18/08/2026
ASIDRAB DIALOGA
O QUE PODEMOS COMPREENDER COMO COSTUME?
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Nas duas primeiras publicações desta série, abordamos dois conceitos fundamentais: fundamento e tradição. Agora chegamos a um terceiro conceito que também aparece constantemente quando falamos sobre nossas práticas: costume.
Mas, afinal, o que podemos compreender como costume?
CONCEITO DE COSTUME
Costume é uma prática, hábito, adaptação, acréscimo ou forma particular de fazer que uma pessoa, família ou comunidade incorpora ao longo do tempo e passa a reconhecer como parte de sua maneira própria de viver, organizar-se e expressar sua tradição.
O costume pode nascer de diferentes circunstâncias. Pode surgir de uma necessidade prática, de uma condição regional, de uma escolha familiar, de uma circunstância histórica, de uma característica comunitária ou simplesmente de uma determinada maneira de fazer que foi incorporada e passou a ser repetida. Muitas vezes, o costume possui uma explicação para sua origem. Em outras situações, sua origem pode ter se perdido na memória das gerações, permanecendo apenas a prática e a forma como ela foi incorporada pela comunidade.
Isso não diminui necessariamente o seu signif**ado. O costume pode carregar memória, identidade e pertencimento. Pode representar uma característica própria de determinada família tradicional, de uma comunidade ou de uma determinada raiz.
COSTUME NÃO É SINÔNIMO DE ERRO.
Ele faz parte da própria vida das comunidades.
COSTUME, FUNDAMENTO E TRADIÇÃO
Para compreender o costume, precisamos primeiro manter claras as diferenças que já estabelecemos nas publicações anteriores.
O fundamento sustenta. A tradição transmite. O costume incorpora ou modif**a, sem influenciar substancialmente a tradição e o fundamento, e normalmente possui uma explicação para sua origem.
Os três conceitos estão relacionados, mas não são sinônimos. O fundamento está relacionado às bases que sustentam e dão identidade à tradição. A tradição está relacionada àquilo que é recebido, preservado, compreendido e transmitido entre gerações dentro de determinada raiz, família e linhagem. O costume está relacionado às particularidades que uma comunidade incorpora à maneira como vive e pratica aquilo que recebeu.
Por isso, o costume pode existir dentro de uma tradição sem ser, necessariamente, um fundamento daquela tradição.
COMO O COSTUME SE FORMA?
Podemos imaginar uma família que, ao longo de sua trajetória, desenvolve determinada maneira de organizar uma atividade, preparar um alimento, receber seus integrantes, realizar uma celebração ou conduzir determinada prática. Inicialmente, aquela forma pode ter surgido de uma escolha individual ou de uma circunstância específ**a.
Com o tempo, outras pessoas da comunidade passam a fazer da mesma maneira. Os mais velhos ensinam aos mais novos, os mais novos aprendem e posteriormente também passam a reproduzir aquela prática. Aquela forma particular de fazer passa, então, a fazer parte da memória daquela comunidade.
É assim que um costume pode se consolidar. Ele pode ser transmitido pela oralidade, pode ser aprendido pela convivência e pode atravessar gerações sem que, por isso, precise ser confundido com um fundamento ancestral.
O costume, portanto, também possui uma história.
A CASA E O COSTUME
Na publicação anterior, utilizamos a imagem de uma casa para explicar a tradição. Podemos utilizar novamente essa comparação.
Uma casa possui uma estrutura. Ela tem uma base, paredes, cobertura e elementos que fazem com que continue sendo reconhecida como aquela casa. Mas seus moradores podem organizar seus espaços de diferentes maneiras. Podem colocar determinados objetos, desenvolver hábitos, criar formas próprias de utilizar os ambientes ou acrescentar características particulares ao longo do tempo.
Essas escolhas podem permanecer durante gerações e passar a fazer parte da memória daquela família. Isso não signif**a que tenham alterado a estrutura da casa.
O COSTUME PODE MODIFICAR A MANEIRA COMO A CASA É VIVIDA SEM MODIFICAR AQUILO QUE A SUSTENTA.
Nas nossas tradições podemos compreender algo semelhante. Cada família pode desenvolver particularidades próprias sem que isso signifique necessariamente modif**ar os fundamentos que sustentam sua tradição. Uma casa pode ter uma característica que outra não possui. Uma família pode possuir um costume que outra família da mesma raiz não possui. E isso faz parte da pluralidade existente entre nossas comunidades.
UM EXEMPLO: O ORIXÁ BARÁ
Um exemplo pode tornar essa diferença ainda mais fácil de compreender.
Em determinada oferenda ao Orixá Bará, existem elementos tradicionalmente reconhecidos dentro de diferentes raízes, como milho, pipoca, dendê e outros elementos próprios daquela prática. O opeté de batata, por exemplo, pode ocupar lugar central na composição da oferenda, apresentando uma forma cônica relacionada à representação fálica do Orixá e à sua dimensão de fertilidade.
Agora imaginemos que, dentro de determinada família, alguém passe a acrescentar uma pequena representação em forma de chave feita de batata. Essa inclusão pode ter surgido de uma escolha particular, de uma associação simbólica feita por alguém ou simplesmente porque uma pessoa considerou aquela forma adequada e passou a utilizá-la.
Se essa prática for posteriormente repetida pelos integrantes daquela família e transmitida aos mais novos, ela pode se tornar um costume daquela comunidade.
A chave de batata, nesse exemplo, não precisa ser transformada em fundamento para possuir signif**ado dentro daquela família. Ela pode simplesmente representar uma particularidade que aquela comunidade incorporou à sua maneira de realizar determinada prática.
O FUNDAMENTO PERMANECE. A TRADIÇÃO CONTINUA SENDO TRANSMITIDA. O COSTUME ACRESCENTA UMA PARTICULARIDADE SEM ALTERAR SUBSTANCIALMENTE A ESTRUTURA DAQUILO QUE FOI RECEBIDO.
Esse exemplo nos ajuda a compreender que uma pequena adaptação ou acréscimo pode fazer parte da história de uma comunidade sem precisar ser transformado em regra para todas as demais.
COSTUMES E DIFERENTES RAÍZES
Essa compreensão também é importante porque existem diferentes tradições, raízes e famílias dentro dos Povos Tradicionais de Matriz Africana. Cada uma possui sua própria história, seus processos de transmissão e suas formas particulares de organização.
AQUILO QUE É COSTUME EM UMA CASA PODE NÃO SER COSTUME EM OUTRA. AQUILO QUE UMA FAMÍLIA INCORPOROU AO LONGO DE SUA HISTÓRIA NÃO PRECISA SER REPRODUZIDO POR TODAS AS OUTRAS. POR ISSO, UM COSTUME NÃO PODE SER UTILIZADO COMO UMA RÉGUA UNIVERSAL PARA MEDIR AS DEMAIS TRADIÇÕES.
CADA COMUNIDADE POSSUI SUA PRÓPRIA HISTÓRIA, SUAS RELAÇÕES E SUAS FORMAS PARTICULARES DE ORGANIZAR AQUILO QUE RECEBEU.
Reconhecer isso não signif**a considerar uma prática melhor ou pior do que outra. Signif**a compreender que cada costume possui um contexto e ocupa um determinado lugar dentro da comunidade que o incorporou.
COSTUME E MEMÓRIA
O costume também possui uma relação importante com a memória.
Quando uma prática é incorporada por uma comunidade e permanece ao longo das gerações, ela passa a fazer parte da história daquela comunidade. Pode ser lembrada pelos mais velhos, ensinada aos mais novos e reconhecida como uma característica daquela família.
O tempo, nesse caso, possui importância porque permite que o costume se consolide como parte da memória comunitária. Mas sua importância não está simplesmente na quantidade de anos que possui.
Está na relação que estabeleceu com aquela comunidade, na forma como foi incorporado e no signif**ado que adquiriu dentro dela.
Por isso, podemos dizer que o costume também é memória viva da comunidade.
COSTUME E ORALIDADE
Nas nossas tradições, a oralidade possui papel fundamental. Conhecimentos são compartilhados na convivência, na observação, na participação e na relação entre os mais velhos e os mais novos.
O costume também pode percorrer esse mesmo caminho. Uma pessoa aprende determinada maneira de fazer observando quem veio antes. Depois, passa a realizar daquela forma e, posteriormente, ensina aos que chegam depois dela.
Essa transmissão pode acontecer dentro de uma mesma casa, entre diferentes casas pertencentes à mesma família tradicional e entre pessoas de diferentes gerações daquela comunidade.
É uma troca orgânica de conhecimento. Os mais velhos possuem sua experiência e sua vivência. Os mais novos trazem sua disposição para aprender, suas perguntas e sua vontade de compreender.
A tradição permanece viva justamente porque existe uma comunidade participando desse processo. O costume também pode ser preservado dessa maneira, tornando-se parte da memória daquela família.
COSTUME E ORIGEM
Em muitas situações, sabemos exatamente como determinado costume surgiu. Pode ter sido criado por uma pessoa mais velha, incorporado por uma determinada família, desenvolvido diante de uma circunstância específ**a ou adotado depois de uma experiência comunitária.
Em outras situações, sabemos apenas que determinada prática já era realizada por nossos mais velhos.
Quando isso acontece, é importante preservar aquilo que sabemos e, ao mesmo tempo, reconhecer aquilo que não sabemos.
NÃO PRECISAMOS TRANSFORMAR UMA PRÁTICA EM FUNDAMENTO APENAS PORQUE DESCONHECEMOS SUA ORIGEM.
Da mesma forma, não precisamos desvalorizar um costume simplesmente porque ele não possui a mesma natureza de um fundamento.
CADA COISA PRECISA OCUPAR O SEU DEVIDO LUGAR.
FUNDAMENTO, TRADIÇÃO E COSTUME
Depois de compreendermos esses três conceitos, podemos estabelecer uma síntese simples:
O FUNDAMENTO SUSTENTA. A TRADIÇÃO TRANSMITE. O COSTUME INCORPORA OU MODIFICA, SEM INFLUENCIAR SUBSTANCIALMENTE A TRADIÇÃO E O FUNDAMENTO, E NORMALMENTE POSSUI UMA EXPLICAÇÃO PARA SUA ORIGEM.
O fundamento estabelece aquilo que dá sustentação e identidade. A tradição preserva e transmite aquilo que foi recebido. O costume permite que uma comunidade desenvolva suas próprias particularidades dentro daquilo que vive e transmite.
O COSTUME PODE FAZER PARTE DA HISTÓRIA DE UMA COMUNIDADE SEM SE TRANSFORMAR EM FUNDAMENTO.
E é justamente essa compreensão que nos permite olhar para as diferentes formas existentes entre nossas famílias tradicionais sem precisar transformar toda diferença em erro ou toda particularidade em fundamento.
Uma tradição pode possuir diferentes formas de expressão sem perder sua identidade. Uma família pode possuir costumes próprios sem deixar de pertencer à sua raiz. Uma comunidade pode preservar seus fundamentos enquanto mantém características que fazem parte de sua própria história.
COMPREENDER O COSTUME É RECONHECER ESSAS PARTICULARIDADES E SABER COLOCÁ-LAS DENTRO DO LUGAR QUE OCUPAM.
E, quando conseguimos diferenciar fundamento, tradição e costume, conseguimos compreender melhor a riqueza e a complexidade das nossas comunidades.
Na próxima publicação da série ASIDRAB Dialoga, avançaremos para o próximo conceito:
O QUE PODEMOS COMPREENDER COMO INOVAÇÃO?
Porque existe uma diferença entre incorporar uma particularidade sem alterar substancialmente aquilo que recebemos e introduzir mudanças que passam a interferir diretamente na estrutura, na identidade ou nos fundamentos de uma tradição.
É sobre essa diferença que vamos conversar na próxima publicação.
GLOSSÁRIO
Costume: prática incorporada
Fundamento: base da tradição
Tradição: conhecimento transmitido
Oralidade: conhecimento pela fala
Ancestralidade: relação com ancestrais
Linhagem: continuidade da transmissão
Raiz: origem familiar
Família tradicional: família de tradição
Comunidade: grupo de pertencimento
Pertencimento: vínculo com uma comunidade e sua tradição
Adaptação: mudança sem alterar a base
Acréscimo: elemento incorporado
Pluralidade: múltiplas formas
Diversidade: diferenças entre formas
Mescla: mistura de elementos
Régua universal: parâmetro para todos
Mão: linhagem de transmissão
“Estar na mão”: estar sob determinada linhagem
Bàbálorixá Tiago De Bará - Onìlú
Presidente da Asidrab - Associação Independente em Defesa das Religiões Afro Brasileiras