio da própria comunidade e de moradores como o Fabio Mendonça e Vanderlei Viana, que desenvolvem de forma voluntaria treinos de capoeira angola para as crianças de região há mais de 10 anos. Foi no muro da casa do Vanderlei, na Travessa D’água, que surgiu o primeiro graffiti e com ele o intuito de trabalhar em forma de workshop com as crianças e adolescentes do bairro, garantido acesso a cultura, lazer e educação através da arte. Desse primeiro trabalho, a ação foi se fortificando, onde em 2008 também estabeleceu a oficina de Artes Visuais, com aulas semanais, aliando a aprendizado em ateliê com a pratica nas ruas e vielas do bairro, proporcionando uma ação mais elaborada e assim aumentando o número e frequências das crianças e jovens atendidos pelo projeto, além de possibilitar uma abrangência maior dos assuntos e temas desenvolvidos com uma grande relevância dentro de um projeto de arte-educação. Essas comunidades são marcadas pelo intenso tráfico de dr**as e atos de extrema violência, além de toda falta de estrutura básica para seus moradores. Mas a ideia do projeto e do registro fotográfico não é mostrar de forma sensacionalista as vidas nas favelas e comunidades brasileiras através de um estereotipo mundial, mas apresentar o cidadão/trabalhador comum que se esforçam para sobreviver nesses “quilombos modernos” com um pouco mais de R$ 500,00 por mês em média, tendo pouco acesso à cultura e lazer. Moro nas proximidades do Jardim Limpão e Jardim Regina, há vários anos, desde moleque, frequento seus becos e vielas, vivenciando historias inacreditáveis, conhecendo de perto a verdadeira historia do bairro, talvez por isso o enfoque seja outro. A experiência do projeto no decorrer desses anos e a troca de ideias com os moradores, possibilitou a reflexão sobre a organização da comunidade, sem ajuda de políticos ou de qualquer outra forma de autoridade, possibilitando a ação direta da população para melhoria do convívio local. Outro questionamento, de nível mais pessoal, é sobre qual a função do “artista-cidadão” no contexto e qual é sua verdadeira função dentro da sociedade atual. A essa pergunta ainda não tenho respostas, mas já sou muito grato ao Projeto Jardim Limpão por me questionar sempre e por não me manter estático.
- O Projeto Jardim Limpão é uma Parceria CCAASS e Studio Treze – Não é ONG, Não Partido, Não Instituição, Não é Municipio muito menos o Estado!