24/08/2025
NOSSO ESTUDO CONTINUA 290
LOBOS, OVELHAS, SERPENTES E POMBAS
Carla Maria de Souza
Existem passagens dos evangelhos que ainda temos dificuldade em compreender e mais dificuldade ainda de colocar em prática.
Acreditamos que Jesus nos quer sempre mansos e que mansos quer dizer s**o de pancada de todo mundo.
Muita gente deixa de reivindicar direitos na justiça e até dentro da casa espírita pode ser lesado porque supõe que sendo bem-comportado estará fazendo a vontade de Deus.
Temos, no entanto, a tarefa de promover o espiritismo, já que ele norteia nossos passos e Jesus deixou algumas recomendações a seus discípulos, que servem também para nós.
Um único versículo do evangelho de Mateus servirá para pensarmos sobre o que ele pretende para nós. Vejamos:
"Eis que eu vos envio como ovelhas para o meio de lobos; sede, pois, astutos como as serpentes e simples como as pombas."
Mat. 10,16 Ed. Paulinas.
Esta não é a tradução mais usual, mas vem de um período já de tentativa de tornar o texto bíblico mais compreensível à maioria das pessoas, pois nossa língua muda também.
Nosso mestre maior procurava utilizar comparações que deixassem tudo mais claro para seus discípulos e falar sobre os animais cabia bem.
O lobo, neste texto, representa os instintos mais animalizados, aqueles que sequer foram domesticados. Lobos agem por instinto e não se preocupam com ninguém (hoje sabemos que não é bem assim, mas a discussão sobre comportamento animal é para outro momento.).
A representação dele nos fala de espíritos que ainda precisam de muitas características humanas, sejam esses espíritos aqueles com quem vamos conviver ou nós mesmos, porque há momentos em que o maior entrave ao nosso progresso somos nós.
E as ovelhas que serão enviadas para o meio dos lobos? A ovelha também tem sua teimosia, sua resistência, dá trabalho ao pastor, porém quando pode ser mandada a algum lugar, é porque já aceitou o domínio e vai seguir o caminho determinado pelo pastor sem vacilar.
Essa parte do sem vacilar ainda está bem difícil, pelo menos para mim, mas vamos em frente.
Ela representa a ovelha forte, que não recua perante o sacrifício que não precisa ser o extermínio dela e deve ser o transformar do lobo em outra ovelha.
Observemos que Jesus continua dizendo: sede, pois, astutos como as serpentes e simples como as pombas.
Astutos, prudentes, atentos... todas estas traduções são possíveis pois desenvolver estas virtudes não tem nada de errado, pelo contrário.
No livro Nosso Lar, quando Narcisa não sabe como resolver a situação de uma senhora que pede abrigo na colônia, mas ela tem dúvida sobre o admitir ou não sua entrada, recorre ao chefe da vigilância e este, após observar atentamente o caso e fazer algumas perguntas à própria senhora, entende que ela não deveria ser admitida na colônia. Foi atento, foi astuto, deu a ela instrumentos para, através do diálogo, verif**ar seu comportamento, suas respostas e assim chegar a uma conclusão.
Estamos em um mundo de provas e expiações, lidando, portanto, com todo tipo de pessoa. Mesmo que a intenção de nosso companheiro não seja má, precisamos observar seu comportamento e avaliar se apoiamos ou não certas atitudes quando elas também nos dizem respeito porque os resultados podem ser catastróficos. É a vigilância precisando atuar.
Alguém pode nos oferecer, por exemplo, um excelente trabalho que vai nos pagar muito mais do que aquele em que estamos. Porém, aceitá-lo signif**ará f**ar longe de nossa família por tempo indeterminado, trabalhar quase que sem descanso, talvez, precisar ceder a determinadas questões éticas às quais nunca tivemos a intenção de ceder. Será que vale a pena? Qual é o resultado de tudo isso para minha vida prática? É o momento de nossa serpente interior entrar em ação e não permitir que o lobo ambicioso disfarçado de protetor do futuro da família atue. Se estamos conseguindo sustentar nossa família com o que temos, podemos f**ar no trabalho em que estamos. Se não estamos conseguindo isso, podemos refletir, orar e encontrar formas melhores de resolver a questão, inclusive propondo que mais pessoas na casa trabalhem.
Aí, a mansidão, simplicidade, doçura da pomba já apareceu.
Ela se revela quando não respondemos a certas provocações, que em primeira e última instância não devem ser respondidas mesmo. Apresenta-se ainda quando somos obrigados a viver uma situação difícil e entendemos que não devemos reclamar; pois existem provas que precisam ser vividas e a obediência, quando está ligada à Lei Divina sempre concorre para o bem.
Assim, se queremos ser *ovelhas enviadas por Jesus, temos que ser prudentes e mansos ou inocentes (tradução escolhida por Haroldo Dutra Dias), isto é, estar vigilantes, analisar as situações com calma e com fé ao mesmo tempo, tendo convicção de que o que fazemos não ferirá a ninguém.
A opção de Dutra Dias por inocentes como as pombas deve-se ao fato de que inocente, no original, não tem relação com ingênuo e sim com o que não traz culpas, o que não causa mal a outro. Chegar, portanto, à inocência é uma conquista, um empenho de todos nós, um esforço.
As ovelhas mandadas por Jesus, portanto, são fortes, destemidas embora nunca desassombradas ou descuidadas. Elas têm fé, cultivam a esperança, são operosas e sabem que existem ovelhas que escondem dentro de si lobos ainda vorazes e que das duas uma: ou estão disfarçando para enganar, ou nem elas se conhecem o bastante para saber dos lobos que escondem.
A caminhada, contudo, exige sempre o empenho com paciência, firmeza, coragem e suavidade, tudo ao mesmo tempo. É assim que Jesus age conosco, confiando na nossa capacidade de ovelhas aprendizes e ele não nos retira as provas do caminho. Em vez disso, nos envia para o meio de lobos para que aprendamos a lidar com eles e nos orienta como fazê-lo.
Com a voz do nosso pastor a nos guiar, teremos êxito e seguiremos tranquilas. Apenas lobos caem em armadilhas para lobos
Reconheçamos os percalços, os abismos, todavia sintamos a mão do nosso protetor orientando e conduzindo amorosamente nossos passos, e, certamente, atravessaremos a estrada de nossas existências com mais leveza e alegria, rumo a outras estradas.