09/03/2026
Carta do Maré Cheia de Cinema
Este texto, embora escrito por poucas mãos, representa a jornada de muitas pessoas: equipes, amigos, voluntários e apoiadores do Coletivo João do Rio, realizador do Maré Cheia de Cinema.
O Maré nasceu de encantamentos: pela praia de Ponta Negra, por suas pessoas e pelo cinema brasileiro. Ao longo dos anos, tornou-se também uma história de encontros, trocas e muito afeto.
Um projeto dessa grandeza e persistência só foi possível porque muita gente acreditou. Contamos sempre com o apoio da comunidade local, que tantas vezes nos recebeu de braços abertos, mesmo diante dos desafios que envolvem uma produção como essa. Contamos também com uma equipe de voluntários que, em muitos momentos, abriu mão de trabalhos remunerados para estar presente durante a Páscoa, ajudando a tornar o Maré possível.
O projeto teve início em 2010, e desde então, recebemos o apoio da Prefeitura de Paraty para o transporte terrestre da equipe e dos equipamentos, além da divulgação do evento. Desde 2017, o Maré passou a integrar o calendário oficial de eventos culturais da cidade. Uma conquista que ajuda a dar visibilidade a comunidade de Ponta Negra.
O coletivo de voluntários realizou festas, vendeu camisas e organizou campanhas de financiamento coletivo — tudo para viabilizar a ida das equipes até Ponta Negra: transporte de cada pessoa até o ponto de saída da van, café da manhã, lanches e compra de materiais para as oficinas. Trata-se de um trabalho que envolve meses de dedicação. Selecionar filmes, solicitar autorização, pedir equipamentos emprestados, juntar equipes, fazer artes e divulgar o evento… cada um doando seu tempo e saberes para fazer acontecer!
A própria comunidade de Ponta Negra, junto a empreendedores e comerciantes locais, também foi fundamental, apoiando com transporte de barco, alimentação e hospedagem da equipe durante o evento.
Ao longo de 13 edições, o Maré Cheia de Cinema construiu uma história coletiva e deixou resultados que muito nos orgulham:
~~377 filmes brasileiros exibidos, sendo 52 longas-metragens e 325 curtas, totalizando cerca de 120 horas de cinema.
~~16 oficinas AME – Arte, Movimento e Ecologia, realizadas com crianças e jovens da comunidade.
~~9 corridas de Canoa Caiçara, celebrando a cultura local.
~~25 curtas, produzidos localmente para documentar oficinas e corridas de canoa.
~~Exposição fotográfica “O Turista Acidental”, sobre o escritor modernista Mário de Andrade, realizada na sede da Associação de Moradores.
~~Plantio de 120 mudas de árvores nativas na encosta do Morro da Branca.
Ao longo desses anos enfrentamos muitos desafios: a distância, as dificuldades de comunicação, a falta de recursos e as transformações aceleradas do território. Também vimos muita coisa bonita acontecer: crianças crescerem, famílias se formarem e encontros se multiplicarem.
Vimos o cinema iluminar a praia! O Maré viu a chegada da luz elétrica — vale lembrar que, nas primeiras edições, não havia energia na comunidade, nem para o cinema, nem para organizarmos o evento. Viu também a chegada da internet e o aumento do turismo.
Juntos vimos as primeiras imagens dentro das águas verdes do mar de Ponta Negra, observamos o céu estrelado e vimos os caiçaras da comunidade se reconhecerem como protagonistas na grande tela.
O Maré também foi resistência ao longo desses anos. Em um país que atravessa tantas destruições — de suas matas, de sua cultura e que, muitas vezes, opera através de políticas de desafeto — o projeto insistiu em celebrar encontros, cultura e comunidade tradicional.
Depois de tantos anos de caminhada, 2025 marcou a última edição do Maré Cheia de Cinema em Ponta Negra.
Desejamos que a comunidade siga celebrando suas festas, fortalecendo seus encontros e mantendo o cinema presente em sua história.
Uma coisa é certa: quando deixamos um lugar, sempre deixamos ali um pedaço de nós. E, de alguma forma, também permanecemos.
Nos despedimos com gratidão!
Nosso abraço e nosso profundo agradecimento a todas as pessoas que apoiaram, colaboraram e prestigiaram o Maré Cheia de Cinema ao longo desses anos. E, de forma muito especial, à comunidade de Ponta Negra, que sempre nos recebeu com um sorriso e de braços abertos.
Muito obrigado.