07/03/2026
Em entrevista recente, a ONU (Organização das Nações Unidas) declarou que a violência contra a mulher configura uma emergência global. Nos últimos anos, os índices de feminicídio, estupro e assédio sexual cresceram de maneira alarmante. Em 2025, o Brasil registrou o maior número de feminicídios dos últimos 10 anos. Nos primeiros 60 dias de 2026 no Rio Grande do Sul, ao menos 20 casos de feminicídio foram registrados. À primeira vista, o aumento parece inexplicável - mas, na verdade, ele está longe de ser um mistério. Os casos registrados não são acidentais, tampouco naturais. São o reflexo de uma cultura que nos leva a associar a masculinidade a violência e a dominação. Cada novo episódio de violência contra a mulher anunciado pelo noticiário, trata-se apenas de um exercício de poder autorizado por uma cultura que ensina a meninos, desde a mais tenra idade, a violência, a dominação e a objetificação do outro — seja ele mulher, criança, animal ou qualquer outro ser vivo percebido como vulnerável. Vivemos em uma sociedade em que a virilidade é continuamente testada por meio de demonstrações públicas de violência, poder e controle. Homens são homens se são agressivos. Homens são homens se exercem poder e controlam.
Nos últimos anos, assistimos um processo crescente de desmonte e desestabilização das estruturas patriarcais que historicamente permitem aos homens exerceram poder sobre as mulheres. São estruturas ameaçadas, algumas severamente comprometidas. Os meninos e homens de hoje cresceram assistindo a um mundo em que mulheres serviam a eles. Hoje, as mulheres servem a elas, não a eles. Isto gera revolta. Isto gera ressentimento. E explica a presença cada vez mais intensa de movimentos reacionários masculinistas e misóginos, que surgem em resposta a isso. Em uma cultura em que ser homem significa deter poder e controle sobre os outros, ousar ser uma mulher livre provoca homens inseguros sobre sua masculinidade. E, sobretudo, cria homens que estão dispostos a praticar qualquer ato de violência a fim de reivindicar sua virilidade e recuperar a masculinidade perdida.