20/12/2025
UM SONHO DE NATAL
Massilon Silva
Era uma vez um peru. Uma bonita ave que não nasceu em ninho de
ouro como essas que são trazidas ao mundo em granjas enormes com luz,
água tratada, sistema adequado de ventilação e até aquecimento para os dias
e noites mais frios, ração balanceada e vacinas que previnem contra todo e
qualquer tipo de doença. Aquele não; era um peru de vida simples e bem ao
sabor pastoril, com perdão do trocadilho.
Seus donos eram pessoas pobres da roça que jamais ministraram-lhe
uma vacina sequer, no máximo misturavam limão à água de beber para
prevenir a coriza infecciosa, popularmente conhecida por gogo; seus hábitos
alimentares não iam além de alguns caroços de milho pela manhã, seguidos de
grilos, gafanhotos, pequenas serpentes, formigas, minhocas e outros
habitantes da natureza, que caçava por sua própria conta e risco, dele e das
caças. Era, por assim dizer, um consumidor de orgânicos e ele próprio um
produto organicamente produzido.
Sua família compunha-se dele próprio, três irmãos machos, cinco
fêmeas e a mãe, uma perua velha. O pai era desconhecido mas – ressalte-se
– não era filho de chocadeira.
E assim foi crescendo em corpo e conhecimento, tomando ciência das
coisas do mundo graças às incursões diárias que fazia ao interior da casa,
ocasiões em que ouvia rádio e via televisão, ainda que furtivamente, pois em
regra era expulso por sua dona ao poder de vassouradas.
Graças ao programa Globo Rural que raramente perdia ficou sabendo
coisas interessantes sobre si mesmo e seus iguais, como por exemplo ser
“uma ave galiforme, da espécie meleagris gallopavo” e que sua raça é a
dindon noir de l`Ariège , com o que ficou deveras deslumbrado.
Como já estivesse devidamente emplumado (até já se sentia mais bonito
que o pavão do sítio vizinho) e soltando afinados glugluglus, foi assaltado pelo
desejo de arranjar uma namorada; não uma perua qualquer mas uma que
estivesse à sua altura, com cara, porte e plumagem de uma verdadeira
primeira dama do terreiro. Verdade que com suas irmãs, todas em idade adulta,
embora fossem um bom partido e apesar de não ser proibido o incesto entre
aves, o acasalamento não era de todo recomendável pois sempre existe a
possibilidade de nascerem bebês-perus defeituosos. Talvez um dia quando
fosse à cidade tivesse a sorte de encontrar uma perua bonita, rica e famosa
igual àquelas da televisão, mas perua literalmente.
Por falar em cidade era esse seu grande sonho. Sempre que seus donos
iam à feira levavam um ou mais de seus irmãos que, por sinal, nunca
retornavam. Esse fato em particular lhe deixava intrigado, mas talvez ficassem
na urbe pela possibilidade de uma vida melhor e até mais divertida que a do
campo. Outra coisa que lhe deixava de orelha em pé era que seus irmãos
sempre viajavam nas semanas próximas ao Natal, porém não haveria de ser
nada demais, afinal era festa e todos gostam de participar, ver as lapinhas, as
árvores luminosas, o Papai Noel e por aí vai.
A ansiedade ia tomando conta do seu coração e agora era ele todo
pensamento e desejo de conhecer a cidade, as peruas televisivas, vitrines,
feiras e tudo mais que faz a felicidade dos seres viventes.
Uma bela noite sonhou que todos os seus irmãos já se tinham ido para
outras plagas e, como se fosse agora o único de sua raça no sítio, chegara finalmente sua vez. Era natal e seus donos o recolheram logo cedo, antes que
enchesse o papo com aquelas porcarias da terra, e empoleirado num caminhão
entupido de feirantes lá se foi em busca da felicidade, assim pensou. Chegou
ao destino um tanto estropiado e sentindo a falta de certa quantidade de p***s,
tudo devido aos solavancos do veículo naquela estrada que não via um
conserto desde as últimas eleições – era um buraco só. A chegada também
não foi lá essas coisas e foi levado diretamente para a feira, jogado ao chão
junto com galinhas, frutas, verduras, ovos, carvão e um sem número de
cacarecos próprios dos feirantes. Nada de comida, água fresca e sombra,
muito menos as peruas da TV, enfim nenhum sinal da boa vida que durante
muito tempo lhe passara pela cabeça desfrutar. Quanta decepção! Por volta do
meio dia, sol a pino e um calor sufocante, uma senhora de porte avantajado,
cara de gente rica e aspecto afável, trocou algumas palavras com sua até ali
dona, para em seguida o acomodar debaixo do braço, não sem antes amarrar-
lhe os pés e as asas, além de acomodar-lhe em uma caixa de papelão novinha
em folha com pequenos furos para que entrassem algumas gotas de ar,
evitando assim uma morte indesejada e sobretudo prematura. Um pouco de
desconforto mas tudo perfeitamente suportável para quem dali a algumas
horas estaria vivendo uma vida de príncipe de alta e nobre plumagem.
Nova decepção e agora definitiva, quando em meio à viagem sua nova
dona e “protetora” encontrou uma pessoa conhecida que lhe indagou sobre o
que estava levando para a Ceia de Natal. A bondosa senhora, aproximou-se de
sua interlocutora e, abrindo cuidadosamente a caixa, pronunciou alegremente
as palavras mágicas “este hoje vai cair na faca”.
Só então se deu conta da lúgubre realidade. Naquele momento era mais
um condenado à pena capital, no corredor da morte como tantos outros de sua
espécie, para gáudio dos homens e mulheres, que celebram o nascimento de
um ser com o sacrifício de outros seres considerados inferiores, embora
inocentes.
Acordou assustado, triste, riscou de sua mente Papai Noel, presentes,
presépios e tudo mais ligado ao nascimento do menino de Belém, e foi feliz até o Natal seguinte.