12/08/2026
Em alguma medida, a história de São Paulo Sociedade Anônima parece ir ao encontro da trajetória de seu diretor e roteirista, Luiz Sérgio Person, que abandonou a fábrica do pai para estudar cinema na Itália. O clássico brasileiro, contudo, independe dessa relação biográf**a, a transcende: explora a não linearidade, constrói personagens profundamente complexos e transforma São Paulo em uma personagem que observa aqueles que vivem a história, refletida nas janelas e fachadas de vidro da metrópole.
No filme, Carlos ascende profissionalmente em meio à expansão da indústria automobilística. Após se casar com Luciana e associar-se a um empresário do setor, ele alcança a vida que supostamente deveria desejar. O progresso social, no entanto, não traz realização. Em crise, Carlos tenta abandonar a carreira, o casamento e a própria identidade construída a partir das expectativas de sucesso.
Na última quinta-feira, 6 de agosto, exibimos a versão restaurada do filme na Sala Redenção - Cinema da UFRGS. A sessão, que faz parte do ciclo Nouvelle Vague e suas influências, contou com a presença do crítico de cinema presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (Accirs), Daniel Rodrigues, que conversou com o público após a exibição.
No longa de Person, o diálogo com a Nouvelle Vague francesa aparece nas inquietações existenciais, na narrativa fragmentada, no uso das ruas e de locações reais e na relação direta com as transformações sociais de seu tempo. Tudo isso atravessado por um olhar autoral e por um trabalho primoroso com os enquadramentos e os movimentos de câmera. Mais de seis décadas depois, a crise de Carlos permanece atual. Em uma cidade movida pelo trabalho, pela indústria e promessa de progresso, pela solidão do indivíduo, ele percebe que avançar profissionalmente não signif**a necessariamente saber para onde está indo.
Cortesia Vitrine Filmes
📸 Kelly Demo Christ