15/04/2026
“Então, disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quer vir após
mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz, e siga-me” —
(Mateus 16:24).
“Se alguém”: o dever imposto é para todos os que desejam
se unir aos seguidores de Cristo e alistar sob a Sua bandeira.
“Se alguém quer”: o grego é muito enfático, signif**ando não somente
o consentimento da vontade, mas o pleno propósito de coração,
uma resolução determinada.
“Vir após mim”: como um servo
sujeito ao seu Mestre, um estudante ao seu Professor, um
soldado ao seu Capitão.
“Negue”: o grego signif**a “negar
totalmente”. Negar a si mesmo: sua natureza pecaminosa e
corrompida.
“E tome”: não passivamente sofra ou suporte, mas assuma voluntariamente, adote ativamente.
“Sua cruz”: que é desprezada pelo mundo, odiada pela carne, mas que é a marca distintiva de um cristão verdadeiro.
“E siga-me”: viva como Cristo viveu — para a glória de Deus.
O contexto imediato é mais solene e impressionante. O Senhor
Jesus tinha acabado de anunciar aos Seus apóstolos, pela primeira vez, a aproximação de Sua morte de humilhação (v. 21).
Pedro se assustou, e disse, “Tem compaixão de Ti, Senhor” (v.
22). Isto expressou a política da mente carnal. O caminho do
mundo é a procura para si mesmo e a defesa de si mesmo.
“Tenha compaixão de ti” é a soma de sua filosofia. Mas a doutrina de
Cristo não é “salva a ti mesmo”, mas sacrif**a a ti mesmo. Cristo
discerniu no conselho de Pedro uma tentação de Satanás (v. 23),
e imediatamente a rejeitou.
Então, voltando-se para Pedro, disse:
Não somente “deve” o Cristo subir à Jerusalém e morrer, mas
todo aquele que desejar ser um seguidor dEle, deve tomar sua
cruz (v. 24).
O “deve” é tão imperativo num caso como no outro.
Mediatoriamente, a cruz de Cristo permanece sozinha; mas experiencialmente, ela é compartilhada por todos que entram na caminhada do Reino.
O que é um “cristão”?
Alguém que sustenta membresia em
alguma igreja terrena? Não.
Alguém que crê num credo ortodoxo? Não.
Alguém que adota um certo modo de conduta? Não.
O que, então, é um cristão? Ele é alguém que renunciou a si mesmo e
recebeu a Cristo Jesus como Senhor (Colossenses 2:6).
Ele é alguém que toma o jugo de Cristo sobre si e aprende dEle que é
“manso e humilde de coração”.
Ele é alguém que foi “chamado à
comunhão de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor” (1 Coríntios 1:9): comunhão em Sua obediência e sofrimento agora, em Sua
recompensa e glória no futuro sem fim.
Não há tal coisa como
pertencer a Cristo e viver para agradar a si mesmo. Não cometa
engano neste ponto, “E qualquer que não tomar a sua cruz e não
vir após mim não pode ser meu discípulo” (Lucas 14:27), disse
Cristo.
E novamente Ele declarou, “Mas aquele (ao invés de negar
a si mesmo) que me negar diante dos homens (não “para” os
homens: é conduta, o caminhar, que está aqui em vista), também
eu o negarei diante de meu Pai, que está nos céus” (Mateus 10:33).
A vida cristã começa com um ato de auto-renúncia, e é continuada pela auto-mortif**ação (Romanos 8:13).
A primeira pergunta de Saulo de Tarso, quando Cristo o apreendeu, foi, “Senhor, que queres que eu faça?”. A vida cristã é comparada
com uma “corrida”, e o corredor é chamado para “deixar todo
embaraço e o pecado que tão de perto nos assedia” (Hebreus 12:1), cujo “pecado” é o amor por si mesmo, o desejo e a determinação de ter o nosso “próprio caminho” (Isaías 53:6).
O grande alvo, fim e tarefa posta diante do Cristão é seguir a Cristo
— seguir o exemplo que Ele nos deixou (1 Pedro 2:21), e Ele “não
agradou a si mesmo” (Romanos 15:3).
E há dificuldades no caminho, obstáculos na estrada, dos quais o principal é o ego.
Portanto, este deve ser “negado”. Este é o primeiro passo para se
“seguir” a Cristo.
O que signif**a para um homem “negar a si mesmo” totalmente?
Primeiro, isto signif**a a completa repudiação de sua própria
bondade. Signif**a cessar de descansar sobre quaisquer obras
nossas, para nos recomendar a Deus. Signif**a uma aceitação sem reservas do veredicto de Deus que “todas as nossas justiças [nossas melhores performances], são como trapo da
imundícia” (Isaías 64:6).
Foi neste ponto que Israel falhou:
“Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus” (Romanos 10:3).
Agora, contraste com a declaração de Paulo: “E seja achado nEle, não tendo justiça própria” (Filipenses 3:9).
Para um homem “negar a si mesmo” totalmente, deverá renunciar completamente à sua própria sabedoria. Ninguém pode
entrar no reino dos céus, a menos que tenha se tornado “como
criança” (Mateus 18:3).
“Ai dos que são sábios a seus próprios olhos e prudentes em seu próprio conceito!” (Isaías 5:21).
“Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos” (Romanos 1:22).
Quando o Espírito Santo aplica o Evangelho em poder numa
alma, é para “destruir os conselhos e toda altivez que se levanta
contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo entendimento à obediência de Cristo” (2 Coríntios 10:5). Um conselho sábio para todo cristão adotar é “não te estribes no teu próprio entendimento” (Provérbios 3:5).
Para um homem “negar a si mesmo” totalmente, deverá renunciar completamente à sua própria força. É “não confiar na carne”(Filipenses 3:3).
É o coração se curvando à declaração positiva de Cristo: “Sem mim, nada podeis fazer” (João 15:5).
Este é o ponto no qual Pedro falhou: (Mateus 26:33). “A soberba
precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda” (Provérbios 16:18). Quão necessário é, então, que prestemos atenção à 1 Coríntios 10:12: “Aquele, pois, que cuida estar em
pé, olhe que não caia”! O segredo da força espiritual reside em
reconhecer nossa fraqueza pessoal: (veja Isaías 40:29; 2 Crônicas 12:9).
Então, “fortifiquemo-nos na graça que há em Cristo Jesus” (2 Timóteo 2:1).
Para um homem “negar a si mesmo” totalmente, deverá renunciar completamente à sua própria vontade.
A linguagem do não-salvo é, “Não queremos que este Homem reine sobre nós” (Lucas 19:14).
A atitude do cristão é, “Para mim, o viver é Cristo” (Filipenses 1:21) — honrá-Lo, agradá-Lo, servi-Lo.
Renunciar sua própria vontade signif**a atender à exortação de Filipenses 2:5:
“Que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em
Cristo Jesus”, o qual é definido nos versículos que imediatamente
seguem como de abnegação. É o reconhecimento prático de que
“não sois de vós mesmos, porque fostes comprados por bom
preço” (1 Coríntios 6:19,20).
É dizer com Cristo, “Não seja, porém,
o que eu quero, mas o que tu queres” (Marcos 14:36).
Para um homem “negar a si mesmo” totalmente, deverá renunciar completamente suas luxúrias ou desejos carnais. “O ego do homem é um feixe de ídolos” (Thomas Manton, Puritano), e estes ídolos devem ser repudiados.
Os não-cristãos são
“amantes de si mesmos” (2 Timóteo 3:1); mas aquele que foi
regenerado pelo Espírito diz com Jó: “Eis que sou vil” (40:4), “Eu
me abomino” (42:6).
Dos não-cristãos está escrito, “todos buscam o que é seu e não o que é de Cristo Jesus” (Filipenses 2:21); mas
dos santos de Deus está registrado: “eles não amaram a sua vida
até à morte” (Apocalipse 12:11). A graça de Deus está “ensinando-nos que, renunciando à impiedade e às
concupiscências mundanas, vivamos neste presente século
sóbria, justa e piamente” (Tito 2:12).
Esta negação do ego que Cristo requer de todos os Seus
seguidores devem ser universal. Não há reserva, nenhuma exceção feita: “Nada disponhais para a carne no
tocante às suas concupiscências” (Romanos 13:14).
Deve ser constante, não ocasional: “Se alguém quer vir após mim, a si
mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me” (Lucas
9:23).
Deve ser espontânea, não forçada, realizada com satisfação, não relutantemente: “Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens” (Colossenses 3:23).
Ó, quão impiamente o padrão que Deus colocou diante de nós tem sido rebaixado! Como isso condena a
vida acomodada, agradável à carne e mundana de tantos que
professam (mas, de maneira vã) que eles são “cristãos”!
“E tome a sua cruz”. Isto se refere não à cruz como um objeto de
fé, mas como uma experiência na alma. Os benefícios legais do
Calvário são recebidos através do crer, quando a culpa do pecado
é cancelada, mas as virtudes experimentais da Cruz de Cristo são
somente desfrutadas à medida que somos, de um modo prático,
“conformados com a Sua morte” (Filipenses 3:10).
À medida que realmente aplicamos a cruz às nossas vidas diárias é que regulamos nossa conduta pelos seus princípios. Só assim ela se torna
ef**az sobre o poder do pecado que habita em nós.
Não pode haver ressurreição onde não há morte, e não pode haver andar prático “em novidade de vida” até que “carreguemos no corpo o
morrer do Senhor Jesus” (2 Coríntios 4:10).
A “cruz” é o sinal, a evidência do discipulado cristão. É sua “cruz”, e não o seu credo, que distingue um verdadeiro seguidor de Cristo do mundano religioso.
Agora, no Novo Testamento a “cruz” tem o signif**ado de
realidades definidas. Primeiro, ela expressa o ódio do mundo. O Filho de Deus veio aqui não para julgar, mas para salvar; não para punir, mas para redimir. Ele veio aqui “cheio de graça e verdade”.
Ele sempre esteve à disposição dos outros: ministrando aos
necessitados, alimentando os famintos, curando os enfermos,
libertando os possessos pelos demônios, ressuscitando os mortos.
Ele era cheio de compaixão: gentil como um cordeiro; inteiramente sem pecado. Trouxe com Ele felizes notícias de grande alegria. Ele procurou os perdidos, pregou aos pobres, todavia, não desdenhou dos ricos; Ele perdoou pecadores. E,
como Ele foi recebido? Que tipo de recepção os homens Lhe
deram?
Eles O “desprezaram e rejeitaram” (Isaías 53:3). Ele declarou, “Eles Me odeiam sem uma causa” (João 15:25). Eles tiveram sede de Seu sangue. Nenhuma morte ordinária os
apaziguaria. Eles demandaram que Ele deveria ser crucif**ado. A
Cruz, então, foi a manifestação do ódio inveterado do mundo pelo
Cristo de Deus.
O mundo não mudou, não mais do que o etíope pode mudar sua
pele ou leopardo suas manchas. O mundo e Cristo ainda estão
em aberto antagonismo. Por conseguinte, está escrito: “Aquele,
pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de
Deus” (Tiago 4:4).
É impossível andar com Cristo e comungar com Ele, até que tenhamos nos separado do mundo. Andar com
Cristo necessariamente envolve compartilhar Sua humilhação:
“Saiamos, pois, a Ele, fora do arraial, levando o seu vitupério”
(Hebreus 13:13).
Isto foi o que Moisés fez (veja Hebreus 11:24-26). Quanto mais próximo eu andar de Cristo, mais eu serei mal-entendido (1 João 3:2), ridicularizado (Jó 12:4), e detestado pelo mundo (João 15:19).
Não cometa engano aqui: é extremamente impossível continuar com o mundo e ter comunhão com o Santo Cristo. Portanto, “tomar” minha “cruz” signif**a, que eu, deliberadamente, convido a inimizade do mundo através da minha recusa em ser “conformado” a ele (Romanos 12:2).
Mas, o que importa o olhar carrancudo do mundo, se estou desfrutando os sorrisos do Salvador?
Tomar minha “cruz” signif**a uma vida voluntariamente rendida a Deus. Como o ato dos homens ímpios, a morte de Cristo foi um
assassinato; mas como o ato do próprio Cristo, foi um sacrifício
voluntário, oferecendo a Si mesmo a Deus.
Foi também um ato de obediência a Deus. Em João 10:18 Ele disse, “Ninguém a [Sua vida] tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou”. E por que Ele o fez? Suas próximas palavras nos dizem: “Este
mandamento recebi de meu Pai”. A cruz foi a suprema demonstração da obediência de Cristo.
Nesta Ele foi o nosso Exemplo. Uma vez mais citamos Filipenses 2:5: “Que haja em vós o mesmo
sentimento que houve também em Cristo Jesus”. Vemos o Amado do Pai tomando a forma de um
Servo, e tornando-Se “obediente até a morte, e morte de cruz”.
Agora, a obediência de Cristo deve ser a obediência do cristão —
voluntária, alegre, sem reservas, contínua.
Se esta obediência envolve vergonha e sofrimento, acusação e perda, não devemos nos acovardar, mas por o nosso rosto “como um seixo” (Isaías
50:7). A cruz é mais do que o objeto da fé do cristão, ela é o sinal
de discipulado, o princípio pelo qual sua vida deve ser regulada.
A “cruz” signif**a rendição e dedicação a Deus: “Rogo-vos, pois,
irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso
corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso
culto racional” (Romanos 12:1).
A “cruz” signif**a serviço vicário e sofrimento. Cristo deu a Sua
vida pelos outros, e Seus seguidores são chamados a estarem dispostos para fazerem o mesmo: “Devemos dar nossa vida pelos irmãos” (1 João 3:16).
Esta é a lógica inevitável do Calvário.
Somos chamados para seguir o exemplo de Cristo, para a
companhia de Seus sofrimentos, e para ser participantes em Seu
serviço. Assim como Cristo “a si mesmo se esvaziou” (Filipenses
2:7), assim devemos fazer.
Assim como Ele “veio para servir, e
não para ser servido” (Mateus 20:28), assim devemos ser. Assim
como Ele “não agradou a si mesmo” (Romanos 15:3), assim
devemos fazer.
Assim como Ele lembrou dos outros, assim devemos lembrar: “Lembrai-vos dos encarcerados, como se presos com eles; dos que sofrem maus tratos, como se, com
efeito, vós mesmos em pessoa fôsseis os maltratados” (Hebreus 13:3).
“Quem quiser salvar a sua vida perde-la-á; e quem
perder a vida por minha causa acha-la-á” (Mateus 16:25).
Palavras quase idênticas a estas são encontradas novamente em
Mateus 10:39. Marcos 8:35, Lucas 9:24; 17:33, João 12:25.
Certamente, tal repetição mostra a profunda importância de
notar e prestar atenção a este dito de Cristo. Ele morreu para que
nós pudéssemos viver (João 12:24), e assim devemos fazer (João 12:25).
Como Paulo, devemos ser capazes de dizer “Em nada tenho a minha vida por preciosa” (Atos 20:24). A “vida” que é vivida para a gratif**ação do ego neste mundo, está “perdida”
para eternidade; a vida que é sacrif**ada para os interesses próprios e rendida a Cristo, será “achada” novamente, e
preservada durante toda a eternidade.