19/10/2025
POUSO ALEGRE EM MEMÓRIAS
Para homenagear Pouso Alegre, que completa 177 anos hoje, 19/10/2025, recorrerei a um legado literário, encontrado no acervo da nossa Academia Pouso-Alegrense de Letras. Trata-se de uma carta do acadêmico, Licínio Rios Neto (1952-2002), que ocupou a cadeira número 1, cujo patrono é Jayme Marques de Oliveira.
Licínio fora convidado, em 1990, por Ciomara F. Cascelli, e Jahel Torres Brandão, para participar de um projeto cultural da cidade, intitulado “Poetas Cantam Pouso Alegre”. O acadêmico morava no Rio de Janeiro, na ocasião, e enviou a elas um rico relato de suas memórias da infância e adolescência em nossa cidade.
Eis alguns trechos do relato das memórias de Licínio, com as quais eu e muitos pouso-alegrenses irão, certamente, se identificar:
“Minas melhores recordações são de quando PA era uma cidade pequena, até mais ou menos o fim da década de 60. As ligações mais fortes que tenho são com os lugares, cheiros e personagens da cidade. Na minha cabeça de menino do interior, as Taipas eram incrivelmente longe; a Faisqueira, então, uma aventura de outro continente; e São Paulo uma viagem interplanetária em que a gente, se não me engano, tomava o trem até Campinas e de lá havia uma baldeação que dava a Ouro Fino, Borda da Mata e depois PA. Os trens, aliás, significaram o desejo que eu tinha de sair, ver coisas novas, novos horizontes, o que acabou acontecendo. Adoro os prédios das estações de Pouso Alegre e Santa Rita do Sapucaí, onde mamãe nasceu. Me impressionava muito o porte gigantesco da maria fumaça da RMV, que silvava estridente; as rodas de aço imensas, mais altas que eu, que engoliam léguas, levando e trazendo gente, novidades, sonhos de mudança.
Também mexi muito com o Rabo Verde, tão folclórico e tão querido ao mesmo tempo, que naquela época ia para o manicômio de Barbacena, mas voltava. Só mais tarde é que fui compreender que havia ternura e sabedoria naquela alienação. Nunca soube de nenhum menino que o Rabo Verde “pegou” de verdade. Ele corria um pouco e ia sentar outra vez no chão em meio aos trapos e suas latas velhas. Me lembro muito de seu paletó preto, as calças pela canela e os sapatos sem cadarços e resgados. Acho que Pouso Alegre nunca soube homenagear seu único herói bufão, seu jogral, seu apaixonante “alienado”, que alegrou tantas manhãs de domingo depois da missa das nove – a missa das crianças –, onde aprendi a flertar com as meninas, numa mistura de vitória e culpa entre o olhar fugidio delas e a figura do Cristo na cruz. Mas aí o flerte continuava no “footing” preguiçoso da avenida e terminava nalgumas tentativas desastradas de namoro nas mesinhas da sorveteria do Luciano. Os copos altos de vaca-preta (Coca-Cola com sorvete de creme) eram uma espécie de “reserva moral” que impedia a aproximação física, num tempo em que o primeiro beijo costumava ser “roubado” aos 14, 15 anos.
O cheiro do pão francês que saía de madrugadinha era uma delícia. Havia uma padaria que ficava na diagonal do Hotel Dias, embaixo do Pouso Alegre Hotel, onde eu e minha avó dávamos “um pulinho”. Eu morava na Marechal Deodoro, 152, ao lado da antiga Telefônica... O cheiro do pãozinho francês se misturava com o cheiro forte e bom de madeira cortada da serraria do Rigotti...
..Comprei muito “sapato social na sapataria do Dante Cincoetti para ir aos bailes do Clube Literário. E quem não se lembra das três irmãs: Fé, Esperança e Caridade Cincoetti?....
.. A casa velha do Grupo Joaquim Queirós, quando funcionou na rua Afonso Pena, esquina com aquele bequinho que dá no Santuário era uma maravilha. Achava a casa imponente, cheia de salas, dos diferentes anos do primário... Sinto saudades da Dona Maria, que preparava a nossa merenda. Havia mingau de fubá com couve, canjica doce e muita coisa gostosa que a gente comia rápido num prato de metal para aproveitar o recreio...
.. Há também “nomes” muito queridos em PA. Pode haver coisa mais bonita que um banco se chamar “Banco da Lavoura”? E a velha Viação São José, em cujos ônibus andei muito? E a espantosa Casa Dragão, a distante Remonta, o CCPA (sigla do Clube de Campo Pouso Alegre, o Aterrado (simbolizado por aquela velha ponte de onde os mais “machos” pulavam em tempo de cheia do rio Mandu), Fátima e sua igrejinha... o aeroclube do tio Piffer e seus dois teco-tecos, as “famosas” Casas Pernambucanas, os pastéis de farinha de milho do Mercado Municipal, a “pioneira” Discoteca do Socó, a “moderninha” Lanchonete Vila Rica, o velho empório do Dandão, o Campinho do Vasco, os grupos escolares “rivais” (o Monsenhor José Paulino era um deles)... o antigo SAPS... Quanta coisa me dá saudade! Meu coração sempre bate diferente quando o carro faz a curva, no meio do caminho entre a cidade e a Brasilinha (assim era chamado o trevo da Fernão Dias), e eu vejo Pouso Alegre inteira...” (Licínio Rios Neto, Rio de Janeiro, 18/04/90)
(Licínio foi jornalista, tradutor, escritor, roteirista e professor. Durante seis anos, integrou a equipe de produção de Jô Soares Onze e Meia, escolhido pelo próprio Jô após uma entrevista. Casado com a pouso-alegrense Dadá Moretti, teve dois filhos, Lucca e Luíza. Faleceu aos 50 anos, em 2002.)
Apesar de tamanha projeção nacional, Licínio foi fiel a suas memórias, nutrindo um grande amor por Pouso Alegre, como vimos nas lembranças acima, muitas delas também minhas.
Que bela homenagem à nossa cidade ele nos deixou!
PARABÉNS, POUSO ALEGRE PELOS 177 ANOS!!!
(Abaixo, foto de um desenho de uma Pouso Alegre muito antiga, também do acervo de nossa Academia.)