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Apenas sobre esperança, por Manuela Modesto DantasSempre achei que tudo ia dar certo…Nasci em uma família típica do inte...
22/02/2026

Apenas sobre esperança, por Manuela Modesto Dantas
Sempre achei que tudo ia dar certo…
Nasci em uma família típica do interior do Nordeste, meu pai provia a casa, minha mãe proporcionava amor e carinho, meus irmãos eram companheiros de brincadeiras, sonhos e brigas.
Estudávamos em colégios de formação religiosa e fomos educados para sermos determinados, estudiosos e os melhores de turma, porque era isso que nos garantiria o melhor futuro.
E dessa forma, tudo deu certo por um bom tempo…
Nasci em Recife e com 1 ano fomos morar no Maranhão, já que meu pai tinha a vida errante de Engenheiro Civil, mais tarde fomos morar em Picos no Piauí.
Quando vim de Picos para morar novamente em Recife, aos 13 anos, fui aprovada em primeiro lugar no teste do colégio Equipe, posteriormente quando fui estudar no colégio Marista São Luís também fui aprovada em primeiro lugar no teste, depois fui aprovada em segundo lugar no vestibular de Engenharia da UFPE e fui a aluna condecorada com a Láurea Universitária do Curso de Engenharia, prêmio esse destinado a pessoa que teve a maior média em provas nas disciplinas do curso universitário e findei o curso com média 9,05.
Ocorre que depois fui fazer mestrado na melhor universidade do Brasil e uma das melhores universidades do mundo, a USP (Universidade de São Paulo), mais além passei na dificílima seleção para a Construtora Norberto Odebrecht, na ocasião uma das 5 maiores construtoras do mundo, e assim tudo continuou dando certo…
O que eu não acreditava era que coisas ruins poderiam acontecer bem próximas a mim e que tragédias acontecem…
E calhou de acontecer comigo…
E foi assim que no fatídico dia 07/04/10 sofri o grave acidente de trabalho em que o carro que me levava para a obra caiu em um barranco, esse acidente me proporcionou uma lesão medular torácica, a qual me deixou paraplégica.
Apenas para explicar melhor, a lesão medular ocorre quando a medula espinhal é danificada como resultado de um trauma, como aconteceu comigo, ou por uma doença ou por um defeito congênito e assim haverá alterações na sensibilidade, na função motora e no funcionamento normal dos órgãos abaixo do nível lesão.
Eu pensava e repensava e não conseguia acreditar que aquilo estivesse acontecendo comigo, afinal tudo sempre dava certo.
Decidi, então, que encararia aquele sofrimento como mais uma das inúmeras adversidades que passei na minha vida, a qual precisava me dedicar com determinação para conseguir o melhor resultado.
Cheguei a fazer de 7 a 8 horas de terapias diferentes por dia e chegava à exaustão física e mental para conseguir alguma resposta do meu corpo.
O que eu não esperava era que no caso de lesão medular o resultado não fosse proporcional ao esforço, ou seja, por mais que eu me esforçasse nas fisioterapias às conquistas motoras eram mínimas e aquela situação era bem frustrante, já que fugia ao meu entendimento lógico.
Confesso até que minha cabeça racional por muitas vezes me abandonou e quase desesperei…
Mas, felizmente, não desisti, com o tempo, com muita determinação e esforço voltei a ficar em pé e caminhar com o apoio de uma órtese, depois comecei a utilizar um novo método de fisioterapia chamado Project Walk e hoje utilizo bicicleta de modo ativo em minhas fisioterapias e faço esteira com apoio parcial do meu peso no Centro de Reabilitação do IMIP.
O fato é que nunca escondi que meu objetivo com a reabilitação ia além de conseguir o maior grau possível de independência, mas também precisava conseguir ganhos no meu quadro clínico e sonho em voltar a andar sem apoio de qualquer aparelho utilizado para esse fim.
Com a lesão medular perdi o movimento um pouco abaixo dos braços e hoje meus fisioterapeutas reconhecem movimentos ativos até o nível dos quadris.
O que antes era algo trivial, agora é uma grande esperança.
Dentro dessa perspectiva em 2025 li sobre a pesquisa da Doutora Tatiana Sampaio na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Uma pesquisa inovadora iniciada há 28 anos e financiada por recursos públicos.
A novidade nesse tratamento é a utilização polilaminina, proteína produzida naturalmente pelo nosso corpo. A polilaminina é feita à base de uma proteína isolada de placentas chamada laminina.
Entre suas funções, está a regeneração dos axônios, estruturas dos neurônios que são danificadas quando ocorre uma lesão na medula espinhal, afetando a comunicação entre o cérebro e os órgãos abaixo do nível da lesão medular.
A polilaminina proporciona a regeneração dos axônios que conseguiram formar uma ponte entre as partes não lesionadas da medula espinhal e proporciona que um lado se conecte com o outro lado da lesão medular e assim recuperar a transmissão do impulso nervoso pela medula.
Nos te**es preliminares, a polilaminina foi avaliada com cães e um grupo de 8 voluntários humanos, tratados entre 2018 e 2021 na fase aguda, até 72 horas após a lesão.
A aplicação da polilaminina foi realizada diretamente na medula espinhal durante a cirurgia.
Os resultados da aplicação da polilaminina foram variados, com alguns pacientes tendo uma recuperação completa dos movimentos, e outros uma melhora parcial.
Isto posto uma substância estudada há quase três décadas no Brasil surge como uma nova esperança para vítimas de lesões na medula. Bj
No início deste ano, o medicamento foi autorizado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) a iniciar a fase 1 de estudos clínicos.
Essa é a primeira etapa necessária para avaliar com rigor uma substância antes que ela possa ser comercializada no país.
A utilização da polilaminina para tratamento de lesõo medular em humanos será preciso passar por outras duas fases para avaliar a segurança e a eficácia do medicamento.
Agora, no estudo clínico que está em andamento, liberado pela Anvisa, será utilizada uma formulação de laminina injetável que deve ser diluída antes do uso para se obter a polilaminina. Esse processo, chamado de polimerização, liga moléculas menores em uma estrutura maior, aumentando a sua potência. O medicamento será administrado uma única vez de forma intramedular, diretamente na área lesionada.
Esse trabalho renova a esperança de que finalmente os pesquisadores estejam chegando à resposta a um problema que há milênios assola os seres humanos.
Assim, uma pessoa que a principio estaria destinada a ficar a sua vida sem movimentos e sensibilidade após uma lesão medular teria a esperança de conseguir voltar a correr, dançar, pular, sentir dor, cócegas, calor, frio …
Enfim, como diria Carlos Drummond de Andrade “A vida se renova na esperança de um dia novo.” E eis que surge um novo dia…

Endereço

Recife, PE

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