22/10/2023
Moacyr Scliar era, por si só, um grande personagem. Bem-humorado, gentil, inteligente e cheio de histórias para contar, marcou o público, familiares e muitos conhecidos com seu jeito de ser. Pois foi justamente tendo Scliar como o personagem de uma história que o jornalista e escritor Carlos André Moreira cobriu tanto a eleição quanto o dia em que Moacyr finalmente tomaria posse na Academia Brasileira de Letras.
Isso aconteceu há exatos 20 anos, em um 22 de outubro incomumente chuvoso no Rio de Janeiro, onde Scliar, mais uma vez, provou ser aquilo que brincava ser: “um cara tão sem frescura que não tem a frescura de não ter frescuras”! Boa leitura!
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OS PRIMEIROS DIAS DE UM IMORTAL
Por Carlos André Moreira, jornalista, tradutor e escritor
Quando Moacyr Scliar anunciou que pretendia se candidatar à Academia Brasileira de Letras, na vaga do mineiro Geraldo França de Lima, que havia morrido em março de 2003, foi-se criando aos poucos uma campanha espontânea em torno de seu nome. Na contramão do desejo do próprio Scliar, que não pretendia levantar esse tipo de polêmica durante sua candidatura, muitos consideravam que sua eleição seria uma forma de a academia finalmente se “redimir” pelas famosas esnobadas a Mario Quintana no passado, por exemplo, um “causo” que já havia virado lenda e ponto de honra para os gaúchos ao mencionarem a “casa de Machado”. Havia uma certa mágoa de que a ABL “tinha ranço” com os gaúchos, algo que ignorava o fato de que Carlos Nejar, por exemplo, já era membro da ABL desde 1988.
Para acompanhar essa onda de apoio espontâneo, o jornal em que eu trabalhava me designou, como o especialista em literatura da equipe, para ser o “setorista da eleição de Scliar”. Ao longo daqueles meses de campanha, eu não apenas entrevistei Scliar mais de uma vez sobre a candidatura, mas também realizei algumas entrevistas com seus concorrentes (alguns deles figuras folclóricas que já somavam quatro dezenas de candidaturas àquela época). Visitei a ABL para uma reportagem extensa sobre como a instituição funcionava e o que acontecia no famoso “chá das cinco” dos acadêmicos. Uma cobertura que culminou com a minha viagem ao Rio, acompanhado da fotógrafa Adriana Franciosi, para observar o escritor ao longo de todo o dia de espera pelo resultado da eleição. Scliar topou porque já nos conhecia há muitos anos – ao contrário de muitos colunistas de jornal que enviavam seus textos por fax ou por e-mail e não pisavam nunca na redação, Scliar era um visitante frequente, sempre pronto a trocar uma ideia com seus editores e a conversar com os repórteres dos cadernos para os quais escrevia. Sabia que estaríamos por perto o tempo todo, mas que tentaríamos não ser inconvenientes.
Encontramos Scliar no Rio no meio da manhã de 30 de julho, uma quinta-feira. Nós, os jornalistas, havíamos recém descido do avião e estávamos um tanto desgastados pela jornada. Scliar, ao contrário, animado e enérgico, contou que havia começado o dia cedo.
Acordou às 6h45min e saiu para uma caminhada pelo Aterro do Flamengo – ele havia combinado de fazer o passeio com seu amigo Antônio Torres, mas um desencontro fez com que ele fosse andar sozinho. O hotel que Scliar ocupava era um estabelecimento modesto, o quarto era confortável, mas sem ostentação. Scliar comentaria conosco que se hospedava sempre naquele mesmo hotel há anos em qualquer visita ao Rio. Dois meses depois, em 22 de outubro, em uma quarta-feira incomumente chuvosa, Scliar seria hospedado no tradicional Hotel Glória para aguardar a cerimônia de posse.
Scliar havia chegado ao Rio na note anterior à eleição, e aguardava ainda a chegada de sua mulher, Judith, e de seu filho, Beto, que só embarcariam de Porto Alegre para o Rio no início da tarde de 30 de julho. O escritor foi convidado pelo então presidente da instituição, o africanista Alberto da Costa e Silva, para esperar o resultado na casa deste, a partir de 15h30min, e assim Scliar preferiu ficar aquelas últimas horas antes do anúncio no hotel mesmo, já que estava também à espera da família.
Vestindo uma calça-social azul clara e uma camisa azul, cor com a qual podia ser visto em praticamente todas as suas fotos desde pelos menos os anos 1990, Scliar compartilhou comigo algumas impressões sobre os acadêmicos com quem havia travado contato ao longo da sua campanha para a cadeira 31. Como muitos que tiveram uma visão de mundo mais à esquerda na juventude, Scliar contava, também ele a certo ponto achava a ABL uma instituição de p***a desnecessária. Já havia mudado de ideia quando se candidatou, e se dizia surpreso pelo que ficou sabendo do trabalho da Academia desde então.
“Eles têm um acervo muito rico das letras brasileiras, têm um centro de documentação e pesquisa muito impressionante. E os integrantes são realmente grandes intelectuais. Fiquei surpreso com a atenção ao detalhe com que leram meus livros”, disse Scliar. Segundo ele, tanto Ivan Junqueira quanto seu amigo Arnaldo Niskier haviam lido seu ensaio sobre a melancolia “Saturno nos Trópicos” e escrito em retorno correspondências em que faziam apontamentos muito pertinentes ao material.
Para não se distanciar muito do hotel, Scliar foi almoçar conosco em uma das tradicionais “bancas de suco” do Rio, na Rua do Catete, a três quarteirões do hotel – comeu um sanduíche de filé com tomate e queijo e tomou um suco de laranja enquanto comentava o quanto era significativo que ele, um descendente de imigrantes judaicos do Bom Fim, estivesse agora pleiteando uma vaga junto a uma instituição que abrigava ainda hoje membros de várias linhagens da elite intelectual do Brasil desde o século XIX.
“Quando penso nisso, ainda parece uma espécie de delírio”, comentou Scliar.
Scliar voltou para o hotel. Passou a tarde recebendo telefonemas de encorajamento e apoio – na época, contei 20. Até que Beto e Judith chegaram e todos foram em caravana até a casa de Alberto da Costa e Silva, na Rua das Laranjeiras, no tradicional bairro de mesmo nome. Não era a primeira vez que o presidente emprestava sua casa para um possível futuro colega esperar o resultado de uma eleição que já se adivinhava ganha. Mas a popularidade do nome de Scliar fez com que a imprensa em peso aportasse no imóvel, para alarde da anfitriã Vera da Costa e Silva, que via cabos, tripés, geradores serem estendidos sobre os elegantes tapetes da residência, e que acompanhava com certo horror a movimentação descuidada de cinegrafistas e repórteres entre alguns artefatos de origem africana delicados e inestimáveis.
Eram 16h25min quando Scliar recebeu a ligação vinda do Petit Trianon, a uns 3,5 quilômetros dali, confirmando seu nome na lista dos imortais. Do outro lado da linha, seu amigo Arnaldo Niskier informou que ele havia sido eleito em uma das votações mais rápidas da história da casa, com 35 votos entre 36 possíveis. Um acadêmico havia votado em branco – Niskier mais tarde aventaria a hipótese de que o “não voto” fosse alguma espécie de brincadeira.
A primeira saudação recebida por Scliar foi um beijo da mulher, Judith, assim que o resultado foi divulgado. Ao perceber que três fotógrafos e duas câmeras de vídeo registravam a cena, ela parou, ruborizada.
“Assim não vale. Esse beijo era particular”, protestou, bem-humorada.
Menos de meia hora depois, os primeiros acadêmicos já estavam na casa para abraçar Scliar. O primeiro a chegar foi Tarcísio Padilha, antes mesmo do anfitrião. Logo depois, Arnaldo Niskier, o homem que havia informado a Scliar da vitória, por telefone, chegou, brincando:
“Dizem que o senhor é escritor, é verdade?”
“Sou amigo do Arnaldo Niskier, ele é que inventa isso”, respondeu Scliar.
Enquanto recebia o aperto de mão do também acadêmico Melo Filho, Scliar viu por cima dos ombros dele a figura silenciosa de Carlos Heitor Cony tentando se aproximar.
“E o senhor? É alguém famoso?”, perguntou Scliar enquanto abraçava o amigo Cony.
Cony nem teve muito tempo para cumprimentar o novo colega e foi logo puxado para participar de uma foto.
Nélida Piñon, a mais efusiva das novas colegas de Scliar, quase sufocou-o em um abraço enquanto falava de o quanto a eleição do escritor era um ganho para a Academia.
Em um sinal de que a campanha em torno do nome de Scliar havia chegado à ABL, Costa e Silva chegou com um papel em que se via a lista de gaúchos que já haviam feito parte da ABL. Mostrando que ele também estava ciente da “lenda” em torno de um certo desdém da academia com os gaúchos, declarou: “Doze! Com Scliar foram doze gaúchos na Academia. Podemos parar com essa história de que a ABL rejeita os gaúchos, não?”
A lista que o presidente da casa apresentava, contudo, incluía entre os “integrantes” três nomes que nunca foram de fato eleitos membros da ABL, os patronos Joaquim Caetano da Silva, Pardal Mallet e Araújo Porto Alegre. Ainda assim, mostrava que a incorporação do nome de Scliar como uma “candidatura do Estado” havia sido levada a sério pela diretoria da ABL.
A posse
Seria essa a tônica do discurso que Scliar faria durante sua posse, em outubro, quando novamente eu e a fotógrafa Adriana Franciosi fomos ao Rio acompanhar a função: a honra de que seu nome havia sido abraçado de modo espontâneo como o de um “representante do Estado” na ABL.
Como ocorreu no dia da eleição, algo que chamava a atenção no dia da posse era a imensa cobertura de imprensa que havia sido planejada para o novo acadêmico (de modo geral, a imprensa se dedica a cobrir posses na ABL apenas quando o candidato é uma personalidade conhecida, como aconteceu com João Ubaldo Ribeiro ou com o popstar Paulo Coelho). Parte do ritual de posse exige que o novo eleito seja trancafiado por algum tempo para ficar sozinho com suas próprias reflexões antes de ser chamado pelos novos colegas para receber a saudação de boas-vindas. Mas os pedidos de entrevistas eram tantos a cada passo, e Scliar os aceitava de bom grado, que Alberto da Costa e Silva, o presidente da Casa, andava de um lado para outro intervindo de um modo enérgico e puxando o novo integrante para garantir a obediência ao rito.
Às 20h20min, finalmente Costa e Silva conseguiu trancar o novo acadêmico no Salão Francês. Trancou mesmo, com chave pelo lado de fora. Por uns 10 minutos, Scliar, já com o fardão verde e dourado de gabardine e com o chapéu emplumado debaixo do braço, até se entregou de fato aos próprios pensamentos.
Caminhava pelo salão, sentava-se, olhava pela janela. Mas logo repórteres insistiam com a assessoria de imprensa e conseguiam alguns minutos com o escritor para fazer duas ou três perguntas, logo interrompidas pelo azafamado Costa e Silva, que lembrava de que havia um ritual a cumprir.
Exatamente às 21h, o presidente da ABL ocupou seu lugar na mesa do Salão Nobre, chamou para acompanhá-lo Carlos Nejar, encarregado de receber o novo confrade, e o governador do Estado do novo membro, na época, Germano Rigotto. Depois, designou três acadêmicos para destrancar Scliar do Salão Francês (Ana Maria Machado, Lêdo Ivo e João Ubaldo Ribeiro) e trazê-lo para ouvir o discurso de recepção do conterrâneo Carlos Nejar.
Mais cedo, enquanto experimentava o fardão que havia sido entregue pelo alfaiate no quarto 509 do hotel Glória, às 15h, Scliar se olhou demoradamente no espelho e, com os gestos de mão que lhe eram característicos, reconheceu, surpreso, que a peça era mais confortável do que ele pensava, embora indicasse uma p***a que seu espírito mais informal olhava com perplexidade, como se estivesse encenando uma peça, e não algo vinculado ao mundo real. Ao mesmo tempo, esse era o ritual – e ele estava disposto a cumprir.
“É com certeza um ritual estranho, mas sou um cara tão sem frescura que não tenho a frescura de não ter frescuras. Se me dizem que para entrar na ABL precisa usar o fardão, e eu quero entrar, como eu realmente quero agora, eu uso, sem problemas”
Sendo muitos os acadêmicos, são muitas também as relações dos confrades com a casa. Há os que têm vida ativa na instituição. Há os que se elegeram e nunca mais pisaram na casa (na época, os próprios acadêmicos diziam que era o caso de Paulo Coelho). Há os que mantêm uma vigorosa contribuição por correspondência.
Scliar, um autor gregário e com um grande número de amigos, ao longo de sua trajetória como acadêmico foi um interlocutor frequente e participativo dos projetos da instituição. E já na posse dava mostras de que seria um acadêmico atuante. Já havia conversado com outros colegas para lançar o embrião de algo que ele poria em prática nos anos seguintes: leva acadêmicos a Passo Fundo para realizar uma série de palestras paralelas à programação da Jornada Nacional de Literatura – algo que ele de fato realizou.”