09/06/2026
A IGREJA EM DIÁLOGO COM OS POVOS E COM OS ESTADOS
Discurso do Papa Leão XIV ao Congresso dos Deputados (Madrid), 8 de Junho de 2026, onde, entre outras Instruções ele fala-nos do Caminho do Amor, da Justiça e da Paz trilhado por uma Nova Humanidade, redimida em si mesma. Um mundo "melhor" só é possível com "pessoas melhores". E como "ver" a si mesmo sem verdade e sem a Verdade?
"[...] A Igreja “caminha com a humanidade”, partilha as suas esperanças e as suas feridas, escuta os interrogantes de cada época e deixa-se interpelar “por tudo o que diz respeito à existência dos homens e das mulheres de hoje”. Por isso, quando se dirige à vida pública, fá-lo respeitando a missão própria das instituições e a legítima responsabilidade de quem recebeu o mandato de legislar. Reconhece “a autonomia das realidades terrenas” e “a distinção entre comunidade eclesial e comunidade política”; e, precisamente a partir dessa consciência, aporta uma reflexão nascida do desejo de servir o bem comum e de recordar aquilo que torna verdadeiramente humana a convivência (cf. Magnifica humanitas, 18-19).
[...] Este discernimento começa por uma afirmação primeira: toda a sociedade autenticamente justa edifica-se sobre o reconhecimento da dignidade inviolável da pessoa humana. Tal dignidade precede qualquer concessão do Estado e não pode ficar subordinada a consensos sociais mutáveis ou à oscilação das maiorias de cada momento (cf. Bento XVI, Discurso ao Parlamento Federal alemão, 22 de setembro de 2011). Pertence a todo o ser humano pelo simples facto de existir, e por isso deve orientar todo o ordenamento jurídico positivo. A fé cristã proclama-a a partir da Revelação; a razão humana pode reconhecê-la como exigência inscrita na verdade do homem (cf. ibid.). Quando esta convicção permanece viva, o direito converte-se em amparo de todos e em garantia diante da imposição de interesses e agendas particulares.
Sobre este fundamento, compete-me pronunciar hoje uma palavra serena e firme perante quem tem a grave responsabilidade de ordenar juridicamente a convivência social. Esta convivência pode ver-se ameaçada pela cultura do descarte, como tantas vezes advertiu o Papa Francisco (cf. Discurso à Assembleia Plenária da Pontifícia Academia para a Vida, 27 de setembro de 2021). Neste sentido, se a vida deixar de ser reconhecida como um valor fundamental, que futuro podem ter as nossas sociedades? Pode chamar-se plenamente justa uma comunidade que deixa na sombra a criança ainda não nascida, o idoso, o doente, quem sofre em silêncio ou quem depende inteiramente do cuidado dos outros? A defesa da vida humana não é uma questão parcial nem um interesse confessional: é uma meta de civilização[...]
O mundo atravessa uma profunda crise espiritual e cultural, que se manifesta em múltiplas formas de violência, polarização e desconfiança recíproca. Neste contexto, a paz apresenta-se como uma aspiração política e, mais ainda, como uma verdadeira exigência moral. Reclama uma palavra pública que respeite quem pensa de modo diferente, instituições postas ao serviço do encontro, uma memória histórica que busque a verdade e a reconciliação e uma vida social capaz de sustentar a amizade cívica e o respeito mútuo em meio à discrepância.
No plano internacional, a paz exige valentia diplomática, responsabilidade ética e uma visão de futuro fundada no respeito pela identidade de cada povo e na obrigação dos Estados de resolverem as suas controvérsias pelos caminhos pacíficos que o direito internacional oferece[...]
A comunidade internacional está chamada a redescobrir o valor indispensável do diálogo como caminho paciente para acordos justos e duradouros, fundados no respeito pelos tratados, na transparência da ação diplomática e na vontade sincera de antepor a paz ao recurso à força. Daí nascem a confiança e a esperança.
Como recorda o lema da União Europeia, In varietate concordia, a verdadeira unidade não uniformiza, mas gera coesão na diversidade, fazendo das culturas, sensibilidades e tradições uma ocasião de enriquecimento mútuo.
Do mesmo modo, dentro das próprias sociedades é urgente construir uma cultura da reciprocidade...
[...]Mas a paz não é somente uma realidade política ou institucional. Nasce também na consciência, ... Por isso, instaura-se e protege-se também através da linguagem. As palavras podem abrir caminhos ou fechá-los; podem iluminar a realidade ou deformá-la até tornar impossível o encontro [...]
Uma lei não alcança a sua verdadeira grandeza pelo mero facto de ter sido formalmente aprovada; alcança-a quando, além de ser válida na sua forma, pode comparecer perante a dignidade da pessoa e sair desse exame sem se envergonhar...
VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA LEÃO XIV A ESPANHA (6-12 DE JUNHO DE 2026) ENCONTRO COM OS MEMBROS DO PARLAMENTO ESPANHOL DISCURSO DO SANTO PADRE Congresso dos Deputados (Madrid) Segunda-feira, 8 de junho de 2026 [ Multimídia ] _______________________________