11/10/2024
É tempo das cigarras. Com sua sinfonia inconfundível elas anunciam a chegada das águas trazendo ainda mais beleza ao pôr de sol vermelho e quente desse planalto desenhado pelo traço do Arquiteto. Nas palavras da poeta, "porque você pediu uma canção para cantar, como a cigarra arrebenta de tanta luz e enche de som o ar".
Algumas pessoas acreditam que as cigarras literalmente "estouram" de tanto cantar deixando seu corpinho inerte e sua rebeldia desaforada grudadas no tronco das árvores. Nesses tempos tão loucos em que nos falta tanto tempo que não nos permitimos desfrutar da riqueza daquilo que é de graça e por isso mesmo não tem preço, pensar que um ser tão incrível chegue a passar 20 anos embaixo da terra, finalmente resolva voar e depois morrer de cantar chega a ser mesmo poético. A cigarra se rebela e se contrapõe à formiga que trabalha sem cessar. Poético mesmo. Mas na verdade não é bem assim.
Das mais de 1.500 espécies de cigarra a Carineta fasciculata é uma das mais encontradas no Brasil. O canto é exclusivo dos machos para atrair as fêmeas. Sim, não é de hoje que um violão e um certo charme boêmio atraem tanto as garotas. Cada espécie tem seu trinado único para atrair apenas as fêmeas compatíveis, mas isso é fácil de entender: algumas mulheres gostam de Legião, outras de Rubel e outras, Deus nos livre delas, de Los Hermanos. O exoesqueleto (esqueleto externo) é formado de quitina, um polissacarídeo rígido, semelhante ao que forma as unhas (não as de gel). Com o passar do tempo e o crescimento da cigarra esse exoesqueleto, essa "casa", já não lhe cabe mais. Então ela precisa "mudar". Em um período doloroso de poucas horas essa cartilagem amolece, a cigarra liberta seu corpo mole, f**a extremamente vulnerável e precisa se isolar por um tempo até que a nova "casa" fique pronta. A casquinha da cigarra que vemos grudada nas árvores, portanto, não é fruto de explosão. Esse corpo, chamado de exúvia, é o final de um processo conhecido como muda ou ecdise. Essa é a verdade e talvez não pareça tão poética. Talvez.
A natureza nos mostra nesses tempos que vivemos, por meio da história do ciclo de vida desse ser incrível, que a rebeldia libertária da cigarra lhe grita, que chega uma hora em que não é possível mais viver no desconforto de certos lugares e situações. Que por mais doloroso que seja o processo, merecemos voar mais, muito mais longe, bem mais alto e cantar. Cantar cada vez mais forte. Mas isso não acontece como mágica.
A cigarra sente o desconforto da dor. Aceita a dor ainda maior do processo de mudança. Busca se libertar daquilo que a sufoca e pra isso precisa sentir mais dor e se ver por dentro, amolecer, ver-se nua, fragilizada, com frio e só. O deserto das cigarras é úmido, escuro e quente. Ela se recolhe até que esteja pronta pra seguir com seu canto rebelde, vivenciar outros ares, outras flores, velhas formigas, novos amores.
Se isso não for poético pra você eu não sei mais o que poderia ser.