19/02/2026
Na rodoviária do centro, se você perguntar por ele, ninguém vai dizer “aquele cachorro”.
Vão dizer:
— “Ah… o Passageiro.”
Foi assim que ficou conhecido.
Ele apareceu no fim do ano passado, sem anúncio, sem dono, sem coleira. Apenas surgiu. Caminhou pela plataforma como quem já conhecia o caminho, parou diante do banco número 6… e ali se instalou.
No primeiro dia, acharam que fosse só mais um cão procurando sombra e resto de comida. Um segurança tentou espantá-lo com palmas e assobios. Ele se afastou alguns metros, observou de longe… e, assim que o movimento diminuiu, retornou exatamente para o mesmo banco.
No dia seguinte, alguém jogou água perto dele para que fosse embora. Ele saiu, sacudiu o corpo molhado e esperou. Minutos depois, voltou. Banco 6.
Não era teimosia.
Era direção.
Com o passar das semanas, a cena passou a se repetir com precisão quase dolorosa.
Ele permanece deitado a maior parte do dia, imóvel, olhar fixo na entrada das plataformas. Mas basta um ônibus encostar, com o ar comprimido suspirando alto, que ele se levanta num salto silencioso.
Corre até a porta.
E então começa o ritual.
F**a atento a cada pessoa que desce. Observa pés, rostos, malas. Examina um por um, como quem revisa uma lista invisível. Não abana o rabo. Não pede carinho. Não implora atenção.
Procura.
Quando o último passageiro pisa na calçada e o motorista fecha a porta, ele permanece ali por alguns segundos, como se ainda houvesse esperança de alguém surgir atrasado.
Depois volta.
Cabeça baixa.
Passos lentos.
Banco 6.
Foi um vendedor de café que contou a história que circula ali entre os funcionários. Dizem que o cachorro chegou acompanhado de um senhor. O homem teria embarcado em um ônibus naquela mesma plataforma.
E não voltou.
Ninguém sabe o motivo.
Talvez tenha ido tentar a vida em outra cidade.
Talvez tenha adoecido.
Talvez simplesmente não tenha conseguido regressar.
O fato é que o homem partiu.
E o cachorro ficou.
Cinco meses já se passaram.
A rodoviária inteira aprendeu a conviver com aquela espera silenciosa. Um motorista deixa metade do sanduíche no intervalo. A moça da lanchonete enche um pote com água fresca no fim da tarde. A funcionária da limp