29/03/2026
A condenação do cantor paraense Bruno Nóbrega Mafra a mais de 30 anos de prisão por estupro de vulnerável continuado contra suas próprias filhas ganhou ampla repercussão nesta sexta-feira (27). A decisão foi mantida por unanimidade pelo Tribunal de Justiça do Estado do Pará (TJPA), com base em relatos considerados consistentes, corroborados por familiares e por laudos técnicos. Segundo os autos, os abusos teriam começado quando uma das vítimas tinha cerca de cinco anos de idade e se repetiram ao longo do tempo.
Natural de Belém, Bruno Mafra formou a banda Bruno & Trio que fez sucesso com hits como “24 Horas" nos anos 2000. Ele é irmão de David Mafra, empresário e jornalista bolsonarista que foi candidato a deputado federal pelo Solidariedade em 2022. Até o momento, David não se pronunciou sobre o irmão, o que tem gerado cobranças.
"É fácil opinar sobre os problemas dos outros, mas o verdadeiro caráter aparece quando a situação é dentro de casa. Você que sempre dá voz a casos graves… por que esse ficou de fora?", questionou uma internauta.
Sobre a condenação
De acordo com o processo, as denúncias surgiram em 2019, quando as vítimas já adultas, relataram abusos ocorridos durante a infância, entre 2007 e 2011. De acordo com os depoimentos, os abusos que aconteciam em ambientes variados, inclusive na residência familiar e em automóveis, incluíam toques íntimos, contato físico de natureza sexual e exposição a conteúdo pornográfico.
O caso de Bruno Mafra levou cerca de sete anos entre a denúncia e a confirmação da condenação em segunda instância. Uma das filhas vítimas dos abusos veio a público após a divulgação da decisão.
“Hoje eu vivo um luto, porque hoje eu enterrei o meu genitor. Por muitos anos eu quis que fosse meu pai, tivesse tido esse papel na minha vida. Não é um assunto fácil, não é algo que eu consigo ainda falar de maneira que não me machuque. Eu sempre digo que apesar de eu ter sido vítima, eu sou combativa, eu lutei. Foram sete anos de luta para que a gente tivesse uma resposta.
Também vim aqui como maneira de alerta, para que outras vítimas que tenham passado por isso na fase da infância saibam que é possível, sim, denunciar na fase adulta. Porque a gente não entende quando acontece na nossa infância. Quando a gente cresce a gente vai entendendo, e identificando, ali que a gente vai ter discernimento para decidir. Com a decisão de ontem, eu vejo que a Justiça pode ser feita.
Infelizmente a gente vive num mundo e num país que é misógino, que as mulheres precisam constantemente estar sempre provando o que falam e essa confirmação dessa sentença é a prova de que nosso depoimento tem força.
A gente não tá ganhando nada com isso. Na verdade, tudo isso é muito triste. Eu sempre falo isso pra todo mundo que sabe da minha história. O quanto que eu queria que meu genitor tivesse sido só um pai ausente, que ele não é pai, é genitor. Além de ele ter feito tudo o que ele fez, ele era um pai extremamente ausente.
Apesar de tudo isso, eu consegui. Eu estudei, eu trabalhei, eu tenho hoje minha empresa. E ele não me paralisou. E isso é um recado para toda vítima. Não deixe ele paralisar você. Ele não é o abuso que você sofreu. Você é muito além disso, e existe esperança. A gente segue, a gente consegue, e a gente sobrevive. Eu vivo um alívio, e um luto de enterrar meu genitor em vida."
Criminalização da Misoginia
Nesta semana, o Senado federal aprovou um projeto de lei 896/2023 que criminaliza a misoginia, que é o ódio, desprezo ou discriminação contra as mulheres. Pelo texto, a misoginia passa a ser enquadrada na Lei do Racismo (Lei 7.716/1989), com pena de dois a cinco anos de prisão, além de multa. Atualmente, esse tipo de conduta é tratado como injúria ou difamação, com punições mais brandas. O projeto será agora votado na Câmara.
A misoginia funciona como um combustível da violência contra as mulheres porque legitima, no plano simbólico e cultural, a ideia de que mulheres e meninas ocupam um lugar inferior, e portanto, podem ser controladas, silenciadas ou violadas. Quando discursos, práticas e até omissões reforçam essa lógica, criam-se as condições para que a agressão deixe de ser percebida como um crime e passe a ser tolerada ou relativizada. Combater a misoginia é desmontar a base que sustenta a própria reprodução da violência de gênero.
Defesa do acusado
Em nota, o escritório Filipe Silveira, responsável pela defesa do cantor, informou que “o processo judicial ainda se encontra em curso, inexistindo, até o presente momento, decisão definitiva. Serão adotadas as medidas recursais cabíveis, uma vez que a defesa sustenta a existência de relevantes violações ao devido processo legal, com potencial comprometimento da validade jurídica dos atos processuais e da própria decisão proferida”, diz a nota.
Os advogados também registraram preocupação com a divulgação de informações de um processo que tramita sob sigilo, “circunstância que, em tese, exige rigorosa observância das restrições legais de acesso e divulgação”.
Atualmente, Bruno Mafra reside em Portugal. O processo ainda não transitou em julgado, ou seja, ainda existem possibilidades de recurso às instâncias superiores, como o Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Federal.
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