05/12/2025
SEXTA DO TERROR
Olhos nas Trevas
Clara e Patrick estavam em lua de mel na Europa, em um tour por alguns países do Leste Europeu, um presente da turma do escritório de Patrick, jovem advogado em ascenção.
Após o casamento muito festivo à beira da praia, com muitos convidados entre parentes e amigos, tiveram uma enorme surpresa. Tinham comentado que gostariam de conhecer alguns países mais ao leste da Europa, como Sérvia, Romênia, Bulgária, República Tcheca e Eslováquia e foi exatamente esse o presente que receberam.
O casal estava muito feliz e aproveitavam cada minuto juntinho nessa lua de mel. Uma verdadeira viagem que juntava diversão e cultura. Cidade por cidade iam acumulando fotos e conhecimento. E quem disse que viajar não é cultura? Essa região sempre foi conhecida também por ter castelos, principalmente nas encostas e montes.
E o ponto alto da viagem seria conhece a terra do Conde Drácula. Ambos tinham assistido a todos os filmes de vampiro envolvendo o conde e lido todos os livros, principalmente Drácula, de Bram Stoker.
A Romênia é um país que se reestruturou depois da queda e execução do ditador Nicolae Ceauşescu, durante a chamada Revolução Romena, em 1989, transformando-se em um país democrático.
É claro que Patrick e Clara sabiam disso, e dividiram a emoção de estar na Romênia com seus amigos, todos os dias, conversando por vídeo conferência, e compartilhando fotos aos montes em suas redes sociais.
A intenção do casal era subir até a Transilvânia, lar do vampiro mais famoso do mundo. Uma região linda e cheia de castelos. Mais ainda por não ser inverno. Flores e floresta por todo lado. A caminho da cidade famosa passaram por várias vilas bem aconchegantes que pareciam ter parado no tempo. Rios e riachos lindos. Flores que ainda não tinham visto. Realmente, uma paisagem deslumbrante.
Quando chegaram à Transilvânia viram que o clima se mostrava bem diferente do que viram em filmes. Dias ensolarados e nada de neblina ou castelos escondidos por brumas. As noites, bem agitadas em bares com bastante jovens e gente do mundo inteiro que vinham visitar o local, justamente por conta de seu mais ilustre personagem.
Clara e Patrick se hospedaram em um hotel pequeno, quase uma pensão. A intenção de quase sentir o mesmo que os moradores locais excitava ao casal. A dona, uma senhora com bochechas rechonchudas e rosadas, muito sorridente tinha apenas um problema: não falava nada em inglês. A tudo tinham que recorrer ao sobrinho dela, Iliescu, que trabalhava como faz tudo. Ele tinha aprendido inglês quando foi fazer faculdade de Turismo na capital, Bucareste. Falava com um certo sotaque puxando o “r”, como costuma acontecer com quem é daquela região do Leste Europeu, mas dava para entender tudo.
O pequeno hotel quase não tinha hóspedes e eles ficaram muito felizes com Clara e Patrick.
Após deixar as coisas no hotel saíram para dar uma volta e conhecer mais do local. Tudo ali evocava o Conde Drácula, hotel com o nome dele, pessoas fantasiadas de vampiro. Mas tudo uma grande brincadeira.
No dia seguinte, foram dar uma volta ao que o povo indicava como o castelo do antigo conde. Um castelo muito bonito por fora, e como era de dia, por dentro estava bem claro. Muitas salas, quartos e corredores. Esses eram os que davam mais medo. Corredores estreitos para cima e para baixo.
Como todo castelo, este também apresentava passagens secretas e algumas foram indicadas pelos guias turísticos. Uma, em particular, parecia que tinha sido construído para servir de rota de fuga em caso de ataque. Ia dar do lado de fora, na floresta.
Clara observou que a floresta sim, essa dava medo. Não queria andar pela floresta durante a noite. E ainda tinham os lobos. O local era conhecido por ter lobos.
Patrick zombava de sua esposa, que antes de viajar queria conhecer tudo e dizia não ter medo. Uma coisa era não ter medo em casa, outra era estar na região do vampiro.
O que ela não disse foi que desde que foram se hospedar naquele pequeno hotel, começou a ter uma sensação, como se sempre tivesse mais alguém ali, observando. Só que ela não via. E a sensação ficou pior quando atravessaram o túnel para a floresta. Não quis falar com Patrick porque era apenas uma sensação. Mas como estavam na Transilvânia, podia ser apenas por conta do clima, do local. Ou medo do desconhecido.
Quando retornaram ao hotel, Clara foi para o quarto, pois não estava se sentindo muito bem, enquanto Patrick ficou no hall, conversando com Iliescu, sobrinho da dona.
Patrick perguntou a ele há quanto tempo trabalhavam no ramo de hotel e Iliescu respondeu que é uma coisa que vem desde seu tataravô. O rapaz também perguntou sobre o mito do vampiro, tendo Iliescu dito que era uma lenda, mas que o Conde realmente existiu, conhecido como O Empalador. No entanto, ele tinha algo a contar que não falava para muita gente, pois poderiam se impressionar. Como Patrick já tinha mostrado que não se impressionava tão fácil, Iliescu contou a ele que a lenda tinha sim um fundo de verdade. Que em um lugar mais para distante do castelo de Bran, infiltrado na floresta e encravado na montanha existe ruínas de um antigo castelo e dizem os antigos que foi nesse castelo que viveu um senhor feudal que matava os camponeses e, ainda segundo as lendas, sugava todo o sangue das vítimas, com o intuito de viver para sempre.
Patrick achou aquilo muito interessante e pediu para o jovem continuar a história. Só lamentou que Clara não estivesse ali para ouvir. Provavelmente iria dormir com medo, bem agarradinha ao marido. Chegou até mesmo a dar um sorriso quando teve esse pensamento.
Iliescu continuou sua narrativa, dizendo que muita gente desapareceu enquanto esse senhor Feudal estava no poder e, mesmo depois que foi dado como morto, muita gente continuou sumindo sem deixar rastro. Isso criou a lenda de um vampiro, que só foi agravada pela fama do Conde Vlad. Em noites com muita neblina, é possível escutar lobos uivando na floresta. É assustador.
Patrick ficou bem interessado em duas coisas. Primeiro seria interessante ouvir o uivo dos lobos, mas Iliescu já tratou de dizer que ultimamente era mais raro ouvir os lobos, desde que o governo autorizou a caça aos lobos, simplesmente pelo fato de que tinham relação com o vampiro. A segunda coisa seria visitar esse castelo em ruínas. Iliescu afirmou que com um pouco de conversa e dinheiro, poderia conseguir um cocheiro para levar até lá.
O fato de ser um cocheiro também deixou Patrick animado, afinal seria uma viagem como se fazia antigamente. A Patrick foi explicado que o caminho é acidentado e passar por algumas vias bem perigosas, à beira do precipício. Claro que o ideal seria fazer isso bem cedo para voltar ainda de dia. Não seria aconselhável ficar no castelo durante o período noturno. Provavelmente poderia aparecer lobos e ainda havia os morcegos que durante a noite saiam para caçar.
No quarto, Clara estava tendo um sono bem agitado, mexendo-se de lá para cá. Estava pegando fogo, suando bastante, até que acordou, olhou para a janela e deu um grito.
Patrick imediatamente correu e foi até o quarto, abraçando sua esposa e perguntando o que tinha acontecido. Clara explicou que teve um sonho inquietante. Nesse sonho ela estava na floresta onde estiveram durante o dia, só que era à noite, lua cheia, com muita neblina e ela era perseguida por um lobo negro, enorme. Mas o que a assustava não era nem o tamanho do bicho, eram os olhos. Vermelhos como fogo. Quanto mais ela corria e tentava fugir, os olhos a perseguiam. Não via direito o lobo, mas de onde estivesse, via aquelas brasas vivas. Foi quando ela acordou e olhou para a janela. O que ela viu a assustou mais do que tudo. Justamente duas brechas vermelhas, em um vulto escuro.
Patrick disse a ela que foi apenas um sonho ruim e que ia ficar tudo bem. Chegou a ir até a janela para mostrar à sua esposa que nada tinha lá fora. E realmente não tinha. Do lado de fora vinha um agradável vento de verão, com fragrâncias de flores típicas do local.
Por via das dúvidas Patrick deu uma olhada mais atenta, mas nada viu que se assemelhasse ao que Clara tinha visto.
Ainda era cedo e ela desceu com Patrick até a sala de estar do hotel. Tomou um leite quente e se acomodou no colo do marido. Estava ardendo de febre. Patrick pensou que a viagem até as ruínas do castelo ficaria para uma próxima. Teria que adiar por alguns dias até Clara estar completamente boa. Com febre não poderia andar de carruagem. Muito menos ir a pé.
O problema era que ela não ficava boa. Mesmo tomando remédios, inclusive caseiros, providenciados pela dona do hotel, a febre não cedia. E cada vez mais ela repetia que via em seus sonhos um lobo imenso com olhos vermelhos e presas enormes. Patrick dizia que eram apenas seus delírios por conta da febre. Nada mais. Não existia lobo como o que via.
O pior foi que Patrick, de tanto Clara afirmar com tanta convicção sobre a presença, começou a sentir a tal presença. E isso apenas o incomodava no início, depois foi passando para o seu corpo que se arrepiava. Até que sentia a nuca sempre ficar gelada, de uma hora para a outra.
Iliescu disse a Patrick que nunca tinha visto algo igual. Ninguém nunca tinha passado mal no hotel e que esses delírios poderiam ser da ideia do que foram visitar, das terras de um conde vampiro. Era uma suposição que fazia sentido.
Segundo a lenda sobre vampiros, os amaldiçoados não podiam entrar em nenhuma casa ou cômodo se não fossem convidados. Era algo que talvez explicasse o porquê de sempre ver as sombras e os olhos vermelhos do lado de fora, nunca dentro. E isso, de certa forma, era reconfortante. Não que realmente acreditassem nessas lendas.
Clara deu uma melhorada e continuaram as visitas aos locais mais famosos da Transilvânia. Deram até mesmo uma passada em uma das danceterias mais famosas. Estavam precisando de algo diferente de só ver castelos e túmulos supostos de vampiros.
No entanto, aquela estranha sensação voltou ao casal, e onde quer que estivessem na danceteria, era como se estivessem sendo vigiados. Na cabeça de Clara, aquilo já tinha virado quase uma paranoia, via em sonhos e agora estava vendo ao vivo, pois em um dos momentos em que se dirigiu ao banheiro e voltou visualizou nitidamente uma pessoa distante, que olhava em seus olhos, e o susto foi grande quando os olhos dessa pessoa, que só via em vulto, pois estava meio escuro no local, ficaram vermelhos. E quando ele deu um sorriso, clara viu o que pareciam ser dois caninos bem proeminentes.
Balançou a cabeça e, ao olhar novamente, a pessoa havia desaparecido. Deveria estar com febre e delirando, foi o que ela pensou, tanto que nada falou para Patrick quando se aproximou dele, que reclamou um pouco pela demora da esposa no banheiro. Clara achou estranho quando Patrick disse que ela demorou cerca de 20 minutos. Para ela não passou de cinco. Como ela estava febril Patrick achou que ela tinha perdido a noção do tempo.
Logo em seguida voltaram para o hotel. Clara ardia em febre. No caminho, a sensação de que estavam sendo seguidos e sendo vigiados era tão intensa que Patrick ficava o tempo todo olhando para trás. No entanto, nada via. Na escuridão, Patrick não percebeu, porém, que Clara apresentava dois pequenos furos no pescoço, escondidos pelo casaco do marido que usava.
No dia seguinte, Clara acordou melhor, bem-disposta e com uma ideia que não saía de sua cabeça. Queria visitar as ruínas que Iliescu tinha falado para Patrick. Era quase uma urgência. Mas antes Clara disse que tinha uma notícia maravilhosa para dar a Patrick. Aquele estado febril, enjoos e tudo o mais o que estava sentindo tinha um motivo: ela estava grávida!
Como era de se esperar, Patrick ficou eufórico com a notícia. Ia ser pai! E o local da concepção não poderia ser melhor. Em plena lua de mel!
A jovem esposa sugeriu comemorarem a dois, nas ruinas do antigo castelo do senhor feudal. Ele concordou, ansioso com essa comemoração e feliz da vida por ser pai. Logo pela manhã, tratou de contratar a carruagem que os levaria até o local. Ainda ia ser uma viagem como a de antigamente. Levaram uma cesta de piquenique, pois pretendiam passar um bom tempo lá. Marcaram com o condutor da carruagem para os pegarem por volta do final da tarde. Mesmo que fossem apenas ruinas, não seria legal terem que passar a noite em local lúgubre. Tudo acertado, foram até o local que eram bem escondido pela floresta. Só quem sabia poderia encontrar. E como eles tinham as coordenadas indicadas por Iliescu, não foi problema.
O castelo em si tinha sido bem impressionante. Duro acreditar que era apenas de um senhor feudal. Parecia castelo de um rei. Daqueles que se vê em histórias de princesas. Suas torres estavam em pé, mas muitas paredes estavam no chão. E a porta de entrada, que tinha uma ponte levadiça estava aberta. A ponte existia, mas não dava muita credibilidade em atravessar. Apesar disso, meio que acamparam na entrada, embaixo de uma das árvores. O dia estava lindo, com pássaros cantando e o sol brilhando e céu limpo.
Depois de aproveitarem o piquenique, resolveram dar uma volta por dentro do castelo. Haviam levado lanternas para o caso de necessidade e após conseguirem passar pela ponte levadiça atravessaram a porta da frente.
Lá dentro só encontraram poeira e escuridão, e sorriram porque levaram as lanternas. Nada mais existia no interior do castelo. Cômodos e corredores incontáveis. Até que em um determinado momento encontraram um corredor que descia. Provavelmente ia para as masmorras.
Mesmo com algum receio, decidiram descer. Não eram as masmorras. Mas um local amplo que no meio tinha um altar. Chegaram mais próximos e viram que só tinha poeira em cima dessa mesa ou altar. Então Patrick se lembrou das lendas sobre esse senhor feudal que sacrificava pessoas para tomar o seu sangue. Ali seria um ótimo local para isso. Bem isolado.
De repente, as lanternas falharam e o local ficou escuro, assustando Patrick e Clara. Não se conseguia enxergar nada. Até que alguma coisa brilhou a uma pequena distância. Patrick quase teve um troço. Eram dois olhos vermelhos. Gritou para Clara para tentarem alcançar a saída da sala, no entanto, ela ficou calada. Até que sua lanterna finalmente voltou a funcionar e iluminou o rosto dela. Estava estranhamente sério. Depois ela focou na direção dos olhos vermelhos e o que Patrick viu foi mais assustador ainda. Era Iliescu, com olhos vermelhos e dois dentes caninos enormes. O sorriso que exibia fez o corpo todo de Patrick gelar em um arrepio que ia da base da nuca até os seus pés. Ao se virar para pegar a mão de Clara e fugir notou que os olhos dela também estavam vermelhos, bem como o sorriso que naquele instante congelou a alma de Patrick. Os mesmos caninos enormes.
O grito de Patrick ecoou por todo o castelo em ruínas.
Fim