13/09/2025
Trecho transcrito do jornal Correio Paulistano do dia 06 de abril de 1909
Barra do Batatal é uma florescente povoação fundada há dez anos pelo tenente-coronel Francisco de Assis Freitas, operoso comerciante e lavrador, em frente a foz do Rio Batatal e a margem do Ribeira de Iguape, de cuja zona esta colocada na mais bela e rica paisagem. Conta presentemente mais de 60 casas e é o centro de vasta região toda entregue à agricultura, colocada como se acha na confluência dos rios citados e no entroncamento das estradas para Capão Bonito do Paranapanema e Xiririca, com quem sustenta ativíssimas relações comerciais, assim como com Iporanga e São Jose do Guapiara.
Situadas em terrenos fertilíssimos, povoados por uma população laboriosa que se entrega de preferencia a cultura de cereais e engorda de porcos além de outras lavouras também muito desenvolvidas e igualmente compensadoras, é enorme e em continua progressão a sua exportação pelo porto de Iguape e estrada para Capão Bonito.
O seu vasto e fértil território, sulcada de inúmeros afluentes do Ribeira é coberto de viçosas matas e esplendidas pastagens todo divididos por pequenas propriedades agrícolas mais ou menos cultivadas, sem um palmo propriamente de sertão, de forma que a sua produção agrícola é, relativamente, considerável e variada.
Não obstante ser a mais bela e prospera povoação do município de Xiririca, com exceção, naturalmente, da sede, não é ainda cabeça de distrito devido a achar-se muito próximo de Itapeúna, distrito a que pertence; mas conta-se para muito breve a sua elevação a freguesia, pois já possui para isso a população necessária, elevando-se o numero de seus eleitores a maior que 100.
A importância que vai dia a dia adquirindo esta promissora povoação, principalmente depois da abertura da estrada para Capão Bonito, de cujo comercio com os municípios de Iporanga, Iguape e maximamente Xiririca, se tornou o entreposto natural, surgiu-me a ideia de enviar algumas correspondências para o correio paulistano, afim de torna-la mais conhecida e activar assim o seu desenvolvimento. Espero que o Correio se dignará dar-lhe abrigo em suas reputadíssimas colunas, concorrendo dessa forma para o progresso deste ignorado recanto do Estado de S. Paulo, de cuja adiantadíssima imprensa é ele o mais bello titulo de gloria; e, por isso, passo a desempenhar as minhas modestas fucções de noticiarista local, promettendo ser sempre conciso e imparcial partiu para essa capital, a passeio, o amigo e distinto conterrâneo, Capitão Francisco Marcilio Giany, a quem auguramos boa viagem e breve regresso.
Esteve entre nós, tendo já voltado para Xirirca, o Coronel Joaquim Brasileiro Ferreira, digno presidente o directorio governista e um dos mais antigos e prestigiosos chefes políticos da zona.
De passagem para Xiririca estiveram também nesta localidade o Capitão Jose Júlio da Silva, abastado fazendeiro deste districto, na Barra dos Pilões, e um representante da antiga e importante fabrica de chapéus de Adolpho Schritzmeyer.
Acham-se em péssimo estado as estradas que nos ligam a Capão Bonito e Xiririca, parecendo que o ilustre secretario da Agricultura as abandonou completamente ao seu destino constando que iludido por falsas informações sobre a utilidade real dessas vias de comunicação essas estradas conseguidas no governo de Dr Jorge Tibiriça, graças aos infatigáveis esforços do Coronel Brasileiro, nosso perseverante chefe politico, e ao Dr. Carlos Botelho, nomes esses para sempre venerado em nosso município, não foram conservadas convenientemente pelo governo, que so por dez anos conservou a de Capão Bonito, deixou-a depis no abandono, assim como desde o começo, a de Xiririca a Batatal.
Informam-nos da capital que ali chegaram informações de pessoas do município a fim de não serem concedidos os reparos e conservas das duas estradas, sob o pretexto de que as mesmas não tem utilidade pública. É impossível acreditar-se na veracidade de tais informações, porque não se concebe que haja pessoas que se transformem nesta época de intensa civilização em instrumentos da rotina e do obscurantismo, pondo obstáculos ao progredir de sua terra.
O fechamento dessas estradas daria um golpe de morte no comercio e lavoura dos municípios de Xiririca e Capão Bonito, pois ainda hoje, não obstante a sua intransitabilidade, seu lamentável abandono, é ininterrupto o seu transito de viajantes, tropas e carregamentos, boiadas e varas de porcos, e a balsa que desta povoação os transporta para a margem fronteira, onde começa a estrada para Xiririca, não tem um momento de folga em todos os dias da semana.
Quanto a essa balsa, outro melhoramento que devemos à progressista e patriótica administração do Dr. Carlos Botelho, é urgente também governo mande reconstruí-la, pois a actual não satisfaz já os fins para que foi criada, visto as canoas que as compõem se acharem inteiramente deterioradas. É preciso saber que essa balsa tem já quatro anos de serviço activo, que tem consistido e consiste principalmente na passagem de pesadíssima de boiadas, e tropas que descem de Capão Bonito e varas de porcos que para la sobem.
Esse trânsito considerável, a criação de porcos, que, pode-se afirmar, nasceu e progride extraordinariamente no município devido as referidas estradas e balsa, desaparecerão completamente no dia em que as mesmas forem suprimidas. A criação de porcos, muito fácil neste município pela abundancia do milho que produz, e para o qual não achamos mercado fácil, é de incalculável futuro para nós, porque Capão Bonito, Itapetininga, Tatuhy, S. Roque e outras cidades de serra Acima e da Sorocabana, serão sempre fáceis em absorver o excesso de nossa produção.
Uma das mais prementes necessidades que a muito tempo experimentamos e que embalde temos feito sentir ao governo é uma linha de correio entre São Jose do Guapiára e Xiririca passando por esta localidade.
Dizemos embalde porque a verba que o governo acaba de conceder para esse serviço é tão insignificante, 250$000 por mês, quando nem o dobro seria suficiente, que naturalmente ninguém se apresentará a solicitá-lo. De S. José do Guapiara a Xiririca são três dias de viagem, até esta localidade por caminhos quase intransitáveis; ora para fazer 15 viagens mensais, são precisos no mínimo 6 estafetas; como se pode pagar todo esse pessoal por um serviço insano so com 250$000?
Chamamos a atenção do governo para o abandono em que jaz a instrucção pública nesta localidade, onde não há uma só escola provida, não obstante haver duas criadas, uma do s**o masculino e outra mixta. Antigamente havia três, mas o governo criando esta suprimiu uma do s**o feminino. A ultima professora que tivemos foi a Srª D. Maria Leocadia de Freitas, que a mais de três anos foi removida para Xiririca, ficando nós desde então sem um único professor.
Temos uma população escolar nesta povoação e arredores de mais de 120 crianças no mais vergonhoso analfabetismo, mal que é comum no município de Xiririca, onde só há professores na sede. Parece que a República é inimiga da instrucção. Na monarchia o município de Xiririca tinha 14 escolas providas; hoje só tem 5, não obstante sua população ter duplicado!