11/04/2026
“A bordo do último vagão do trensurb, em pé, em um dia especialmente quente, vejo um cara embarcar, se posicionar em um pequeno espaço e começar a falar. Tem boa projeção de voz e dicção, a postura transmite confiança sem cair na arrogância. Fala por cerca de dois minutos. Tempo suficiente para descrever articuladamente nada menos que 7 características do que está a vender, cada uma com um gesto que demonstra o quão fácil é manipular o produto. Termina a falar que é um preço de oportunidade que a porta logo irá se abrir e ele sairá do vagão. E faz tudo isto estabelecendo contato visual, olho no olho, com diversas pessoas ali. Carteira, um único modelo é todo o seu portfólio, como público clientes cansados depois de um dia de trabalho, todos ali certamente já tem carteiras. Comprei a carteira. Não foi pelos dez reais, nem por ter seis compartimentos para cartão, ser compacta, unisex, ser totalmente costurada, modelo 2023 , etc. Na verdade, paguei o show. A carteira foi um brinde. Poucos alunos do curso de teatro na universidade conseguiriam segurar o grau de atenção em uma platéia que a princípio não quer te assistir. “Quem te ensinou a vender?” - Pergunto ao pegar a carteira. Por um segundo ele sorri, com ar de malandro como todo bom vendedor, responde com modéstia: “O desespero.”. A porta abre e ele se vai. A expressão "experiência de compra” tão batida em manuais de venda me vem à mente. Sinto-me sorrir nem sei ao certo o porquê, talvez pela estampa da Calvin Klein, talvez por tristeza.”
Lúcio Canabarro