20/03/2026
O Leão ruge
Minha especialidade não é geopolítica. Como arquiteto, costumo dizer que sou um especialista em generalidades. Para tanto, procuro me cercar de especialistas e de literatura. A geopolítica tem uma arquitetura atraente. Gosto de analisar um conceito à partir de seus fundamentos. Também, como arquiteto, aprendi a não ser crítico de obra pronta, mas atento a toda a estrutura que a compõe, além do que possa ser ou não agradável aos olhos. Dentro das escolas de arquitetura, a que tenho mais afinidade é a do funcionalismo, onde a função define a forma.
Dito isto, me atrevo na análise dos estados americanos unidos do norte. Confesso minha simpatia e afinidade em relação aos valores sobre os quais a sociedade americana foi constituída. A ex-colônia britânica, de maioria cristãos puritanos, cuja constituição foi escrita por liberais clássicos, tementes à Deus, ainda não contaminados pelo racionalismo puro ou as ideologias coletivistas, contém uma beleza formal e fundamentos morais tão verdadeiros que me encantam. Não preciso estar alinhado com as ações do deep state ou com as interferências do establishment para prestar esse devido reconhecimento. Também é indiscutível o lugar que, ao longo dos séculos, os EUA ocupou no tabuleiro global, além de exercer forte influência sobre todo o ocidente.
Israel , não deixa de ser um apêndice do ideal de democracia americana, uma vez que os judeus, sionistas ou não, foram acolhidos pelos EUA durante o êxodo provocado pelo nazismo. Não à toa que o estado de Israel e o reconhecimento da causa sionista pela ONU se deu nas Américas no pós guerra, consequência direta da perseguição e do holocausto. O estado de Israel foi assim institucionalizado em assembléia da ONU em Nova York, presidida pelo grande brasileiro Oswaldo Ar**ha.
A Pérsia cultural, atual Irã, tem origens imperiais e expansionistas. No passado, pelo domínio territorial, hoje pelo projeto do califado universal. Um conceito baseado na escatologia islâmica , muito similar a cristã. Diferente dos estados seculares, o Irã é uma teocracia onde o estado está submetido à religião e às interpretações dadas por seus líderes. É como se o papa, por motu próprio, definisse o que é aplicável, vigente ou não, na legislação criada e aprovada pelos parlamentos do ocidente, assim como estabelecer as punições a quem não cumprir suas determinações conforme sua interpretação da Bíblia. Desde a revolução islâmica, provocada pelo processo de ocidentalização que o país vinha sofrendo pelas mãos da monarquia Parlev com a repressão aos tradicionalistas, o projeto de estado passou a se fundir com o ideal islâmico, onde a influência ocidental na região é uma ameaça constante. Não se trata apenas de uma identidade cultural, mas principalmente um projeto de redenção. Este conflito inconciliável legitima a jihad, promovida pelo regime, e que tem enorme influência em grupos revolucionários (ou restauradores?) na região.
Essa introdução, feita desta forma, tem como intuito criar o ambiente cognitivo necessário à compreensão dos pontos principais que estão na origem do conflito.
Para a guerra no oriente médio acabar , é necessário que se decrete o fim do estado de Israel. Não estou falando da bem denominada, pelo grande analista de guerra e geopolítica Marco Coutinho, terceira guerra do Golfo e sim da guerra assimétrica que se instalou na região após a vitória de Israel na guerra do Yom Kippur.
Com os ataques de 7 de outubro de 2023, Israel passou a ter o entendimento que não bastaria ter sistemas de defesa e fronteiras resguardadas enquanto seus inimigos continuassem aumentando sua influência e poder bélico na região. Na minha visão, o atual ataque israelense ao Irã parte do princípio que se trata de uma situação considerada perene, onde os embates irão variar ao longo do tempo, em nível de intensidade e local. Para chegar a essa conclusão basta olhar o objetivo central da operação “Rugido do leão” (atenção: Não foi uma declaração formal de guerra, essa fase já é superada). Trazido ao conhecimento do público geral, no vigésimo dia da operação, pelo porta-voz do exército de Israel para países de língua portuguesa, Rafael Rozenszajn. O objetivo central da operação é “desmantelar uma ameaça existencial à Israel vinda do Irã, ameaça essa que se baseia em três pilares distintos: Os mísseis balísticos , o programa nuclear e o financiamento de grupos terroristas. Vejam bem, em nenhum momento da declaração afirma que o objetivo seria a rendição do Irã ou a mudança do regime. Devemos partir do princípio básico de qualquer vitória é atingir o objetivo declarado.
Já o do Irã, para justificar até então uma guerra assimétrica, é o fim do estado Judeu, razão da postura adotada e da compreenão de Israel em relação ao conflito.
E os EUA? Como o “grande satã” embarcou nessa? Os EUA não trabalham pela emoção e sim em uma lógica de dominação econômica, isto desde Bretton Woods. Quando Nixon abandonou o padrão ouro estabelecido , criando a figura do petrodólar, os EUA passaram a usar como lastro de sua moeda o controle sobre o comércio global de petróleo. Isso não se deu pelo domínio territorial, mas garantindo que o fluxo da commotidies tenha o dólar como padrão e moeda única para as transações. Isso garantiu aos EUA a hegemonia nos mercados e um enriquecimento sem precedentes.
Para compreender este movimento dos EUA é preciso olhar para a China. O governo de Pequim também tem seu caráter expansionista e de dominação, só que silencioso. O PCC não tem uma oposição interna nem transparência governamental, características das democracias, que seja capaz de chamar atenção externa sobre sua política e, desde os eventos ocorridos na Praça da Paz Celestial, não creio que um dia haverá.
Com a guerra Russo Ucraniana e o congelamento dos ativos da Rússia seguido dos embargos econômicos, principalmente relacionados ao petróleo e gás, a China que já vinha desenvolvendo sua plataforma alternativa ao sistema swift, acelerou o processo, ao mesmo tempo que passou a comprar ouro a fim de lastrear sua moeda ao metal. É fato que hoje a China controla seu câmbio artificialmente, porém no seu plano de domínio global (hoje com discurso multilateral pelas circunstâncias) em algum momento se fará necessário dar estabilidade de câmbio com lastro estável e universal.
O bloco dos BRICS é a ponte de possibilidade para dar uma alternativa aos “petrodólares” através de um sistema de pagamentos em moedas nacionais descentralizadas. A tecnologia hoje permite transações em “multi moedas” com grande facilidade. A estratégia silenciosa da China foi começar a se desfazer de títulos da dívida pública americana, usando os dólares convertidos para financiar infraestruturas de seu interesse no sul global. A grande maioria dos investimentos se deu através de contratos de concessão e empréstimos à países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, nas áreas de infraestrutura, logística e transportes. Ao mesmo tempo que negociava a compra de petróleo diretamente com dois países, utilizando não apenas dólares mas também seu novo sistema de pagamentos fora do controle dos Estados Unidos. Obviamente que a estratégia do silêncio não iria durar para sempre e os EUA sabem o que de fato ameaça a sua existência como potência hegemônica. Agora, quais eram os dois países sancionados, não alinhados, que estavam negociando petróleo diretamente com a China? Quem pensou Venezuela e Irã merece assistir um episódio do +QIRealpolitik.
Em relação a Venezuela , Washington passou a controlar o fluxo de petróleo, sem interromper as vendas para China , mas garantindo que as transações fossem feitas em dólar. Para isso fizeram uma operação espetacularmente bem sucedida em termos militares e até agora também no campo diplomático.
E o Irã?
Retomar o controle do fluxo de pagamentos do petróleo no Irã não estava no horizonte tangível, porém, diferente da Venezuela, o Irã é responsável pelo consumo de 40% do petróleo importado pelo governo, 90% da importação marítima da China. Um número de impacto e alto custo para a economia americana. A via diplomática para essa questão já havia se esgotado. O alinhamento com a Rússia e a forte influência regional do Irã tornavam a tarefa praticamente inviável. O cenário mudou, tanto para Israel quanto para os EUA, desde o prolongamento da guerra russo ucraniana. A Rússia não tem meios disponíveis no momento para se envolver em outro conflito. Israel, que já vinha intensificando suas operações antiterror, com vitórias significativas contra o Hamas e o Hezbollah e ainda contando com um serviço de inteligência muito bem estabelecido dentro do território inimigo, viu abrir a janela de oportunidades.
Além do objetivo não declarado dos EUA, também colaborou com a decisão de Israel em atacar a mudança do regime na Síria. Momento em que aliados históricos, EUA e Israel , mesmo com objetivos diferentes, entraram juntos nessa campanha. Israel muito fundamentada no seu objetivo e com planejamento de 5 semanas de operação. Neste momento estamos no final da terceira semana. O governo Trump é aquele amigo brutamonte que gosta de ir a festa para arrumar confusão. Quando chamado para as vias de fato é convite irrecusável. Está sempre pronto a comprar uma briga, principalmente com o tamanho do prêmio. Só não sabe muito bem como vai fazer isso, mas tem disposição. Seu maior inimigo é a democracia, a liberdade de opinião de seu público interno e de seus aliados no ocidente. Um problema que o Irã não tem.
Caso a coalizão conquiste seus objetivos. Israel terá um período menos intenso entre guerras. Já o governo Trump, caso bem sucedidos, terá a vitória absoluta, não só sobre o Irã, mas na garantia de mais um longo período de hegemonia econômica e unilateralismo.
Para o Brasil, melhor estar do lado dos vencedores, sem desprezar as oportunidades que venham dos perdedores. Onde se chora é onde se vende mais lenços.
Falar hoje em vitória pela rendição do inimigo ou por uma mudança do regime é algo fora de cogitação para os participantes e não havendo, não pode ser considerado como derrota da coalizão. A vitória ou derrota desta operação está condicionada diretamente à conquista dos objetivos, declarados e não declarados, mas que não parecem tão evidentes dentro do teatro de operações.
RSerra
20/03/26