30/08/2026
Deonísio Da Silva, sócio-correspondente da Academia Joinvilense de Letras - AJL (cadeira n° 13), recorda momentos junto ao genial Luís Fernando Veríssimo, no dia em que lembramos do primeiro aniversário de sua morte.
Acompanhem o texto:
"UM ANO DA MORTE DE VERÍSSIMO
Já fazia falta desde 2021, quando parou de escrever.
Morreu hoje, 30 de agosto, o jornalista e cronista gaúcho Luís Fernando Veríssimo, escritor de talento como o pai, Erico Verissimo, o farmacêutico de Cruz Alta que a partir dos anos 30 dedicou-se com exclusividade a ser romancista e editor na editora Globo, ao se transferir para Porto Alegre.
O filho também pôde exercer o ofício em tempo integral. Estava sempre escrevendo suas crônicas e tiras de quadrinhos na Folha da Manhã, depois na Zero Hora, na VEJA e em outros grandes periódicos brasileiros, cujas antologias reunia depois em livros memoráveis como "O popular", "O analista de Bagé" e tantos outros, além de diversos romances.
Deixa-nos uma obra suculenta como os churrascos e as massas que o vi apreciar em Porto Alegre e em Passo Fundo. Era silencioso, mas certa vez conversamos o tempo todo numa viagem de ônibus de Porto Alegre a Passo Fundo que durou cinco horas.
O Instituto Estadual do Livro (IEL) dedicou-lhe um de seus Cadernos e fui encarregado de fazê-lo com uma equipe nota dez. Ele leu meu ensaio e assim autografou: "Para o Deonísio, que me explicou para mim mesmo".
Outra vez, em Santa Maria (RS), dois de nossos livros estavam indicados para o vestibular da UFSM e fomos procurados por alunos do ensino médio no restaurante onde almoçávamos. Eram estudantes que queriam saber se tinham acertado as questões. Li a minha e disse:" a certa é a letra B". "Errado. A certa é a D". Errei a resposta a uma pergunta sobre meu próprio livro. Diante disso, Luís Fernando não quis responder à dele: "Se o Deonísio, que é professor, errou a dele, imagine eu". Os alunos iam deixar o restaurante meio decepcionados, mas eu os consolei: "Escritor não sabe tudo. Nem mesmo sobre os livros que ele mesmo escreveu".
Quando desaparece uma pessoa querida como ele, nossa memória evoca bons momentos de um convívio, ainda que eventual. Eu me lembrarei dele como um cronista bem-humorado e de extraordinária criatividade. E também uma boa companhia onde quer que estivesse, por ser o que se chama de uma pessoa de bem, cuja presença nos é benéfica, entidade rara atualmente, sobretudo nesses dois últimos quadriênios, quando irrompeu uma hostilidade de opinião entre os brasileiros e o ar ficou irrespirável em muitos ambientes."
(*) professor aposentado da UFScar e escritor, Doutor em Letras pela USP, autor de "Avante, soldados: para trás" e "De onde vêm as palavras".