Palhaços em hospitais: uma proposta de intervenção lúdica em saúde
Segundo Spitzer (2002), palhaços têm trabalhado em hospitais desde o tempo de Hipócrates. Contudo, somente em 1908, encontra-se registro deste modo de atuação em uma edição do Le Petit Journal. Outro marco histórico que merece destaque é a trajetória bastante conhecida do Dr. Patch Adams que, há mais de três décadas, passou a adot
ar a arte do palhaço nos contatos com seus pacientes. Cabe ainda ressaltar a apresentação do Big Apple Circus em um hospital na cidade de Nova Iorque, em 1986, pois após o evento, decidiu-se criar o The Big Apple Circus Clown Care (BACCC), o qual originou diversas iniciativas semelhantes (MASSETTI, 2003). No Brasil, em 1991, teve início um programa similar com Wellington Nogueira, fundador e coordenador geral dos Doutores da Alegria, que se define como uma “organização dedicada a levar alegria a crianças hospitalizadas, seus pais e profissionais de saúde, através da arte do palhaço, nutrindo esta forma de expressão como meio de enriquecimento da experiência humana” (DOUTORES DA ALEGRIA, 2003). De acordo com o levantamento realizado em 2001 pelo Centro de Estudos Doutores da Alegria, existem 180 grupos de voluntários que operam dessa maneira em instituições hospitalares brasileiras (DOUTORES DA ALEGRIA, 2003). O termo “palhaço-doutor” identifica o trabalho terapêutico realizado por performáticos profissionais, que recebem treinamento em habilidades interpessoais e de comunicação, juntamente com técnicas de improviso, para a promoção de bem-estar físico e mental, qualidade de vida, diminuição de ansiedade e estresse entre pacientes, familiares e membros da equipe de saúde (WARREN; CHODZINSKI, 2005). Sucintamente, é possível afirmar que as práticas dramáticas empregadas buscam desmistificar, simplificar e, principalmente, parodiar procedimentos de saúde, o que pode resultar em alívio, conforto e bem-estar físico, psicológico e social do paciente internado e de seus acompanhantes. Diante das repercussões internacionais e nacionais deste movimento, alguns estudos vêm sendo propostos no intuito de melhor compreender a problemática envolvida. Assim, Vagnoli, Caprilli, Robiglio e Messeri (2005) investigaram os efeitos da presença de palhaços sobre a ansiedade de crianças submetidas à indução anestésica, examinando os escores obtidos com a aplicação da Modified Yale Preoperative Anxiety Scale. Os resultados apontaram menos ansiedade entre as crianças que contaram com esta modalidade de intervenção quando comparadas ao grupo-controle que recebeu apenas apoio de seus acompanhantes. Benefícios adicionais às intervenções de “palhaços-doutores” também foram observados por Bennetts (2004). O autor concluiu que a experiência de riso suscitada modifica a percepção de tédio e quietude fortemente vinculados à rotina hospitalar, além de redimensionar a sensação de “estar doente”. Na Suíça, tomando como base as experiências de dois grupos de intervenção, Crettaz (2006) analisou o oficio de palhaço de hospital, propondo como eixos de discussão o modo de interação particular, o paradoxo inerente à profissão exercida em um meio “hiper-funcional” e a subjetividade acionada como ferramenta de trabalho social. No Brasil, os trabalhos publicados por Massetti (1998, 2003) ressaltaram aspectos bastante positivos, inclusive para os acompanhantes: moderação da ansiedade, participação mais ativa no tratamento da criança, além do aumento de confiança na equipe. Em um estudo sobre a percepção da equipe médica e de acompanhantes a respeito do “palhaço-doutor”, Carvalho e Rodrigues (2007) reuniram relatos igualmente favoráveis, inclusive com o reconhecimento por parte dos profissionais de saúde de que o trabalho desenvolvido pelo movimento é um exemplo de humanização na saúde.