25/09/2026
Tácito Costa
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HOTEL SANTANENSE
Era por volta das 22 horas. O conterrâneo Zé Paulo, como era de costume, havia tomado umas e deixou o quarto segurando sua rede de dormir. Quando questionado para onde se dirigia àquela hora, respondeu que iria armá-la aos pés das mangueiras que havia no pátio.
Era um protesto insólito contra a superlotação do Hotel Santanense, administrado por dona Lourdes, mais conhecida pelos conterrâneos como “Lourdes de Chiquito”, como é costume no interior associar o nome de alguém ao de outro membro da família.
O hotel, cujo nome homenageava nossa cidade, Santana do Matos, funcionou de 1970 a 1980, na avenida Rio Branco, quando a Cidade Alta ainda vivia seus anos de maior movimento. Não tinha slogan nem marketing. Manteve-se graças à divulgação boca a boca, aos preços módicos que cobrava e ao ambiente de grande família, a começar pela nossa, formada por onze filhos. Mas, se tivesse um slogan, nenhum seria mais fiel ao seu modelo de funcionamento do que “sempre cabe mais um”.
Ninguém jamais deixou de se hospedar no hotel por falta de espaço ou dinheiro. Pagava-se por vaga. E quem chegasse liso ficava no fiado, para pagar no final do mês. Quanto mais gente coubesse no quarto, menor ficava a conta de cada um. E foi assim que o Hotel Santanense acabou juntando sob o mesmo teto gente que provavelmente jamais se encontraria em outro lugar.
Seus hóspedes eram, em sua maioria, mensalistas: estudantes do interior, comerciários e bancários, professores, funcionários de repartições públicas. Mas também havia aposentados solitários e homossexuais exuberantes, liderados por Marcílio. Uma moça dava expediente em Maria Boa e fazia bicos com st******se. Outra era amante de um militar da Marinha e devota de Iemanjá. Dois apresentavam distúrbios mentais. Os caixeiros-viajantes ficavam poucos dias — o tempo de fechar negócio — e iam embora sem que se soubesse muito sobre eles.